Da rebeldia à reação conservadora: a juventude no mundo que perdeu a capacidade de se indignar

Por DJALBA LIMA (*)

Houve um tempo em que os jovens acreditavam que podiam parar uma guerra. Não era metáfora. Nos Estados Unidos, nos anos 1960, estudantes ocuparam universidades, marcharam em massa, enfrentaram polícia, desafiaram o governo e transformaram a Guerra do Vietnã em um problema político incontornável. Em Paris, em 1968, o levante estudantil ajudou a desencadear uma greve geral que paralisou o país. Em várias partes do mundo, inclusive no Brasil, a juventude tornou-se um ator histórico – não apenas um grupo etário, mas uma força.

Aquela geração acreditava em duas coisas simples e explosivas: que a política podia ser confrontada — e que o mundo podia ser transformado.

Hoje, o cenário parece outro. As imagens continuam brutais. Crianças mortas, cidades destruídas, populações inteiras submetidas ao medo, ao deslocamento e à fome. Gaza, Irã e outros territórios marcados pela guerra contemporânea expõem níveis de violência que chocariam qualquer consciência minimamente sensível.

Mas a reação global da juventude parece – à primeira vista – menos intensa, menos coordenada, menos disruptiva. A pergunta, portanto, se impõe:

A resposta exige cuidado. E exige método.


Estados Unidos, anos 1960: jovens tomam as ruas contra a Guerra do Vietnã. “Amor, não guerra” era a palavra de ordem dos movimentos pela paz em todo o mundo.

A geração que enfrentou a guerra

A chamada Geração 68 não foi apenas rebelde; ela foi estruturalmente mobilizada. A Guerra do Vietnã tinha características específicas que favoreceram essa mobilização:

• Primeiro, havia o recrutamento obrigatório. A guerra não era uma abstração distante – era uma ameaça concreta. Jovens sabiam que poderiam ser enviados ao front. A política, nesse contexto, era literalmente uma questão de vida ou morte.

• Segundo, havia um inimigo claramente definido: o próprio Estado que conduzia a guerra. Isso gerava uma lógica de confronto direto. Protestar era pressionar o centro do poder.

• Terceiro, havia instituições de mobilização coletiva: universidades massificadas, sindicatos, partidos, movimentos organizados. A ação política era, antes de tudo, coletiva e presencial.

E, talvez mais importante: havia uma utopia disponível.

Aquela geração acreditava, com todas as suas contradições, que era possível construir um mundo mais livre, menos hierárquico e mais justo. A crítica à guerra fazia parte de um projeto maior de transformação social.

O Vietnã não era apenas uma guerra. Era o símbolo de um sistema que precisava ser contestado.

A geração que assiste à guerra

A juventude atual não é apática, mas é estruturalmente diferente.

O primeiro ponto é decisivo: a guerra deixou de ser uma experiência direta para grande parte dos jovens no Ocidente. Não há recrutamento em massa. Não há risco imediato pessoal. A guerra tornou-se, para muitos, um fenômeno mediado – algo que chega pela tela.

E isso muda a intensidade da reação.

O segundo ponto é a transformação da própria esfera pública. A mobilização hoje ocorre, em grande medida, dentro de ecossistemas digitais fragmentados. A indignação existe, mas ela se dispersa em timelines, hashtags, bolhas e ciclos rápidos de atenção.

A energia que antes ocupava ruas agora se dilui em fluxos contínuos de informação.

O terceiro ponto é mais profundo: a ausência de um horizonte utópico compartilhado.

Se a geração de 1968 tinha projetos – socialistas, libertários e reformistas –, a juventude atual cresce em um ambiente de descrença. As grandes narrativas perderam força. O futuro parece incerto, quando não ameaçador.

Em vez de transformar o mundo, muitos jovens buscam apenas sobreviver nele.


Na década de 1960, a política não era distante para os jovens – era uma ameaça concreta, capaz de levá-los ao front.

Entre o engajamento e a sensação de impotência

Aqui está o ponto mais importante e mais frequentemente mal interpretado. A aparente “apatia” pode ser, em parte, uma forma de impotência estrutural.

O jovem de 1968 acreditava que protestar poderia mudar decisões de governo. O jovem de hoje muitas vezes não acredita que sua ação, seja ela qual for, altere o curso de guerras conduzidas por potências, alianças militares e interesses geopolíticos globais.

Além disso, há um fator novo: a saturação da tragédia.

Nunca se viu tanta violência em tempo real. Nunca se “consumiu” tanta dor mediada. E o efeito paradoxal disso não é necessariamente mais mobilização. Pode ser o contrário: entorpecimento.

A repetição constante de imagens extremas reduz a capacidade de reação emocional sustentada.

Mas é verdade que os jovens estão em silêncio?

Não completamente. Há protestos pró-Palestina em universidades, manifestações em diversas capitais, campanhas digitais, boicotes, mobilizações organizadas. Em alguns países, especialmente na Europa e nos Estados Unidos, estudantes voltaram a ocupar os campi.

Mas há uma diferença crucial:

• Essas mobilizações não se converteram, até agora, em uma força sistêmica comparável à de 1968.

• Elas são mais fragmentadas, menos duradouras e menos capazes de produzir rupturas institucionais amplas.

