Por DJALBA LIMA (*)
8 de maio sempre me pareceu uma dessas datas em que o calendário deixa de ser apenas uma contagem do tempo e se transforma em símbolo. No meu caso, há uma coincidência que carrego quase como uma responsabilidade moral: completo 69 anos justamente no Dia da Vitória, a data que marcou a derrota do nazismo na Europa, em 1945.
Talvez por isso eu nunca tenha conseguido olhar para a democracia como algo banal.
Nasci doze anos depois do fim da guerra, mas cresci ouvindo histórias sobre o horror produzido quando a intolerância, o fanatismo e o culto à força substituem a razão, a convivência e a dignidade humana. Ao longo da vida, vi ditaduras surgirem, vi democracias fraquejarem e vi multidões serem seduzidas pelo ódio e pela mentira travestidos de patriotismo.
E talvez a principal lição que a História tenha me dado seja esta: a barbárie nunca chega anunciando a si mesma como barbárie. Ela chega prometendo ordem, grandeza, pureza, salvação, segurança. Foi assim em diferentes épocas. Continua sendo.
Aos 69 anos, não tenho mais paciência para ambiguidades morais diante do autoritarismo.
Continuo acreditando, de forma quase teimosa, em valores que muitos consideram antiquados: democracia, liberdade de pensamento, respeito às diferenças, justiça social, ciência, cultura, compaixão, direitos humanos e civilidade. Continuo acreditando que nenhum projeto político vale mais do que a dignidade humana.
Ser antifascista, para mim, nunca foi slogan. É apenas o nome correto para quem aprendeu com a História.
Defender a democracia não significa acreditar que ela seja perfeita. Significa compreender que, fora dela, o que costuma florescer é o medo, a violência e o silêncio imposto.
Ao longo desses 69 anos, perdi ilusões, revi certezas, abandonei ingenuidades. Mas conservei algo que considero essencial: a recusa em normalizar a brutalidade.
E talvez envelhecer seja justamente isso: perceber que o mundo muda, as tecnologias mudam, os governos mudam, mas certos princípios não podem mudar sem que a própria condição humana se deteriore junto.
Neste 8 de maio, não comemoro apenas um aniversário.
Celebro também a sobrevivência de uma ideia: a de que a civilização ainda vale a pena. E que continuar defendendo a democracia, a liberdade e o humanismo talvez seja, mais do que nunca, uma forma de resistência.
Viva! Uau! Tem valido a pena!

Por que escolhi esta foto
Esta é uma fotografia extremamente simbólica do fim da Segunda Guerra Mundial: uma imagem carregada de alívio coletivo, exaustão histórica e esperança.
O que vemos nela é uma multidão de soldados e civis celebrando a paz após anos de destruição global. Os cartazes improvisados com a palavra “PEACE” (“PAZ”) dominam a cena e transformam a fotografia quase num manifesto visual.
O que a imagem mostra: a foto parece ter sido feita em uma cidade europeia nos momentos finais da guerra na Europa, provavelmente em maio de 1945, durante as comemorações do chamado Victory in Europe Day, o “Dia da Vitória na Europa”, quando a Alemanha nazista se rendeu oficialmente aos Aliados.
A atmosfera da imagem é reveladora: rostos sorridentes; soldados misturados a civis; ausência de formalidade militar rígida; cartazes feitos às pressas; e sensação de catarse coletiva.
Não parece uma manifestação organizada pelo Estado, mas uma explosão espontânea de alegria. E isso importa historicamente.
Por que a palavra “PEACE” é tão poderosa?
Hoje, olhando retrospectivamente, muita gente imagina a vitória aliada apenas como triunfo militar. Mas para quem viveu aquela época, a palavra central era outra: PAZ.
Entre 1939 e 1945: dezenas de milhões morreram; cidades inteiras foram destruídas; populações viveram sob bombardeios; famílias ficaram anos separadas; havia racionamento, medo e luto permanentes.
Então, quando a guerra terminou, o sentimento dominante não era “glória”. Era alívio.
A fotografia captura exatamente isso: não o orgulho imperial, mas a sensação humana de sobrevivência. Um detalhe importante: os rostos. Há algo muito forte nos rostos da foto. Eles não têm a solenidade típica das imagens militares oficiais.
Muitos parecem jovens demais; cansados; e emocionalmente desarmados.
Isso sugere uma transição psicológica: do soldado para o cidadão comum. Como se, naquele instante, aquelas pessoas quisessem deixar de ser combatentes e voltar simplesmente a ser humanas.
Também chama atenção a presença de mulheres uniformizadas. Isso é historicamente relevante porque a Segunda Guerra acelerou transformações profundas: mulheres assumiram funções militares; trabalharam na indústria; participaram do esforço de guerra; e ampliaram sua presença pública e política.
A guerra ajudou a desmontar estruturas sociais antigas, embora de forma traumática.
(*) DJALBA LIMA é jornalista e editor de Relatos – A Estação da História.

Parabéns pelo aniversário e por mais uma boa reflexão, Djalba.
Excelente análise, Djalba! Parabéns pela defesa da da Democracia e por seu aniversário.! Muitíssimas felicidades, sempre!
Feliz aniversário, meu amigo!
Mais um belo texto, eivado de sabedoria e sentimento, um retrato descrito do seu papel na vida, de sua visao de mundo!