Enquanto o mundo celebrava o triunfo do mercado e o fim das grandes disputas ideológicas, o historiador britânico Tony Judt enxergava sinais de uma crise silenciosa: o avanço da desigualdade, a erosão da solidariedade e o enfraquecimento da democracia. Neste perfil da seção Personagens, Relatos apresenta a trajetória e o pensamento de um dos intelectuais que melhor compreenderam as fragilidades do século XXI – e cujas reflexões se mostram hoje mais atuais do que nunca.
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Sessenta anos atrás, Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e João Goulart – antigos adversários separados por profundas diferenças políticas – uniram-se na Frente Ampla para enfrentar a ditadura militar. O movimento revelou a primeira grande fissura entre o regime e parte da elite civil que apoiara o golpe de 1964. Era também o reconhecimento tardio de uma ilusão histórica: acreditaram que poderiam usar o autoritarismo como solução provisória, mas descobriram que já não tinham as chaves para fechar as portas que haviam ajudado a abrir.
Durante décadas, o chamado “milagre econômico” foi apresentado como prova da eficiência administrativa da ditadura militar. Mas o crescimento brasileiro foi realmente excepcional ou fez parte de um ciclo de prosperidade que impulsionou diversas economias no pós-guerra? Este artigo analisa o legado econômico do regime, confrontando o mito da boa gestão militar com os números da inflação, da dívida externa, da desigualdade e da crise que marcou seus últimos anos. Mais do que revisitar um período da história, propõe um critério simples para avaliar qualquer governo: não pelos anos de bonança, mas pelo país que deixa às gerações seguintes.
Depois de mais de uma década de crises políticas, econômicas e institucionais, o eleitor brasileiro parece estar mudando. Em vez de depositar suas esperanças em líderes salvadores, passa a valorizar estabilidade, previsibilidade e segurança para construir o próprio futuro. A partir de dados do Datafolha e das reflexões de Ronald Inglehart, Zygmunt Bauman e Daniel Kahneman, este artigo analisa como a redução das incertezas pode ter se tornado a principal expectativa do Brasil às vésperas das eleições de 2026.
Os impérios mudaram, mas a disputa pela soberania permanece. Da Roma Antiga à inteligência artificial, a História revela como as grandes potências aprenderam a exercer influência muito além da ocupação militar. Um ensaio sobre poder, autonomia nacional e os novos desafios de um mundo em que a independência pode ser perdida sem que um único soldado atravesse a fronteira.
O que uma política pública adotada para atender dependentes químicos em Amsterdã pode ensinar sobre democracia, polarização e geopolítica? Partindo do conceito de redução de danos, este artigo discute a diferença entre a ética da convicção e a ética da responsabilidade, revisita algumas das grandes conquistas da civilização moderna e propõe uma reflexão sobre o Brasil diante de um mundo cada vez mais complexo e multipolar. Um ensaio sobre prudência, instituições e necessidade de preservar o futuro em tempos de radicalização.
Em 1869, Dostoiévski criou um personagem incapaz de odiar. O príncipe Míchkin, protagonista de O Idiota, tornou-se um dos maiores símbolos da bondade na literatura universal. Mais de 150 anos depois, sua história continua lançando uma pergunta inquietante sobre nosso tempo: o problema está no homem que preserva a compaixão ou na sociedade que passou a tratar a empatia como fraqueza? Entre Dostoiévski, Hannah Arendt, Edgar Morin e Tony Judt, este ensaio reflete sobre a banalização do sofrimento, a erosão da solidariedade e a crise moral de uma civilização que parece ter desaprendido a reconhecer suas próprias virtudes.
Em 1968, jovens tomavam as ruas, enfrentavam governos e acreditavam que poderiam mudar o mundo. Hoje, em um cenário marcado por hiperconectividade, individualismo, insegurança econômica e guerras transmitidas em tempo real, parte da juventude parece seguir outro caminho. O avanço de pautas conservadoras entre jovens em diversos países levanta uma questão inquietante: o que aconteceu com a geração da rebeldia? Entre a herança de Maio de 68 e os alertas sobre a crescente indiferença diante da violência, este artigo investiga as profundas transformações culturais e políticas que moldaram a juventude contemporânea.
Nem sempre a dominação se impõe pela força. Muitas vezes, ela conquista corações, consciências e identidades. Partindo da Síndrome de Estocolmo, do personagem Stephen em Django Livre e das reflexões de Paulo Freire, Gramsci, Bourdieu e Fanon, este ensaio investiga um dos maiores enigmas da história: por que tantos dominados acabam defendendo a ordem que os oprime? Uma reflexão sobre poder, ideologia, pertencimento e as correntes invisíveis que atravessam séculos.
