Quando os sábios se ajoelham

Por DJALBA LIMA (*)

Messi com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Casa Branca. Imagem da BBC

Messi se encontrou com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Casa Branca, para comemorar o triunfo do clube na MLS Cup. A imagem correu o mundo. Uma fotografia, às vezes, não é apenas uma fotografia. Ela é um espelho moral de sua época. Não porque um gesto isolado resolva o caráter de alguém. A História não é fofoqueira; é mais severa do que isso. Mas porque certos gestos ajudam a normalizar o que deveria causar desconforto.

É assim que regimes de força respiram: não apenas com tanques, decretos e ameaças, mas com a colaboração dos prestigiados. O ditador adora uma toga, um jaleco, uma cátedra, uma medalha, um Nobel, uma celebridade esportiva.

O autoritarismo sempre sonhou em parecer culto ou simpático com as multidões. Sempre quis posar de civilização. Sempre precisou de gente brilhante para lhe emprestar alguma aparência de grandeza. Messi é ídolo – e dos grandes –, mas certamente se apequenou com o gesto.

A grande ilusão

A grande ilusão moderna foi acreditar que instrução ou talento imunizam contra a barbárie. Não imuniza. O século XX está cheio de homens eruditos, refinados, laureados e doutorados que se curvaram ao fascismo e ao nazismo sem que lhes faltasse leitura, biblioteca ou inteligência. Faltou-lhes outra coisa: caráter político, coragem moral ou senso de limite.

Martin Heidegger, um dos filósofos mais influentes do século XX, tornou-se reitor da Universidade de Freiburg em 1933 e aderiu ao Partido Nazista no mesmo ano. No exercício do cargo, apoiou as novas diretrizes do regime e chegou a declarar que “o Führer” era a realidade e a lei da Alemanha. Não era um ignorante de cervejaria; era um pensador de primeira linha. Justamente por isso seu caso é tão perturbador. A inteligência, ali, não serviu para resistir ao poder. Serviu para adorná-lo.

A sedução do fascismo

Na Itália, Giovanni Gentile não foi apenas um simpatizante periférico. Tornou-se conhecido, com razão histórica, como o “filósofo do fascismo”. Intelectual de enorme peso, participou do governo de Mussolini e ajudou a dar consistência doutrinária ao regime. Gentile mostra uma verdade inconveniente: o fascismo não vive só de porrete e gritaria; ele também produz teoria, linguagem, sistema e sofisticação. Ele também seduz intelectuais.

Carl Schmitt, jurista brilhante e doutor em direito, é outro caso exemplar. Crítico feroz do liberalismo, ajudou a fornecer base teórica e jurídica para a tomada nazista do poder. Em 1933, filiou-se ao Partido Nazista e colaborou na coordenação legal da nova ordem. O que Schmitt demonstra, com assustadora clareza, é que a tirania precisa de juristas tão desesperadamente quanto de policiais. O campo de concentração começa, muitas vezes, com um parecer técnico.

Colaboração ou sobrevivência, a zona ambígua

Há ainda vários casos de uma zona cinzenta entre colaboração, sobrevivência ou ambiiguidade moral. Werner Heisenberg, por exemplo, foi Prêmio Nobel de Física (1932) e um dos pais da mecânica quântica. Não foi nazista militante, mas permaneceu trabalhando na Alemanha durante o regime e liderou o projeto nuclear alemão. Seu caso mostra a zona cinzenta entre colaboração, sobrevivência e ambiguidade moral.

Há outros casos, como o de Wernher von Braun, um engenheiro brilhante que desenvolveu os foguetes V-2 para o regime nazista, usando trabalho escravo. Depois da guerra tornou-se herói do programa espacial dos Estados Unidos. É talvez o exemplo mais claro da frase: a tecnologia não tem moral própria – ela depende da moral de quem a utiliza.

Há ainda o caso de Louis-Ferdinand Céline. Um dos maiores escritores da literatura francesa do século XX, autor de Viagem ao Fim da Noite, mas também autor de panfletos violentamente antissemitas e colaborador do regime de Vichy.

Um bruto iletrado?

Goebbels discursa para uma multidão em Berlim. Doutor em literatura pela Universidade de Heidelberg, ele se tornaria o principal arquiteto da máquina de propaganda do Terceiro Reich.

E não para aí. Joseph Goebbels, doutor em filologia germânica pela Universidade de Heidelberg, não foi um bruto iletrado, mas um intelectual treinado na palavra. Transformou sua formação em arma de manipulação coletiva e tornou-se ministro da Propaganda de Hitler, peça central na fabricação da mentira de massa. O doutorado não o humanizou; apenas refinou seus instrumentos de intoxicação moral.

Robert Ley, com Ph.D. em química, também oferece um retrato sombrio dessa contradição. Tornou-se um alto dirigente nazista, chefe da Frente Alemã do Trabalho, e ajudou a supervisionar o recrutamento de trabalho escravo durante a guerra. Eis a lição amarga: até a formação científica mais respeitável pode ser colocada a serviço da servidão organizada.

