Sempre foi petróleo: o golpe de 1953 e a longa sombra dos EUA no Irã

Por DJALBA LIMA (*)

Quando Washington invoca democracia ou direitos humanos para justificar sua política externa no Oriente Médio, a história costuma contar outra versão. No caso do Irã, o episódio fundador dessa contradição ocorreu em 1953, quando os Estados Unidos e o Reino Unido organizaram um golpe de Estado que derrubou um governo democraticamente eleito.

O nome da iniciativa era Operation Ajax, um plano secreto articulado pela Central Intelligence Agency (CIA) e pelo serviço britânico MI6. O alvo era o primeiro-ministro iraniano Mohammad Mossadegh, um nacionalista moderado que havia decidido tocar em um nervo vital do sistema internacional: o petróleo.

O contexto: petróleo e soberania

Mossadegh chegou ao poder defendendo uma agenda que, à época, parecia explosiva: nacionalizar a indústria petrolífera iraniana.

Desde o início do século XX, a exploração do petróleo do país era dominada pela britânica Anglo-Iranian Oil Company, antecessora da atual BP. A maior parte dos lucros saía do país, enquanto a população iraniana via poucos benefícios da riqueza subterrânea.

A nacionalização decretada por Mossadegh, em 1951, foi vista em Londres como uma ameaça direta a interesses estratégicos. O Reino Unido respondeu com sanções, bloqueio comercial e pressão internacional.

Em plena Guerra Fria, os britânicos convenceram Washington de que o Irã poderia cair na órbita soviética. O argumento ideológico era conveniente, mas o fator decisivo continuava sendo o petróleo.

A Operação Ajax

A estratégia para derrubar Mossadegh combinou métodos que depois se tornariam padrão em diversas intervenções externas: financiamento de manifestações e grupos políticos; propaganda massiva contra o governo; cooptação de militares e líderes religiosos; e campanhas de desinformação na imprensa.

Em agosto de 1953, o plano foi executado: Mossadegh deposto, julgado e colocado em prisão domiciliar.

Quem emergiu fortalecido foi o xá Mohammad Reza Pahlavi, que consolidou seu poder com apoio direto dos Estados Unidos.

O novo regime

O governo do xá transformou o Irã em um aliado estratégico do Ocidente no Oriente Médio. Em troca de estabilidade geopolítica e acesso ao petróleo, Washington passou a sustentar um regime cada vez mais autoritário. Ou seja, nenhuma preocupação com liberdade, democracia e direitos humanos – isso nunca foi o motor das intervenções norte-americanas.

A polícia secreta SAVAK tornou-se símbolo dessa repressão. Criada com assistência da CIA e do serviço secreto israelense, a SAVAK do xá monitorava opositores, censurava a imprensa e utilizava tortura contra dissidentes. Claro que com a total complacência dos Estados Unidos, do Reino Unido e de Israel.

Ao mesmo tempo, o xá implementava reformas econômicas e sociais que ficaram conhecidas como “Revolução Branca”, um programa de modernização acelerada sem abertura política correspondente.

A conta histórica

A estabilidade obtida pela força revelou-se ilusória. Durante décadas, a combinação de autoritarismo, desigualdade e percepção de submissão ao Ocidente alimentou uma oposição crescente. Esse ressentimento explodiria em 1979, quando a Revolução Iraniana derrubou o xá e levou ao poder o líder religioso Ruhollah Khomeini.

A revolução inaugurou o atual regime da República Islâmica e transformou os Estados Unidos no principal inimigo simbólico do novo governo.

A longa sombra de 1953

Mais de sete décadas depois, o golpe contra Mossadegh continua sendo um ponto central na memória política iraniana.

Para muitos iranianos, ele representa a prova histórica de que, por trás dos discursos sobre liberdade ou democracia, as grandes potências frequentemente agem movidas por interesses estratégicos.

No caso do Irã, esses interesses tinham (e continuam tendo) um nome bastante conhecido: petróleo.

O declínio de um império?

Hoje, com novas crises e guerras se multiplicando no Oriente Médio, surge uma pergunta inevitável: estaria Washington repetindo o ciclo histórico que marcou o destino de tantos impérios? No clássico The Rise and Fall of the Great Powers, o historiador Paul Kennedy argumenta que grandes potências entram em declínio quando o peso de seus compromissos militares e estratégicos no mundo ultrapassa sua capacidade econômica e política de sustentá-los – fenômeno que ele chamou de imperial overstretch.

Paul Kennedy cunhou o conceito de imperial overstretch para descrever um fenômeno recorrente na história das grandes potências. Segundo ele, impérios tendem a se expandir militar, econômica e politicamente para proteger interesses estratégicos espalhados pelo mundo – rotas comerciais, recursos naturais, alianças militares e zonas de influência.

O preço da “mão grande”

O problema surge quando os compromissos externos passam a superar a capacidade real do país de sustentá-los. Esse desequilíbrio pode gerar gastos militares excessivos, intervenções constantes em regiões distantes (caso do Irã), desgaste político e econômico interno e perda gradual de legitimidade internacional. Diversos impérios enfrentaram esse dilema ao longo da história, da Espanha dos Habsburgo ao Império Britânico no século XX.

No contexto contemporâneo, alguns analistas veem nas sucessivas intervenções dos Estados Unidos no Oriente Médio – do Irã de 1953 às guerras do século XXI – sinais de um padrão semelhante: a tentativa de sustentar uma ordem global cada vez mais complexa e custosa.

Em outras palavras, quando o alcance do poder se expande demais, o risco é que a própria estrutura que sustenta esse poder comece a se fragilizar.

À luz dessa tese, a sucessão de conflitos e tensões que continuam a envolver os Estados Unidos levanta dúvidas sobre o futuro de sua liderança global, especialmente quando promessas políticas de reduzir guerras acabam confrontadas pela realidade geopolítica.

O retorno da monarquia?

Ao mesmo tempo, dentro do próprio Irã, outra questão permanece aberta: haveria espaço para um retorno da monarquia deposta em 1979?

O príncipe herdeiro Reza Pahlavi, filho do antigo xá Mohammad Reza Pahlavi, mantém no exílio a reivindicação de restaurar a monarquia, mas a memória histórica do regime autoritário e o profundo nacionalismo iraniano tornam essa hipótese, até agora, mais um debate político do que um cenário provável.

(*) DJALBA LIMA é jornalista e editor de Relatos – A Estação da História.

djalba.lima@gmail.com Escrito por:

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