Donald Trump se irritou com um show em espanhol. O episódio expôs algo maior: sua visão estreita sobre o que é a América. Este texto resgata a dimensão continental das Américas – sua diversidade cultural, política e histórica. Mostra como os Estados Unidos, ao longo do tempo, tentaram tratar o continente como “quintal”. E lembra o essencial: a América é grande demais para caber em qualquer pretensão imperial.
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Em 3 de fevereiro de 1962, John F. Kennedy oficializou o bloqueio econômico a Cuba. Sessenta e quatro anos depois, a política persiste – agora recrudescida por Donald Trump com restrições ao fornecimento de petróleo. Entre a invasão da Baía dos Porcos, a Crise dos Mísseis e a Guerra Fria, o cerco atravessou décadas sem cumprir sua promessa de mudança política.
A História ajuda a entender por que sanções prolongadas não produzem democracia — apenas escassez, endurecimento e conflito permanente.
O que há em comum entre o Lebensraum de Hitler e o vital space de Trump? Em ambos, o espaço deixa de ser soberania e passa a ser necessidade estratégica. No século XX, a Alemanha nazista chamou expansão de sobrevivência. No século XXI, a força reaparece sob a linguagem da segurança e dos recursos. Groenlândia, Venezuela, zonas de influência: territórios viram ativos. A exceção vira método, o direito recua, a força avança. Como Mussolini, Trump transforma política externa em espetáculo de poder. E a História volta a perguntar: estamos reconhecendo o caminho a tempo?
A política brasileira – e parte da política mundial – vive um sequestro silencioso. Extremistas, milícias e bilionários ocuparam o espaço deixado por partidos fracos. Nos EUA, o colapso dos filtros permitiu a ascensão de Trump. No Brasil, abriu caminho para Bolsonaro e para o crime organizado no Rio de Janeiro. Quando os guardiões abandonam o portão, a democracia entra em deriva. Eleições continuam existindo, mas perdem o sentido democrático. Este texto mostra como o sequestro ocorreu – e por que ainda pode piorar.
O segundo mandato de Donald Trump marca a volta da política do Big Stick, o “Grande Porrete” que simboliza a imposição dos interesses dos EUA sobre a América Latina. Declarações recentes de Washington confirmam que a região voltou a ser tratada como “quintal”. Mas o problema não é apenas militar: é ambiental, social, político e científico. O retrocesso se expressa no abandono de pactos climáticos, no corte de investimentos em ciência, em ataques a direitos sociais e na diplomacia de imposição. Diferente do passado, a reação de parte expressiva da população brasileira tem sido passiva, contrastando com o vigor cívico de outras épocas – e até mesmo com a resistência do Canadá, que rejeitou as pautas trumpistas nas urnas. O resultado é uma era de retrocessos que ameaça conquistas de décadas.