Ciência x veneno ideológico

No campo da ciência, o escândalo moral é muito eloquente. O nazismo não foi apoiado apenas por fanáticos de esquina. Contou com homens de laboratório e prestígio internacional. Philipp Lenard, Nobel de Física de 1905, e Johannes Stark, Nobel de Física de 1919, engajaram-se na campanha nazista contra Einstein e contra a chamada “física judaica”. O problema não era falta de método científico; era excesso de veneno ideológico. Conhecimento, quando sequestrado pelo ressentimento e pelo racismo, não produz luz: produz trevas com aparato técnico.

Em novembro de 1933, mais de 900 professores universitários alemães assinaram um manifesto público declarando fidelidade a Hitler. Médicos, juristas, filósofos, físicos, historiadores. A universidade, que deveria ser o último refúgio da consciência crítica, curvou-se diante do poder. Naquele momento, não foi a ignorância que falou. Foi a busca do prestígio.

A fogueira da cultura na Alemanha de 1933

Em maio de 1933, estudantes universitários alemães marcharam com tochas pelas ruas de Berlim e de outras cidades. Não estavam queimando inimigos em praça pública. Estavam queimando livros. Freud, Marx, Einstein, Remarque. Professores observavam; alguns aplaudiam. A universidade, que deveria ser o último refúgio do pensamento crítico, assistia à fogueira da cultura. A barbárie, como tantas vezes na história, começava com um gesto simbólico.

Na Itália fascista, Guglielmo Marconi – pioneiro do rádio, figura monumental da ciência moderna – associou seu nome ao regime de Mussolini e presidiu o Conselho Nacional de Pesquisas criado pelo Estado fascista. A ditadura entendeu cedo o valor simbólico de ter ao lado um inventor célebre: o rádio, afinal, podia transmitir não apenas ondas, mas prestígio político.

Médicos e monstros

Há também o caso mais sinistro de todos: o da medicina convertida em monstruosidade. Josef Mengele, médico e pesquisador ligado à biologia hereditária e à higiene racial, atuou em Auschwitz selecionando prisioneiros para as câmaras de gás e realizando experimentos pseudocientíficos em seres humanos, sobretudo gêmeos.

Quando um regime consegue recrutar um médico para a fábrica da morte, já não estamos diante de uma simples crise política, mas de uma falência civilizatória.

Sensibilidade estética x decência política

E seria confortável pensar que isso ocorreu apenas entre filósofos, juristas, cientistas e médicos. Mas não. A literatura também se ajoelhou. O poeta Ezra Pound aderiu ao fascismo italiano e tornou-se propagandista do regime. O romancista norueguês Knut Hamsun, Nobel de Literatura, apoiou Hitler e chegou a homenageá-lo após sua morte. A arte, por si, também não salva ninguém. Sensibilidade estética não garante decência política.

É por isso que a fotografia de um ídolo ao lado de um homem forte sempre pede cuidado. Não porque devamos distribuir condenações automáticas, mas porque a História já mostrou demais o que acontece quando a fama, a excelência e o brilho público começam a tratar o poder autoritário como se fosse apenas mais um protocolo, mais uma cerimônia, mais uma conveniência.

A pavimentação do caminho do inferno

Foi assim que muita gente “respeitável” ajudou a pavimentar o caminho do inferno. Primeiro vem o gesto cordial. Depois, a desculpa pragmática. Bem depois, a neutralidade elegante. Depois dela, a normalização. E, por fim, quando todos percebem o monstro inteiro, ele já está sentado à mesa, servindo-se da prata da casa.

A grande contradição da História não é a existência de bárbaros. Bárbaros sempre existiram. A grande contradição é outra: homens cultos demais, inteligentes demais, titulados demais, famosos demais, que olharam para a barbárie e resolveram colaborar com ela – por ambição, vaidade, medo, oportunismo ou fascínio pela força.

É por isso que, diante de certas fotos do presente, o problema nunca é apenas a mão apertada. O problema é a velha tentação humana de emprestar prestígio à brutalidade.

A civilização não caiu por falta de inteligência, mas por falta de coragem

Hannah Arendt observou que a barbárie moderna não nasce apenas de monstros, mas de homens comuns que suspendem o julgamento moral. O nazismo não foi obra de um punhado de psicopatas: foi também sustentado por professores, médicos, engenheiros e juristas perfeitamente instruídos. A civilização não caiu por falta de inteligência — caiu por falta de coragem.

A História já provou muitas vezes: a barbárie não precisa apenas de soldados. Ela precisa, sobretudo, de homens respeitáveis dispostos a apertar a mão do poder.

O fascismo raramente começa com botas marchando. Muitas vezes começa com aplausos educados.

(*) DJALBA LIMA é jornalista e editor de Relatos – A Estação da História.

djalba.lima@gmail.com Escrito por:

2 Comentários

  1. Dairan da Silva Lima
    março 9, 2026
    Responder

    Um texto feito esse deveria ser estudado nas escolas, lido em toda parte. Muito bom.!

  2. março 9, 2026
    Responder

    Este artigo é uma grave advertência. A intolerância, a ganância e a sede de poder e controle deduzem, cativam e causam desgraças que contestam as características de humanidade.

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