O colapso da compreensão: Morin e a crise civilizatória do século XXI

Por DJALBA LIMA (*)

Edgar Morin — pseudônimo de Edgar Nahoum — atravessou quase toda a história contemporânea. Nascido em Paris, em 8 de julho de 1921, e falecido na capital francesa em 29 de maio de 2026, a poucas semanas de completar 105 anos, foi mais do que um antropólogo, sociólogo e filósofo: foi um intérprete incansável das esperanças, tragédias e contradições humanas.

Judeu sefardita, resistente ao nazismo, intelectual inquieto e observador atento das transformações do mundo, Morin teve o raro privilégio – e talvez o pesado fardo – de testemunhar dois séculos: o XX e o XXI. Viu guerras mundiais, totalitarismos, genocídios, revoluções tecnológicas, triunfos e crises da democracia, nascimento da internet, globalização e advento de uma humanidade hiperconectada mas frequentemente incapaz de compreender a si mesma.

E talvez seja justamente aí que reside a atualidade de seu pensamento.

Neste texto, vamos mergulhar nas ideias de um homem que parece ter antecipado muitas das angústias do nosso tempo: a era das fake news, da polarização, das certezas furiosas, do colapso do diálogo e da dificuldade crescente de compreender a complexidade humana.

As trincheiras morais

As redes sociais transformaram diferenças em trincheiras morais. Famílias se rompem por política. Amigos deixam de se falar. A mentira industrializada circula com velocidade superior à verdade. Líderes autoritários são tratados como salvadores. O debate público degrada-se em gritos, slogans e simplificações brutais. O adversário deixa de ser alguém com quem se discorda e passa a ser visto como inimigo absoluto, indigno de escuta, compreensão ou humanidade.

Talvez o problema não seja apenas político. Talvez seja civilizatório.

E talvez poucos intelectuais tenham percebido isso com tanta antecedência quanto Edgar Morin, autor de Os sete saberes necessários à educação do futuro. Muito antes da explosão das redes sociais, da inteligência artificial, das fake news e da radicalização digital, Morin identificou aquilo que chamava de “os buracos negros da educação”: tudo aquilo que a escola, a universidade e as instituições modernas deixaram de ensinar justamente quando isso se tornava indispensável para a sobrevivência da própria civilização.

Seu diagnóstico continua assustadoramente atual.

Morin compreendeu que o grande fracasso de nossa época não está apenas na economia, na política ou na tecnologia. Está na incapacidade de lidar com a complexidade humana. Fomos treinados para memorizar conteúdos, competir, especializar-nos e produzir. Mas não fomos educados para compreender.

E sem compreensão, a democracia adoece, o conhecimento degenera em arrogância, a informação se transforma em manipulação e a política se converte em fanatismo.

As cegueiras do conhecimento

O primeiro alerta de Morin talvez seja o mais desconfortável: o conhecimento humano é vulnerável ao erro, à ilusão e ao autoengano.

A modernidade acreditou durante muito tempo que o avanço científico produziria automaticamente sociedades mais racionais. Mas o século XX destruiu essa ilusão de forma brutal. A Alemanha que produziu Goethe, Beethoven e Einstein também produziu Auschwitz. Médicos participaram de experiências nazistas. Engenheiros aperfeiçoaram máquinas de destruição. Burocratas organizaram deportações em escala industrial.

Como observou Hannah Arendt, o mal nem sempre nasce do ódio explosivo; muitas vezes nasce da incapacidade de pensar criticamente. Morin percebeu algo semelhante: a inteligência técnica não impede a barbárie. Pelo contrário, pode servi-la.

A manipulação em escala planetária

Hoje, a mesma humanidade que desenvolve inteligência artificial também produz ecossistemas digitais capazes de disseminar ódio, paranoia e manipulação em escala planetária. A mentira deixou de ser artesanal; tornou-se industrial.

As redes sociais criaram um ambiente em que a emoção vale mais que a verificação. O ressentimento vale mais que a reflexão. O algoritmo premia o choque, a indignação e a simplificação. Não há recompensa para nuance. Não há viralização para complexidade.

E a complexidade é exatamente aquilo que Morin defendia.

Para ele, um dos grandes erros da educação moderna foi fragmentar o conhecimento em disciplinas isoladas, incapazes de dialogar entre si. Formamos especialistas brilhantes que sabem tudo sobre uma pequena parcela da realidade – e quase nada sobre o restante.

O economista entende gráficos, mas ignora psicologia social. O tecnólogo domina sistemas, mas despreza ética. O político fala de segurança sem compreender desigualdade. O engenheiro projeta máquinas sem refletir sobre seus impactos humanos.

Criamos uma civilização tecnicamente sofisticada e intelectualmente fragmentada.

Morin insistia que compreender exige contextualizar. Um fenômeno humano nunca pertence a uma única dimensão. A crise econômica não é apenas econômica; envolve medo, emoção, comportamento coletivo, cultura e política. A violência não é apenas policial; envolve exclusão, urbanização, memória histórica e desesperança. O extremismo político não nasce apenas de ideologias, mas também de humilhações, frustrações, ansiedade social e sensação de abandono.

Mas pensar de forma complexa exige esforço. E sociedades em crise tendem a buscar soluções simples.

Por que o discurso autoritário prospera

É por isso que os discursos autoritários prosperam em períodos de medo. Eles oferecem explicações fáceis para problemas difíceis. Criam inimigos absolutos. Eliminam ambiguidades. Transformam a política numa batalha moral entre “puros” e “corruptos”, “patriotas” e “traidores”, “povo” e “inimigos internos”.

A complexidade incomoda. O fanatismo simplifica.

