A ascensão da China, o fortalecimento dos BRICS e a crise da hegemonia americana colocam o Brasil diante de uma escolha histórica: radicalização permanente ou maturidade estratégica.
Por DJALBA LIMA (*)
Durante décadas, a política internacional funcionou em torno de um eixo relativamente estável. Os Estados Unidos emergiram da Segunda Guerra Mundial como potência dominante do planeta – econômica, militar, tecnológica e culturalmente. Mesmo após o fim da Guerra Fria, a ideia de uma ordem internacional organizada a partir de Washington parecia quase natural.
Esse mundo está mudando. Não de forma abrupta, como nas grandes rupturas do século XX, mas por um processo gradual de deslocamento de poder, influência e capacidade econômica. A ascensão da China, o crescimento da Índia, a reorganização das cadeias globais, o fortalecimento dos BRICS e as dificuldades internas enfrentadas pelos próprios Estados Unidos indicam que o planeta caminha para uma configuração mais multipolar, mais competitiva – e também mais instável.
Nesse novo cenário, países médios como o Brasil passam a ocupar uma posição potencialmente estratégica. Mas há um detalhe decisivo: em tempos de transição global, radicalismos internos podem se transformar em formas de autossabotagem nacional.
O mundo que emerge diante de nós
O cientista político Fareed Zakaria chamou esse processo de “mundo pós-americano”: não necessariamente o fim dos Estados Unidos, mas o surgimento de outros polos capazes de disputar influência econômica, tecnológica e geopolítica.
Ao mesmo tempo, o analista brasileiro Oliver Stuenkel observou que países emergentes passaram a reivindicar participação mais ativa nas decisões globais, reduzindo o monopólio político tradicional das potências ocidentais.
É nesse contexto que os BRICS ganham importância crescente. Não como uma aliança ideológica homogênea – ela claramente não é –, mas como expressão de um fenômeno histórico maior: a busca por um sistema internacional mais distribuído, menos concentrado e mais negociado.
Para o Brasil, isso abre oportunidades relevantes: expansão comercial, diversificação de parcerias, maior autonomia diplomática e ampliação de influência regional e global.
Mas essas oportunidades exigem algo que raramente prospera em ambientes radicalizados: pragmatismo estratégico.
A armadilha da polarização em um mundo complexo
O Brasil vive hoje uma polarização que deixou de ser apenas política. Tornou-se afetiva, identitária e, em muitos casos, quase tribal. O adversário deixou de ser alguém com quem se disputa o poder para se tornar alguém cuja existência política parece intolerável.
Esse fenômeno não é exclusivamente brasileiro. Os cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt mostraram, em Como as democracias morrem, que democracias começam a se deteriorar quando desaparecem dois elementos fundamentais: a tolerância mútua e a contenção institucional
Ou seja: quando adversários deixam de se reconhecer como legítimos e passam a usar todo instrumento disponível para destruir o outro lado.
O problema é que essa lógica, além de corroer instituições internas, reduz drasticamente a capacidade estratégica de um país no cenário internacional. O mundo multipolar exige flexibilidade, negociação e capacidade de dialogar simultaneamente com diferentes polos de poder. E radicalismos ideológicos, por definição, estreitam essa margem de manobra.
A nova lógica do poder
A Guerra Fria operava sob uma lógica binária. Em muitos casos, os países eram pressionados a escolher lados. O século XXI funciona de outra forma. Hoje, um mesmo país pode negociar tecnologia com a China; manter cooperação militar com os Estados Unidos; ampliar comércio com a Europa; e integrar fóruns multilaterais com Índia, África do Sul e Oriente Médio. Nesse ambiente, alinhamentos automáticos tendem a produzir perdas.
O debate brasileiro recente oferece exemplos concretos desse risco. Durante participação na Conservative Political Action Conference, no Texas, o senador Flávio Bolsonaro (RJ), candidato do PL à Presidência da República, defendeu uma aproximação estratégica fortemente alinhada aos interesses norte-americanos, especialmente na disputa global por minerais críticos e terras raras. O discurso foi interpretado por críticos como sinal de disposição para um alinhamento automático do Brasil à lógica geopolítica de Washington.
O problema dessa perspectiva não está em manter relações estreitas com os Estados Unidos – algo historicamente importante e economicamente necessário para o Brasil. Os EUA continuam sendo parceiro em tecnologia, investimentos, comércio e segurança internacional.
A questão é outra: em um mundo multipolar, transformar política externa em extensão de guerras ideológicas internacionais pode significar redução, e não ampliação, da soberania nacional.
