Juca, o barão peralta que virou estadista

Por DJALBA LIMA (*)

O ano era 1872. O Rio de Janeiro ainda se pensava como Corte, com seus rituais, seus vícios e suas indulgências cuidadosamente distribuídas conforme o sobrenome, a renda e a utilidade futura de cada um. À noite, a cidade se soltava. A luz do gás dourava fachadas, as ruas fervilhavam de rumores, e certos endereços funcionavam como zonas francas da moral.

Entre eles, o Alcazar.

Não era apenas uma casa de espetáculos. Era um palco onde se colocava em prática a hipocrisia elegante da elite imperial. Ali se misturavam jovens herdeiros, funcionários do Estado em início de carreira, jornalistas, diplomatas em formação e curiosos endinheirados – todos fingindo ir pela música, quando sabiam muito bem que iam pela promessa.

Foi ali que Juca entrou naquela noite.

Tinha 28 anos. Cultura vasta. Inteligência afiada. Uma conta bancária permanentemente no limite. E uma relação frouxa com convenções que outros tratavam como cláusulas pétreas. Juca caminhava pelo Alcazar com a naturalidade de quem se sentia autorizado a tudo, não por arrogância, mas por uma intuição precoce de que a vida ainda lhe devia algo grande.

Então ela surgiu.

Marie Philomène Stevens – belga, morena, franzina e olhos negros. Executava números ligeiros, alguns classificados como pose plastique; outros que escapavam de qualquer classificação honesta. Havia plumas. Havia gestos calculados. Havia o domínio absoluto do tempo e do olhar alheio. O corpo dizia apenas o necessário. O resto, o público completava.

O que poderia ter sido apenas mais um encontro, desses que a cidade absorvia sem memória, virou outra coisa. Virou paixão. Daquelas que desorganizam horários, finanças e juízos.

Juca não se apaixonava com moderação. Nunca soube.

A relação avançou. Marie Philomène Stevens passaria a ser chamada de Josephine – o nome estrangeiro foi domesticado, talvez na esperança inconsciente de tornar aquela vida mais aceitável. Vieram cinco filhos. Cinco! Todos reconhecidos. Todos sustentados. Todos mantidos fora do retrato oficial que começava, lentamente, a ser desenhado para aquele jovem promissor.

Não houve casamento. Não houve escândalo. Houve silêncio. Silêncio é uma tecnologia social antiga. E muito eficiente.

Pouco depois, a vida pública começou a se impor. Surgiu um cargo consular – distante, funcional e estratégico. Liverpool, na Inglaterra, Porto cinzento, industrial, pragmático. Um lugar ideal para quem precisava enterrar o boêmio e fazer nascer o funcionário do Estado.

Ali, Juca mudou. Aprendeu a obsessão pelo detalhe. O respeito quase religioso pelos arquivos. O prazer seco das notas técnicas bem construídas. Mapas passaram a ocupar o espaço antes reservado a cartas apaixonadas. Tratados substituíram noites longas. O excesso foi sendo disciplinado. Não eliminado, mas canalizado.

Enquanto isso, no Brasil, pairava a sombra do pai.

José Maria da Silva Paranhos, o Visconde do Rio Branco, estadista, diplomata, militar e jornalista, presidente do Conselho de Ministros do Brasil Imperial, não rompeu com o filho. Tampouco o acolheu inteiramente. Visitava-o quando podia. Conversava, orientava, mas não entrava em sua casa. Não cruzar aquela porta era recusar a vida que não aprovava, sem precisar dizer isso.

Juca entendeu. Se quisesse avançar, teria de compartimentar a existência: vida privada de um lado, vida pública do outro. Nenhuma interseção visível.

Josephine permaneceu fora da História – mulher estrangeira, artista, mãe de cinco filhos de um homem que se tornaria monumento nacional. Sustentada, protegida e invisível. A História raramente tem espaço para essas mulheres, sobretudo quando lembrá-las atrapalha a harmonia do mito.

O tempo passou. O nome “Juca” foi ficando pequeno demais.

