Em 1996, Raimar Richers me deu um conselho: imite o surfista e prepare-se para a próxima onda. Trinta anos depois, aquela conversa ajuda a compreender o desencontro do PT com uma sociedade que ele próprio ajudou a transformar. Da Revolução Francesa à Primavera Árabe, a história mostra que uma insatisfação legítima pode abrir caminho para resultados indesejados. Diante de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro, o Brasil precisa examinar o que acompanha a promessa de mudança – e seus riscos para a democracia e a soberania. Antes de subir na próxima onda, convém saber para onde ela vai.
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Em abril de 1962, João Goulart foi recebido por John Kennedy na Casa Branca com sorrisos, discursos e promessas de cooperação. Nos bastidores, porém, Washington já observava o presidente brasileiro com crescente desconfiança. Documentos secretos revelam como reformas sociais, nacionalismo econômico e política externa independente passaram a ser tratados como ameaças. Nesta primeira parte do Diário do Golpe, a cordialidade das fotografias começa a ceder lugar às pressões, ao dinheiro clandestino e aos primeiros planos para interferir no destino do Brasil.
Durante décadas, gravações, telegramas e memorandos permaneceram protegidos pelo sigilo. Agora, esses documentos revelam como Washington passou da aproximação com João Goulart à conspiração contra seu governo. A série Diário do Golpe reconstrói, passo a passo, a pressão econômica, a propaganda, os contatos militares e as operações clandestinas que prepararam o golpe de 1964. Uma história do passado que ajuda a reconhecer, no presente, os velhos métodos da interferência estrangeira.
Houve um tempo em que petistas, tucanos, conservadores e socialdemocratas discutiam política à mesa e, terminada a discussão, ainda tomavam café juntos. O país nunca foi livre de conflitos, mas o adversário não era necessariamente tratado como inimigo. A polarização afetiva, impulsionada pelas redes sociais e explorada pela extrema direita, atravessou a porta das casas, rompeu amizades e dividiu famílias. Esta crônica procura entender o que perdemos pelo caminho – e se ainda podemos reconstruir a mesa da convivência democrática.
O sigilo deveria proteger as investigações. No caso Banco Master, porém, combinado com vazamentos seletivos, passou a alimentar suspeitas, versões interessadas e desinformação eleitoral. Quando somente alguns conhecem os autos e a sociedade recebe fragmentos escolhidos, o segredo deixa de servir à Justiça e se transforma em instrumento de poder. Antes de votar, o cidadão tem o direito de conhecer os fatos, seu contexto e a defesa dos envolvidos.
Mais prisões, superpresídios e licença para matar entram na campanha presidencial. Mas a verdadeira segurança…
Enquanto o mundo celebrava o triunfo do mercado e o fim das grandes disputas ideológicas, o historiador britânico Tony Judt enxergava sinais de uma crise silenciosa: o avanço da desigualdade, a erosão da solidariedade e o enfraquecimento da democracia. Neste perfil da seção Personagens, Relatos apresenta a trajetória e o pensamento de um dos intelectuais que melhor compreenderam as fragilidades do século XXI – e cujas reflexões se mostram hoje mais atuais do que nunca.
Sessenta anos atrás, Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e João Goulart – antigos adversários separados por profundas diferenças políticas – uniram-se na Frente Ampla para enfrentar a ditadura militar. O movimento revelou a primeira grande fissura entre o regime e parte da elite civil que apoiara o golpe de 1964. Era também o reconhecimento tardio de uma ilusão histórica: acreditaram que poderiam usar o autoritarismo como solução provisória, mas descobriram que já não tinham as chaves para fechar as portas que haviam ajudado a abrir.
Durante décadas, o chamado “milagre econômico” foi apresentado como prova da eficiência administrativa da ditadura militar. Mas o crescimento brasileiro foi realmente excepcional ou fez parte de um ciclo de prosperidade que impulsionou diversas economias no pós-guerra? Este artigo analisa o legado econômico do regime, confrontando o mito da boa gestão militar com os números da inflação, da dívida externa, da desigualdade e da crise que marcou seus últimos anos. Mais do que revisitar um período da história, propõe um critério simples para avaliar qualquer governo: não pelos anos de bonança, mas pelo país que deixa às gerações seguintes.
