Por DJALBA LIMA (*)
O cara de pau é um personagem antigo. Mais antigo que a República, mais longevo que qualquer Constituição. Ele atravessa regimes como quem atravessa a rua fora da faixa com a convicção de que a buzina alheia é exagero, e a lei, um detalhe.
No Brasil, o cara de pau não se esconde. Ao contrário, desfila.
O termo, como se sabe, nasceu da ideia da máscara – aquela face de madeira usada em rituais antigos para permitir o que, fora do rito, seria inaceitável. A máscara suspendia a vergonha, libertava o gesto, anistiava o excesso. No Carnaval, essa suspensão virou regra: durante alguns dias, tudo podia. O problema começou quando alguns decidiram não tirar mais a máscara na Quarta-feira de Cinzas.
Desde então, o país convive com uma fauna peculiar de personagens que agem como se a vida pública fosse um eterno bloco de rua.
Há, por exemplo, o Banqueiro Fantasma. Não aquele que aparece no noticiário sobre economia, ou que até aparece ensinando as pessoas a serem bem-sucedidas, mas que, de repente, passa a frequentar outras páginas – as de assuntos policiais ou judiciários. Antes, ele falava a língua da modernidade, da inovação e da eficiência. Mas seu rastro é feito de dívidas, ruínas silenciosas e vítimas invisíveis – sobretudo aquelas que confiaram economias de uma vida inteira à sua retórica elegante. Quando confrontado, não se explica: sorri. O sorriso é parte da máscara. Madeira bem polida.
Existe também o Magistrado do Espelho Fosco. Figura solene, vestida de neutralidade, capa preta, adepta do discurso da técnica e da institucionalidade. Seu problema não é o erro – é a convivência promíscua com aquilo a que deveria manter distância. Ele não vê conflito; vê coincidência. Não enxerga promiscuidade; chama de acaso. E, quando o reflexo ameaça ficar nítido demais, afasta-se do espelho dizendo tratar-se de zelo republicano. O gesto é correto. O contexto, constrangedor. Mas constrangimento, para o cara de pau, é artigo em falta.
E há ainda o Herdeiro do Estado, talvez o mais curioso dos espécimes. Ele discursa contra a dependência do poder público, exalta o mérito individual, critica o peso da máquina estatal. Faz isso, curiosamente, de dentro da própria máquina, sustentado por ela, cercado por parentes que também vivem – todos – do mesmo cofre que juram querer fechar. É o liberalismo financiado a contracheque. Um samba-enredo em que o refrão diz “menos Estado”, enquanto o carro alegórico passa inteiro pago pelo Estado.
Nenhum deles se percebe como caricatura. Esse é o ponto central. O cara de pau não se vê como vilão. Ele se vê como esperto. A ética, para ele, é um acessório opcional; a coerência, um luxo dispensável. Seu talento maior é transformar contradição em normalidade – e normalidade em virtude.
Por isso, talvez, o Brasil tenha produzido uma de suas mais sinceras análises políticas em forma de marchinha:
“Me dá um dinheiro aí.”
– Marchinha composta por Homero, Glauco e Ivan Ferreira.
Não há metáfora mais honesta. Não há programa mais explícito. O cara de pau não pede desculpas, pede verba. Não se justifica, solicita transferência de dinheiro. Não cora: cobra.
E o faz com naturalidade desconcertante, como quem acredita – talvez com razão – que o público já se acostumou. A repetição anestesia. O absurdo, quando diário, vira paisagem. A máscara cola no rosto. “Todos os políticos são assim”, dizem com naturalidade desconcertante aqueles que juram defender uma mudança apocalíptica dos costumes, mas não de seus ídolos.
Toda época estranha gera seus mitos. A nossa parece ter optado por um só: o da desfaçatez como método. Não se trata mais de desvio ocasional, mas de estilo. Não é exceção: é performance.
O problema não é que existam caras de pau. Eles sempre existiram. O verdadeiro sinal de anomalia histórica é quando eles deixam de causar espanto – e passam a causar tédio. Ou normalidade.
Quando isso acontece, o Carnaval não termina. Ele apenas muda de endereço: sai da avenida e entra nas instituições.
E a máscara de madeira, enfim, vira rosto – o rosto medonho da mentira.
(*) DJALBA LIMA é jornalista e editor de Relatos – A Estação da História.

Parafraseando o título de um famoso livro de Eduardo Galeano, As caras e as máscaras, acho que no Brasil político hoje estes dois elementos se fundiram . Quando vc vê os filhos (daquele ) que demoniza veementemente o Estado e aplaude ardorosamente as privatizações, é a prova mais concreta disso. Já observaram que não tem nenhum sequer, fora da política? Todos surrupiando o erário publico. Os quinta-colunas!
Djalba Lima, seus textos trazem conteúdo, conhecimento acumulado em leituras e vivências – no quotidiano de casa, das ruas, das escolas e das redações _, além da fineza de estilo e doçura na atração do leitor. A República da Cara de Pau nos mostra bem uma cúpula social que procura a dissimulação e uma república promíscua desde a origem (calcada num golpe sórdido e em decisões cruéis de discriminação racial e preconceito social)..