Por DJALBA LIMA (*)
Quando Donald Trump se enfurece porque Bad Bunny canta em espanhol no show do Super Bowl, o episódio é mais do que uma birra cultural. É um raio-X. A irritação revela uma ideia estreita e proprietária de “América”: uma América reduzida ao que cabe na moldura do nacionalismo anglófono, como se o resto do continente fosse periferia – e como se o espanhol (língua materna de centenas de milhões de pessoas) fosse um “corpo estranho” dentro do que ele chama de grandeza.
Só que a América – as Américas – é maior do que Trump. E maior do que a visão imperial que, ao longo de dois séculos, setores do poder em Washington tentaram impor ao continente.
Bad Bunny encerrou sua apresentação com uma frase simples e devastadora para quem pensa “posse”: “Together, we are America” – e projetou a ideia de que o ódio nunca é a força mais potente. Ao listar países e territórios e ao mencionar Porto Rico, ele lembrou o que a geopolítica costuma esconder: a identidade americana é continental, mestiça, multilíngue, caribenha, andina, amazônica, platina, negra, indígena, migrante.
Trump reagiu chamando o show de “tapa na cara do nosso país” e reclamando que “ninguém entende uma palavra” do que Bad Bunny diz. O ponto é justamente esse: a América não cabe no monolinguismo.
América é um continente, não um slogan
“América” não é sinônimo de “Estados Unidos”. Isso é uma apropriação semântica com consequências políticas.
A América é:
• imensidão territorial: do Ártico às ilhas subantárticas; do Caribe às altas cordilheiras; da Amazônia aos desertos e pampas.
• imensidão humana: civilizações originárias, diásporas africanas, ondas migratórias europeias e asiáticas, e novas migrações que redesenham as cidades do continente.
• imensidão linguística: espanhol, português, francês, inglês, crioulo haitiano, quíchua, aimará, guarani, náuatle, mapudungun – e centenas de línguas indígenas.
• imensidão cultural: salsa, samba, tango, cumbia, reggaeton; García Márquez e Guimarães Rosa; Neruda e Drummond; muralismo mexicano, tropicalismo, cinema argentino, caribenhidade, andinidade.
Essa pluralidade não é “folclore”. É poder: poder de criar, de resistir, de reinterpretar o mundo.
O “quintal” é uma doutrina (e não é nova)
O incômodo aqui é histórico: a velha tentação de tratar o hemisfério como área de serviço de Washington. O termo “quintal” não é uma metáfora inocente. É um programa. E reaparece, sem pudor, no próprio governo Trump.
Em 2025, o secretário de Defesa Pete Hegseth chamou as Américas do Sul e Central de “quintal” dos EUA ao criticar a influência chinesa – e citou Trump: “vamos recuperar o nosso quintal”.
Esse vocabulário é o herdeiro direto de uma linhagem conhecida:
• Doutrina Monroe (1823): “o hemisfério é nossa zona”; Europa, não se meta – mas com o tempo a frase virou: ninguém se meta, porque é meu.
• Corolário Roosevelt e Big Stick: intervenção como “polícia” regional.
• Guerras, ocupações e “mudanças de regime” no século XX e na Guerra Fria.
• Pressões econômicas e sanções como forma moderna de tutela.
E a retórica continua viva. Em janeiro de 2026, num debate televisivo nos EUA, a própria expressão “America’s backyard” foi usada como chave de leitura geopolítica do hemisfério, de modo tão naturalizado que virou parte do senso comum do establishment.
O truque moral: “segurança”, “ordem”, “liberdade”… e controle
O padrão é recorrente: o poder se apresenta como proteção, mas opera como tutela. Quando Washington fala “segurança hemisférica”, muitas vezes significa:
• capacidade de decidir quem governa, com quem se alinha e o que compra/vende;
• capacidade de punir desvios com sanção, isolamento, chantagem tarifária ou operação encoberta;
• capacidade de definir quais vidas importam no noticiário e quais viram estatística.
Em 2026, um exemplo desse vocabulário reapareceu com força quando Trump, em declaração pública, voltou a abraçar a noção de que a América Latina e o Caribe compõem o “quintal” – uma ideia com raízes e reforços históricos, sobretudo na Guerra Fria.
A grandeza da América também é política: não é “quintal”, é protagonista
A História do continente não é apêndice da História dos EUA. A América produziu projetos próprios – alguns interrompidos, outros derrotados, muitos renascidos –, mas todos reveladores de protagonismo:
• experiências de desenvolvimento e soberania econômica (com seus erros e acertos);
• movimentos de direitos civis e democratização;
• integração regional em diferentes formatos;
• diplomacias altivas e pragmáticas;
• pensamento social e político original, que não é cópia de Paris nem de Washington.
A disputa real, no fundo, é esta: o continente é sujeito – e não objeto.
Por que Bad Bunny irrita tanto essa visão estreita
Porque ele fez, em pleno espetáculo pop global, aquilo que o “quintal” tenta impedir simbolicamente:
• afirmou que o espanhol é parte legítima da experiência americana;
• colocou Porto Rico no centro, lembrando que há um território caribenho ligado aos EUA cuja identidade não se dissolve no molde “americano” de Trump;
• transformou “América” em um plural concreto: gente, bandeiras, pertencimentos;
• encerrou com uma tese moral simples: amor > ódio – e isso é o oposto da política como ressentimento.
Ou seja: não foi “só um show”. Foi um choque de narrativas sobre quem tem o direito de definir o que é “América”.
Enfim…
Sr. Trump, respeite a América. Ela não é seu quintal, nem seu espelho, nem seu palco privado. Ela é um continente inteiro ~ vasto, contraditório, genial, ferido e criador – que existe antes e além de qualquer Casa Branca.
E se um artista caribenho cantando em espanhol, diante do mundo, é capaz de abalar sua ideia de grandeza, talvez o problema não esteja no show.
Talvez esteja na pequenez da sua definição de América.
(*) DJALBA LIMA é jornalista e editor de Relatos – A Estação da História.

Muito bom. Excelente texto.
Perfeito!
Que Deus abençoe a NOSSA América!
Cristalino como água de cachoeira, preciso como um bisturi. Eis um ensaio em que a interdisplinariedade se expressa plena, dissecando a prepotência de um empresário inescrupuloso inserido em política como, em jargão brasileiro, o jabuti no poste. O momento de Trump é como que uma ampliação do que vivemos de 1964 a 1985, no Brasil e outros países desta América Latina. Bad Bunny expande-se líder e conclama as nações à resistência.