Hoje, só 13% das exportações brasileiras se destinam aos Estados Unidos. O restante (87%) destina-se a China, União Europeia, Oriente Médio e demais mercados emergentes. Isso torna a economia brasileira estruturalmente dependente de uma diplomacia mais ampla, flexível e multilateral.
Nesse cenário, alinhamentos automáticos tendem a estreitar a margem estratégica do país. E é exatamente aqui que a ideia de redução de danos reaparece no debate político.
Talvez democracias altamente polarizadas já não consigam produzir o “candidato ideal” imaginado por parcelas do eleitorado. Mas continuam podendo produzir escolhas mais ou menos capazes de preservar estabilidade institucional, pragmatismo diplomático, racionalidade econômica e capacidade de inserção global.
Sob essa ótica, a redução de danos deixa de significar resignação. Passa a significar a tentativa de evitar que radicalizações ideológicas comprometam interesses históricos permanentes do país.
No novo cenário, a diplomacia abandona a postura de afirmação ideológica e volta a ser aquilo que historicamente sempre foi em seus momentos mais sofisticados: a administração pragmática dos interesses nacionais.
O conceito de multilateralismo ganha nova centralidade exatamente porque nenhum país consegue mais organizar sozinho a ordem global. E isso aumenta o peso relativo de potências médias capazes de transitar entre diferentes atores. O Brasil é uma delas. Ou pode deixar de ser.
Redução de danos: da política interna à geopolítica
A expressão “redução de danos” nasceu em áreas como saúde pública e segurança social. Seu princípio é simples: quando um problema não pode ser eliminado imediatamente, a prioridade passa a ser evitar que ele produza consequências ainda mais destrutivas.
Aplicada à política, essa lógica ganha uma dimensão particularmente relevante em sociedades altamente polarizadas. Significa reconhecer uma realidade desconfortável: em determinados momentos históricos, talvez já não seja possível construir consensos amplos – e o desafio principal passe a ser impedir que o conflito destrua a própria capacidade de funcionamento do país.
É exatamente esse o risco das sociedades capturadas por guerras ideológicas permanentes.
Quando a política deixa de organizar projetos nacionais e passa a operar apenas pela lógica da mobilização emocional contínua, o país perde capacidade estratégica. O debate público se estreita. Instituições entram em desgaste constante. A formulação de políticas de longo prazo se torna quase impossível.
E isso é particularmente perigoso em um mundo que atravessa uma profunda transformação geopolítica. Enquanto sociedades polarizadas consomem energia em conflitos intermináveis, outras avançam em tecnologia, infraestrutura, inteligência artificial, educação, transição energética, inserção global e reindustrialização.
A disputa do século XXI não será vencida por slogans, guerras culturais ou radicalizações permanentes. Ela tenderá a favorecer países capazes de combinar estabilidade institucional, racionalidade econômica, flexibilidade diplomática, capacidade de negociação e um mínimo de coesão interna
É nesse ponto que a redução de danos deixa de ser apenas um conceito aplicado à política doméstica e passa a se tornar uma estratégia de sobrevivência nacional em um mundo multipolar.
O Brasil diante de uma escolha histórica
Talvez o maior desafio brasileiro não seja escolher entre direita e esquerda. Talvez seja escolher entre um país aprisionado em radicalizações permanentes e um país capaz de operar com maturidade estratégica em um mundo cada vez mais complexo.
Essa é a diferença entre política tribal e política de Estado. Entre o grito permanente e a construção paciente. Entre o impulso ideológico imediato e a percepção histórica de longo prazo.
O Brasil de hoje já não pode ser pensado segundo a lógica binária da Guerra Fria.
Isso significa que o Brasil passou a depender de uma inserção internacional muito mais diversificada – e, portanto, muito mais complexa.
Nesse cenário, políticas externas capturadas por radicalismos ideológicos ou alinhamentos automáticos tendem a produzir não soberania, mas redução da margem estratégica do país.
Em um sistema multipolar, pragmatismo não é oportunismo. É sobrevivência geopolítica.
(*) DJALBA LIMA é jornalista e editor de Relatos – A Estação da História.

Você faz um ótimo alerta sobre o radicalismo ideológico que capturou o bom senso no Brasil e noutras partes do mundo. Realmente, esse é um retrocesso que nos custará bem caro e que compromete gravemente nosso futuro como nação.
Excelente relato , meu caro Lima. Vem em um momento oportuno em que teremos daqui há pouco nossa eleição presidencial. Talvez neste momento, o importante é mirar na esquerda que tem um projeto para este mundo multipolar. O outro lado, todos já sabem o que querem . Todos unidos a um só propósito: mais soberania e menos submissão ao Titio Sam.