Edgar Morin atravessou dois séculos e antecipou muitos dos dilemas do nosso tempo. Judeu sefardita, resistente ao nazismo, sociólogo e filósofo, refletiu sobre polarização, intolerância, fake news, crise da democracia e o colapso da capacidade humana de compreender. Neste artigo, Relatos – A Estação da História mergulha no pensamento de um dos grandes intérpretes da condição humana para entender por que, em um mundo hiperconectado, parecemos cada vez mais incapazes de dialogar, pensar com complexidade e conviver com diferenças.
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1968 começou sob o signo da paz – e rapidamente mergulhou em turbulência. Enquanto o Papa Paulo VI apelava por tréguas no Vietnã, a Ofensiva do Tet abalava a confiança dos Estados Unidos na guerra. Em Paris, estudantes erguiam barricadas, enfrentavam a polícia e desencadeavam uma das maiores ondas de contestação do século XX. Em meio a assassinatos políticos, protestos, greves e revoltas globais, uma geração colocou em xeque governos, instituições e valores tradicionais.
As gravações de Henry Kissinger revelam os bastidores da política externa dos Estados Unidos durante a Guerra Fria. Ao cruzar conversas telefônicas, memorandos e documentos desclassificados, emerge um padrão inquietante: decisões estratégicas tomadas com base em interesses geopolíticos, mesmo quando isso implicava apoiar golpes, tolerar regimes autoritários ou ignorar consequências humanitárias. O texto mostra como Chile, Brasil, Camboja e Bangladesh se inserem nessa lógica – e como a gestão da informação e da imprensa fez parte do processo. Mais do que recontar a história, as fitas expõem como o poder pensa.
O velho mundo agoniza – e não é metáfora. A ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial se desfaz diante de nossos olhos. Instituições enfraquecem, regras perdem força e o multilateralismo vira retórica vazia. Em Davos 2026, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, reconheceu esse colapso sem nostalgia. Um século antes, Antonio Gramsci já havia alertado: quando o velho mundo morre e o novo tarda a nascer, surgem os monstros. Este artigo liga esses dois momentos históricos. E pergunta: quem ocupa o vazio quando as regras deixam de valer?
O que há em comum entre o Lebensraum de Hitler e o vital space de Trump? Em ambos, o espaço deixa de ser soberania e passa a ser necessidade estratégica. No século XX, a Alemanha nazista chamou expansão de sobrevivência. No século XXI, a força reaparece sob a linguagem da segurança e dos recursos. Groenlândia, Venezuela, zonas de influência: territórios viram ativos. A exceção vira método, o direito recua, a força avança. Como Mussolini, Trump transforma política externa em espetáculo de poder. E a História volta a perguntar: estamos reconhecendo o caminho a tempo?
Intervenções militares raramente cumprem o que prometem. Do Afeganistão à Líbia, do Iraque ao Chile, o saldo histórico é recorrente: Estados desmontados, sociedades fraturadas e democracias adiadas. A retórica muda – segurança, liberdade, valores –, o resultado não. Ao romper o pudor diplomático e falar abertamente em petróleo, Trump apenas expôs o que sempre esteve por trás da força. Diante desse histórico, a pergunta: o que a Venezuela pode esperar no pós-intervenção?