Em seu lugar surgiu outro, mais solene, mais grave, mais adequado aos salões onde se decidiam destinos nacionais. O antigo peralta agora falava pouco, escrevia muito e desconfiava de improvisos. O homem que aprendera cedo a errar em silêncio tornara-se mestre em acertar em público.

Foi assim que, já maduro, conduziu negociações que redefiniram o próprio desenho do país. Resolveu, sem guerra, disputas fronteiriças que poderiam ter incendiado o continente. Incorporou o Acre ao território brasileiro por meio de diplomacia, compensações financeiras e cálculo político, evitando um conflito armado com a Bolívia. Arbitrava, com paciência quase obsessiva, litígios com Argentina, França e Guiana, sempre apoiado em documentos, mapas antigos, tratados esquecidos e argumentos jurídicos sólidos.

Enquanto muitos falavam em bravura, ele falava em papel. Enquanto outros sonhavam com canhões, ele preferia arquivos. O resultado foi um feito raro na História do Brasil: fronteiras praticamente consolidadas sem guerras, uma política externa respeitada e a construção de uma diplomacia profissional que sobreviveria a impérios, repúblicas e crises.

O leitor atento já percebeu. O jovem do Alcazar, o amante imprudente, o pai clandestino, o filho observado à distância pelo Visconde, o cônsul aplicado, o negociador incansável não era personagem secundário da Corte.

Era José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco..

Um dos raríssimos estadistas de envergadura histórica que o Brasil produziu. Um homem que entendeu que o país precisava menos de heróis retóricos e mais de paciência técnica. Menos de bravatas. Mais de método.

Talvez o Brasil só consiga produzir grandes homens assim: imperfeitos na vida privada, rigorosos na vida pública. Talvez exija deles um pacto cruel: errar como homens para acertar como História.

Juca, o barão peralta, aceitou esse acordo. E venceu. A um preço que a História quase sempre, prefere não contabilizar.

Quando José Maria da Silva Paranhos Júnior morreu, em 10 de fevereiro de 1912, o Brasil fez algo que raramente faz: parou. O país caiu em luto oficial. O Carnaval foi suspenso, fato inédito e, até hoje, quase impensável. As bandeiras desceram a meio-mastro. As ruas se encheram. Não de curiosos. De gente.

O cortejo fúnebre transformou-se numa manifestação espontânea de reconhecimento nacional. O Barão recebeu honras de chefe de Estado, mesmo nunca tendo sido. Funcionários públicos, diplomatas, militares, operários, estudantes. Todos ali. Não para celebrar o homem íntimo, que poucos conheceram. Mas a obra.

Era como se o Brasil, por um instante raro, soubesse exatamente o que estava enterrando. Não um peralta. Não um boêmio do Alcazar. Não o amante silencioso de Josephine.

Mas o homem que lhe deu contornos. Que trocou bravatas por documentos. Que evitou guerras quando elas pareciam inevitáveis. Que construiu fronteiras com argumentos, não com cadáveres.

Poucos estadistas alcançam esse tipo de reconhecimento. Menos ainda o fazem sem jamais precisar de aplausos em vida. O Barão foi um deles. E talvez por isso mesmo tenha merecido algo que quase nunca concedemos: respeito tardio, mas profundo.

Juca, o barão peralta, finalmente descansava. O mapa do Brasil, que ele ajudou a construir, esse, permanecia.

(*) DJALBA LIMA é jornalista e editor de Relatos – A Estação da História..

djalba.lima@gmail.com Escrito por:

2 Comentários

  1. DOURIVAN LIMA
    dezembro 24, 2025
    Responder

    Belo retrato do Barão. Uma figura que teve seu auge na República, carregando um título do Império.

  2. MARIOSAN GONCALVES
    dezembro 30, 2025
    Responder

    Não conhecia praticamente esses detalhes da história desse homen. Fiquei fã dele. Se eu existisse naquela época, gostaria muito de ter bebido umas cervejas com ele lá no Alcazar. É claro, como artista do traço, eu, com certeza teria desenhado uma bela caricatura dele com aquele majestoso bigode. Ótimo relato. Parabéns.

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