O homem que a ditadura não conseguia derrotar

JK simbolizava o Brasil que dava certa e, por isso, era considerado perigoso pela ditadura. Foto de Gervásio Batista/EBC

Em algum momento dos anos 1970, os setores mais duros da ditadura brasileira perceberam algo inquietante: a esquerda armada estava praticamente derrotada, mas o regime continuava vulnerável. A ameaça já não vinha mais das guerrilhas esmagadas pela repressão. Nem dos estudantes perseguidos. Nem dos exilados dispersos pelo mundo. Ela vinha de algo mais difícil de combater: a memória democrática. E nenhum nome simbolizava isso de maneira tão poderosa quanto o ex-presidente Juscelino Kubitschek.

Durante muito tempo, a história da repressão brasileira concentrou-se quase exclusivamente na luta armada. Mas os documentos hoje disponíveis mostram um quadro mais amplo, e talvez mais perturbador.

Os órgãos de segurança da ditadura monitoravam intensamente antigas lideranças civis brasileiras: ex-presidentes, ex-governadores, parlamentares, diplomatas, jornalistas, empresários e qualquer figura pública capaz de reorganizar uma alternativa política ao regime.

Entre esses nomes estavam o ex-presidente João Goulart, os ex-governadores Leonel Brizola e Carlos Lacerda e, de maneira particularmente sensível, JK. Hoje já não há dúvida documental de que Juscelino era alvo permanente de vigilância.

Relatórios do SNI acompanhavam viagens, encontros políticos, contatos internacionais e movimentações empresariais, com objetivo de monitorar quaisquer tentativas de reorganização da oposição civil. O CIEx – o serviço secreto criado pelo Itamaraty para monitorar brasileiros no exterior – também acompanhava atentamente essas movimentações.

À primeira vista, isso pode parecer exagerado. Afinal, JK não liderava guerrilhas. Não defendia revolução armada. Não articulava ações clandestinas. Mas é exatamente aí que está o centro do problema. O perigo chamado legitimidade.

Em meados da década de 1970, Juscelino Kubitschek talvez fosse o único nome capaz de conduzir uma transição democrática pactuada, gradual e sem ruptura radical. E isso o tornava perigosíssimo para setores da linha-dura militar.

Isso aparece, ainda que de maneira indireta, em inúmeros informes de inteligência da época. A linguagem burocrática dos relatórios escondia um temor político profundo: o medo de perder o controle da futura abertura democrática.

O esforço dos setores mais radicais do regime não era apenas para retardar qualquer abertura, mas impedir a volta da política.

A Frente Ampla e o trauma da união civil

O sinal de alerta máximo surgiu em 1966. Naquele ano, três fortes lideranças civis superaram antigas divergências e se uniram contra a ditadura: JK, João Goulart e Carlos Lacerda. Nascia a Frente Ampla.

A imagem era explosiva: o ex-presidente desenvolvimentista, o trabalhista deposto pelo golpe e o udenista conservador (e arrependido) que inicialmente ajudara a tramar a derrubada de Jango.

A simples aproximação entre os três demonstrava que o regime começava a perder legitimidade muito além da esquerda. A Frente Ampla não propunha luta armada. Propunha algo muito mais difícil de neutralizar: a reconstrução de uma frente civil democrática.

O regime reagiu rapidamente. A Frente Ampla foi proibida. A vigilância aumentou. E o monitoramento sobre JK tornou-se ainda mais intenso.

O exílio silencioso de um presidente

Quando teve os direitos políticos suspensos, em 1964, JK era senador por Goiás. Seu último discurso no Senado, na véspera da cassação do mandato, foi sombrio. “Muito mais do que a mim, cassam os direitos políticos do Brasil”, advertiu JK cinco dias antes de ser banido da vida pública.

Clique no botão abaixo para ouvi-lo.

Depois da suspensão dos direitos políticos, JK viveu em Portugal, mantendo atividades empresariais e contatos internacionais. Relatórios do SNI e do CIEx acompanhavam deslocamentos, reuniões, interlocutores e aproximações políticas.

Amigos relatavam momentos de profunda melancolia. A cassação o atingira não apenas politicamente, mas existencialmente.

O homem que construíra Brasília, que simbolizara o otimismo desenvolvimentista do pós-guerra e que fora recebido por chefes de Estado em todo o mundo agora era tratado como potencial ameaça à segurança nacional.

A lógica da Operação Condor

Ao longo dos anos 1970, os regimes militares do Cone Sul consolidaram uma ampla rede repressiva clandestina que ficaria conhecida como Operação Condor. Brasil, Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia passaram a compartilhar informações, vigilância. listas de opositores,
monitoramento de exilados e operações clandestinas.

Veja matéria sobre a Operação Condor.

Pesquisas históricas já demonstraram que o Brasil participou dessa estrutura desde seus primeiros momentos. Há referências documentais a contatos entre o chefe da Dirección de Inteligencia Nacional (Dina), general Manuel Contreras, e seu parceiro no Brasil, o chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), general Carlos Alberto da Fontoura.

Em estudos sobre a gênese da Condor aparecem menções à preocupação regional com lideranças civis capazes de reorganizar movimentos democráticos, entre elas Juscelino Kubitscheck.

Nem toda a documentação foi plenamente aberta. Nem todos os arquivos sobreviveram.
Mas o quadro geral tornou-se historicamente claro: as ditaduras do Cone Sul passaram a enxergar ex-presidentes e lideranças moderadas como ameaças estratégicas.

1976: o ano das sombras

O contexto político da morte de JK permanece como um dos capítulos mais inquietantes da história republicana brasileira. Em poucos meses morreram JK, em agosto de 1976; Jango, em dezembro de 1976; e Carlos Lacerda, em maio de 1977.

As três maiores lideranças civis associadas à possibilidade de reorganização democrática desapareceram em sequência. Por coincidência, as três lideranças da Frente Ampla proibida pelo governo militar.

Durante décadas, a versão oficial sustentou que JK morreu em 22 de agosto de 1976, aos 74 anos, em um acidente automobilístico na Rodovia Presidente Dutra (altura de Resende, RJ). Por essa versão, ele e seu motorista, José Geraldo Ribeiro, morreram quando o Chevrolet Opala em que viajavam invadiu a pista contrária e colidiu com uma carreta.

A versão sustentada à época foi de que o motorista perdeu o controle do carro após uma batida leve com um ônibus, atravessou o canteiro central e colidiu de frente com uma carreta. A família e setores da sociedade sempre questionaram essa versão, levantando a suspeita de uma emboscada ou sabotagem.

Novas análises e laudos passaram a apontar para a possibilidade de um atentado político. Relatórios da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos reforçam que a morte teria sido causada por interferência externa, como uma emboscada na rodovia. O caso voltou ao centro das discussões nacionais, com órgãos do governo avaliando a reabertura oficial das investigações.

djalba.lima@gmail.com Escrito por:

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