Por DJALBA LIMA (*)
Neste Dia do Trabalho, vale inverter a pergunta habitual: não “quem trabalha mais?”, mas “quem vive melhor?” De um lado, um indígena do Xingu, inserido em um modo de vida em que a subsistência demanda poucas horas diárias – caça, pesca, coleta e convivência. O restante do tempo é ocupado por rituais, narrativas, descanso e observação do mundo.
De outro, um trabalhador da periferia da grande São Paulo: acorda antes do amanhecer, enfrenta até cinco horas de deslocamento, cumpre uma jornada formal e retorna exausto. Sua vida é fragmentada entre transporte, trabalho e cansaço.
A pergunta incômoda emerge quase naturalmente: qual desses mundos é, de fato, mais civilizado?
A preguiça como crítica à civilização produtivista
A tradição intelectual já enfrentou essa provocação – e não a tratou com ironia leve, mas com seriedade filosófica. O socialista Paul Lafargue, no século XIX, foi direto ao ponto: o culto ao trabalho é uma construção ideológica. Em O Direito à Preguiça, ele sustenta que o trabalhador moderno foi condicionado a desejar sua própria exploração. Para ele, o problema não era a falta de trabalho, mas o excesso, que rouba o tempo de viver.
Décadas depois, o poeta Mario Quintana transformaria essa crítica em ironia luminosa: se o homem não tivesse preguiça de andar, não teria inventado a roda. A preguiça, nesse sentido, não é atraso, mas o motor da inteligência.
Já na coletânea organizada por Adauto Novaes, a ideia ganha contornos contemporâneos: o ócio não é vazio, mas condição para o pensamento, a arte e a consciência.
O paradoxo moderno: produtividade sem vida
Se Paul Lafargue denunciava o excesso de trabalho como alienação, Domenico de Masi foi além: ele propôs uma redefinição completa da relação entre trabalho, tempo livre e produção. Para De Masi, a oposição clássica entre “trabalho” e “preguiça” é falsa. O que existe, na verdade, é uma terceira dimensão: o ócio criativo.
Nesse estado, três elementos se fundem: trabalho (atividade produtiva), estudo (aquisição de conhecimento) e lazer (prazer e contemplação).
Não há fronteiras rígidas. Pensar, observar, conversar, imaginar: tudo isso também é produção. E, muitas vezes, a mais sofisticada.
A crítica central: o atraso está na obsessão pelo trabalho
A tese de De Masi é desconcertante para o senso comum: sociedades que trabalham demais não são mais avançadas; são menos evoluídas na gestão do tempo. Para ele, o desenvolvimento tecnológico deveria reduzir drasticamente o tempo de trabalho obrigatório. Mas o que ocorreu foi o contrário: ganhamos eficiência… e perdemos liberdade.
A jornada “996” é o símbolo extremo dessa distorção: um modelo que ignora completamente a capacidade humana de criar fora da lógica industrial. Trabalhar das 9h às 21h, seis dias por semana. Dizem que é produtividade, mas, na prática, é exaustão institucionalizada.
Esse modelo revela uma contradição central: quanto mais avançamos tecnologicamente, menos tempo livre parece restar. A promessa de libertação pelo progresso se converte, muitas vezes, em intensificação da servidão.
O indígena do Xingu sob outra luz
Aqui, o seu contraponto ganha profundidade teórica. Sob a lente de De Masi, o indígena que trabalha poucas horas por dia não está “atrasado”. Ele vive, de certo modo, mais próximo de um equilíbrio que a sociedade industrial perdeu: produz o necessário, preserva tempo livre, mantém vínculos sociais e simbólicos e integra vida e atividade
Enquanto isso, o trabalhador urbano moderno vive a fragmentação: trabalha muito, vive pouco e cria quase nada fora das obrigações.
O ócio como forma de resistência
É aqui que a “preguiça” ganha um novo significado. Não como inércia, mas como recusa consciente – recusa à lógica de que o valor humano se mede pela produtividade; recusa ao tempo totalmente colonizado pelo trabalho; e recusa à aceleração permanente.
Nesse sentido, a preguiça se aproxima do que hoje se chama de ócio criativo: um espaço onde surgem ideias, conexões e sentidos que o ritmo produtivo sufoca. Quem é, afinal, mais civilizado?
Se civilização for medida por tecnologia, infraestrutura e produção, a resposta parece óbvia.
Mas se civilização for medida por tempo disponível para viver; equilíbrio entre necessidade e desejo; capacidade de contemplação; e liberdade em relação ao trabalho, então a resposta já não é tão simples.
Talvez o indígena do Xingu não seja menos civilizado; apenas pertença a uma outra lógica de civilização, em que a vida não foi subordinada ao trabalho.
Trabalhamos para que?
Neste 1º de Maio, a provocação permanece: não é o trabalhador que precisa justificar sua preguiça. É a sociedade que precisa justificar por que transformou a vida em um expediente contínuo.
Porque, no limite, a pergunta não é econômica, mas existencial: trabalhamos para viver ou vivemos para trabalhar?
(*) DJALBA LIMA é jornalista e editor de Relatos – A Estação da História.

Excelente, amigo Djalba!
Excelente e oportuno. O atraso nas ditas sociedades civilizadas – e especifico a realidade brasileira – está bem situada nos circuito do patronato, que se confunde com a extrema direita. Haja vista a postura do “mercado” sobre o projeto de extinção da jornada 6×1.
Belíssimo texto, Djalba. Hoje mesmo ouvi o economista José Kobori dizer que a jornada 6 x 1 torna o trabalhador um sério candidato a doenças psíquicas e que o Estado não deve patrocinar leis contrárias à saúde humana. Você também, contrapondo a ocupação do indígena do Xingu com a carga horária do operário da sociedade industrial, deixa bem claro onde está a lucidez nessa discussão. Tomara que sejam ouvidos.