Da utopia à ansiedade

A comparação entre as duas gerações revela algo maior do que diferenças de comportamento político. Ela revela uma mudança no próprio espírito do tempo. A geração de 1968 nasceu em um mundo que, apesar de suas tensões, ainda oferecia expansão econômica, mobilidade social e crença no progresso.

A juventude atual amadurece em um cenário de precarização do trabalho, crise de moradia, instabilidade política, hiperconectividade, colapso de confiança nas instituições e guerra cultural permanente.

Nesse contexto, a rebeldia muda de forma. Ela pode deixar de ser emancipatória e se tornar defensiva. Pode deixar de mirar o sistema e passar a buscar identidade, ordem e pertencimento – muitas vezes traduzidos em linguagens políticas conservadoras.

Uma incômoda indiferença, e a globalização da impotência

Há uma palavra que talvez ajude a compreender melhor o contraste entre 1968 e o presente: indiferença. O alerta não vem apenas de analistas ou cientistas sociais. Vem também de uma das vozes morais mais influentes do mundo contemporâneo: o Papa Leão XIV.

Em diferentes pronunciamentos, o pontífice tem insistido em um diagnóstico inquietante: vivemos sob o risco de uma “globalização da indiferença”, em que o sofrimento alheio deixa de mobilizar ação. Mais grave ainda: essa indiferença pode evoluir para algo ainda mais perigoso – uma “globalização da impotência”, na qual as pessoas, mesmo tocadas pela dor, permanecem “imóveis, silenciosas”, acreditando que nada pode ser feito.

Em outra fala, o Papa foi ainda mais direto ao denunciar uma “indiferença vergonhosa” diante de povos submetidos à violência extrema.

Gaza, 2025. O sofrimento humano nunca foi tão visível. A mobilização coletiva, paradoxalmente, parece cada vez mais rara. Crédito: arquivo de cobertura da guerra em Gaza (autoria a confirmar).

Quando a violência deixa de chocar

A ciência social e a psicologia ajudam a entender esse fenômeno. Estudos sobre comportamento em contextos de guerra mostram que a exposição contínua à violência pode gerar dessensibilização emocional.

Em análise de redes sociais durante a guerra do narcotráfico no México, pesquisadores identificaram um dado inquietante: à medida que a violência aumentava, as reações emocionais negativas diminuíam – um sinal claro de adaptação psíquica ao horror.

Em termos simples: quanto mais violência se vê, menos ela impacta.

A era da saturação

Se em 1968 a guerra chegava em fragmentos – jornais, revistas e outros relatos –, hoje ela chega em fluxo contínuo: vídeos em tempo real; imagens cruas, sem mediação; e repetição incessante nas redes sociais.

O resultado não é necessariamente mais engajamento. Pode ser o contrário: fadiga moral.

A indignação, quando permanente, perde intensidade. A tragédia, quando cotidiana, perde excepcionalidade.

Indiferença ou impotência?

Aqui está a distinção crucial – e mais sofisticada. A geração de 1968 reagia porque acreditava que podia mudar o curso dos acontecimentos.

Hoje, muitos não reagem – ou reagem menos – não porque não sintam, mas porque não acreditam na eficácia da ação. A indiferença, nesse sentido, pode ser apenas a superfície. Por baixo dela, pode haver algo mais profundo: a sensação de que o mundo se tornou grande demais, complexo demais, distante demais para ser transformado.

O risco silencioso

Se esse diagnóstico estiver correto, a mudança histórica é profunda. O problema já não é apenas a existência da violência. É a possibilidade de que ela deixe de nos mobilizar.

E, como sugere o próprio Papa, uma humanidade que se acostuma ao sofrimento alheio corre o risco de perder não apenas sua capacidade de agir – mas sua própria capacidade de se indignar.

O erro de julgamento

Talvez o maior equívoco seja julgar a juventude atual com os critérios de 1968.

A geração que enfrentou a guerra do Vietnã agiu dentro de um tipo de mundo. A geração atual reage a outro – mais fragmentado, mais incerto, mais difuso.

O que parece apatia pode ser, em muitos casos, desorientação histórica. O que parece silêncio pode ser, em parte, falta de instrumentos eficazes de ação coletiva.

Uma pergunta incômoda

E se a questão não for apenas o que os jovens fazem, mas o que o mundo permite que eles façam?

Se a política perdeu capacidade de responder, se as instituições fracassaram em sua credibilidade e se o poder se deslocou para esferas menos permeáveis à pressão popular, então a equação muda.

A Geração 68 acreditava que podia mudar o mundo. A juventude atual muitas vezes suspeita que o mundo não quer ser mudado.

O tempo que estamos construindo

A história não se repete, mas ilumina. Quando olhamos para 68, vemos uma juventude que acreditava no impossível. Quando olhamos para hoje, vemos uma juventude que convive com o improvável.

Entre uma e outra, não está apenas a diferença de atitude. Está a diferença de mundo.

E talvez a pergunta mais urgente não seja por que os jovens de hoje não fazem o que os de 1968 fizeram. Mas sim:

(*) DJALBA LIMA é jornalista e editor de Relatos – A Estação da Notícia.

djalba.lima@gmail.com Escrito por:

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