Morin também atacava outro mito profundamente moderno: a ideia de que o ser humano é essencialmente racional. Não somos. Somos contraditórios, emocionais, passionais e tribais. Somos capazes de altruísmo extraordinário e crueldade absurda. Carregamos dentro de nós impulsos de cooperação e destruição. O mesmo ser humano que escreve poemas pode participar de linchamentos digitais. O mesmo cidadão que defende a liberdade pode apoiar a censura contra quem considera inimigo.

O século XXI tornou isso visível de forma quase dolorosa.

As redes e a remoção dos “freios”

As plataformas digitais não criaram a intolerância humana; apenas removeram os freios sociais que a continham parcialmente. O anonimato, a velocidade e a lógica tribal transformaram o espaço público em uma arena emocional permanente. O debate virou performance. A indignação tornou-se capital político.

E talvez o ponto mais dramático da reflexão de Morin esteja justamente aí: nunca tivemos tantos meios de comunicação e nunca experimentamos tamanha crise de compreensão.

Compreender, para Morin, não significa concordar. Significa reconhecer a complexidade do outro. Significa perceber que seres humanos não cabem integralmente em caricaturas ideológicas.

Mas o espírito de nosso tempo opera na direção oposta. As pessoas já não querem compreender; querem enquadrar. Não querem dialogar; querem vencer. Não querem ouvir; querem confirmar suas próprias crenças.

O crescimento do extremismo

A incompreensão tornou-se um modelo de organização social. Morin chamava isso de “câncer do relacionamento humano”.

E talvez seja impossível compreender o mundo contemporâneo sem reconhecer o peso desse fenômeno. A polarização política global, o crescimento dos extremismos, a radicalização religiosa, os nacionalismos agressivos e o colapso do diálogo democrático são sintomas de uma civilização emocionalmente incapaz de lidar com diferenças.

A isso soma-se outra característica decisiva do nosso tempo: a incerteza. A modernidade vendeu a ideia de progresso linear e previsível. Acreditou-se que a humanidade caminharia continuamente rumo à estabilidade, ao desenvolvimento e ao aperfeiçoamento racional. Então vieram as guerras mundiais. As crises econômicas. Os genocídios. As pandemias. As rupturas tecnológicas. O colapso climático. As guerras híbridas. A inteligência artificial. O inesperado tornou-se regra.

Educar para enfrentar a incerteza

Morin insistia que educar também significa preparar seres humanos para enfrentar a incerteza sem sucumbir ao desespero ou ao fanatismo. O problema não é a imprevisibilidade da história – ela sempre existiu. O problema é nossa arrogância diante dela.

Talvez a maior ilusão moderna tenha sido acreditar que controlávamos plenamente o futuro.

Hoje, convivemos simultaneamente com ameaças nucleares, emergência climática, manipulação algorítmica, crises democráticas e hiperconcentração de poder tecnológico. Pela primeira vez na história, a humanidade possui meios reais de comprometer o próprio destino planetário.

E isso nos conduz a outro ponto central de Morin: a condição planetária. Durante séculos, os seres humanos viveram relativamente isolados em civilizações, impérios e culturas separadas. Agora, tudo está interligado. Uma crise financeira em um país afeta mercados globais. Uma guerra altera cadeias de abastecimento em continentes inteiros. Um vírus atravessa fronteiras em dias. O desmatamento de uma floresta modifica o equilíbrio climático do planeta.

Nunca fomos tão interdependentes. E, paradoxalmente, nunca o nacionalismo agressivo, o sectarismo e os discursos de exclusão reapareceram com tanta força. Morin via nisso um dos grandes desafios da humanidade: construir uma consciência planetária sem destruir a diversidade humana. Perceber que compartilhamos um destino comum.

Talvez seja essa a grande questão do século XXI. Seremos capazes de continuar vivendo como tribos emocionais armadas de tecnologia planetária? Porque este é o verdadeiro paradoxo contemporâneo: ampliamos enormemente nosso poder técnico sem ampliar na mesma proporção nossa maturidade ética.

Em busca da dimensão civilizatória

Produzimos máquinas cada vez mais inteligentes em sociedades cada vez mais incapazes de compreender a si mesmas. É nesse ponto que a reflexão de Morin ultrapassa a educação e assume dimensão civilizatória. Ele não estava apenas propondo uma reforma pedagógica. Estava defendendo uma nova forma de pensar o ser humano. Uma educação capaz de ensinar não apenas matemática, biologia ou informática, mas também dúvida, empatia, autocrítica, complexidade e responsabilidade coletiva.

Uma educação que ensinasse a reconhecer o erro antes do fanatismo. A compreender antes de odiar. A contextualizar antes de julgar. A pensar antes de compartilhar. Talvez pareça pouco. Mas talvez seja exatamente o que separa civilização e barbárie.

Em uma era dominada por algoritmos, ressentimento e certezas furiosas, Edgar Morin continua oferecendo algo profundamente subversivo: a coragem de pensar com complexidade. E talvez civilização seja exatamente isso. A capacidade de compreender o outro antes que seja tarde demais.

(*) DJALBA LIMA é jornalista e editor de Relatos – A Estação da História.

djalba.lima@gmail.com Escrito por:

Um comentário

  1. Teresa Cardoso
    junho 2, 2026
    Responder

    Belíssimo texto, Djalba. Eu, que sabia pouquíssimo de Edgar Morin, aprendi muito aqui. E você destacou exatamente essa complexidade do avanço científico e tecnológico acontecer simultaneamente ao retrocesso no relacionamento humano. Somos hoje uma civilização tecnicamente sofisticada e intelectualmente fragmentada. Realmente, temos de lutar pra compreender o próximo antes que seja tarde demais. Ótima reflexão.

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