O que a experiência argentina pode ensinar ao Brasil sobre promessas de salvação econômica.

DJALBA LIMA
Jornalista e editor de Relatos
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Uma propaganda de vodca ofereceu ao Brasil uma maneira curiosa de pensar o futuro. “Eu sou você amanhã”, dizia um personagem ao seu semelhante. Quem assistiu à televisão nos anos 1980 talvez ainda se lembre do bordão. Quem nasceu depois pode imaginar a cena: alguém encontra uma versão futura de si mesmo e recebe, antes da escolha, uma advertência sobre o dia seguinte.
A frase vendia uma bebida, mas acabou servindo para falar de países. Quando a Argentina enfrentava dificuldades, e o Brasil parecia seguir seus passos, economistas e comentaristas evocavam o Efeito Orloff. O vizinho seria uma espécie de futuro antecipado: bastava olhar para o outro lado da fronteira para reconhecer o que poderia acontecer aqui.
A expressão ganhou força na época dos planos de combate à inflação. A Argentina lançou o Austral em 1985; o Brasil, o Cruzado em 1986. Depois, vieram o Primavera argentino, em 1988, e o Verão brasileiro, em 1989. Os nomes mudavam, a esperança se renovava e as dificuldades reapareciam.
O Efeito Orloff é uma metáfora, não uma lei econômica. Países têm instituições, estruturas produtivas e condições financeiras diferentes. Mas a imagem contém uma pergunta útil: por que repetir uma receita sem examinar o que aconteceu com quem a experimentou antes?
O cansaço também escolhe governos
Uma crise prolongada produz mais do que inflação, endividamento e perda de renda. Produz exaustão. Quando a vida se torna uma sucessão de contas que não fecham, a promessa de ruptura adquire uma força que as explicações moderadas dificilmente conseguem acompanhar.
É nesse terreno que prospera o salvador econômico. Ele aponta culpados, anuncia uma cura e transforma a complexidade do país numa imagem fácil de compreender. Uma motosserra, por exemplo. Para quem já não acredita no funcionamento das instituições, destruir pode parecer o primeiro passo para reconstruir.
Javier Milei chegou à Presidência argentina em dezembro de 2023 em meio a uma crise real, que não foi criada por ele. A inflação daquele ano alcançou 211,4%. Era uma economia em que o dinheiro perdia valor depressa, e planejar a vida se tornava um exercício de insegurança.
A indignação que abriu caminho para Milei tinha razões concretas. O fracasso de governos anteriores ajudou a tornar atraente a promessa de uma transformação radical. Mas uma origem compreensível não dispensa o exame das consequências.
O teste começa quando a imagem de campanha se transforma em decisão de governo. O gasto que desaparece do orçamento pode ser desperdício eliminado; pode também ser renda, serviço ou investimento retirado de algum lugar. Para avaliar o corte, é preciso saber o que havia naquela linha da planilha e quem dependia dela.
O que os números argentinos mostram
A trajetória da pobreza ajuda a enxergar a dimensão social dessa experiência. Nos 31 aglomerados urbanos pesquisados pelo INDEC, o instituto oficial de estatística argentino, a proporção de pessoas abaixo da linha de pobreza chegou a 52,9% no primeiro semestre de 2024. Mais da metade das pessoas naquele universo não tinha renda suficiente para cobrir a cesta básica total.
Depois houve uma melhora expressiva. O indicador caiu para 38,1% no segundo semestre de 2024, 31,6% no primeiro semestre de 2025 e 28,2% no segundo.
No primeiro semestre de 2026, porém, a pobreza voltou a subir: alcançou 32,3%, aumento de 4,1 pontos percentuais diante do semestre anterior. A indigência, que indica renda insuficiente até para a cesta básica alimentar, chegou a 7,5%.
Essa sequência importa mais do que um número isolado. Mostra o agravamento inicial, a recuperação posterior e a fragilidade dos ganhos. Impede tanto apresentar o pico de 2024 como se fosse a situação atual quanto tratar a queda de 2025 como solução definitiva.
A inflação também diminuiu. Em agosto de 2026, foi de 1,7% no mês e de 33,5% no acumulado de doze meses. É um avanço relevante diante dos índices anteriores. Para quem vive do salário, conter a erosão do dinheiro faz diferença.
Mas inflação menor significa que os preços sobem mais devagar. Não significa que voltaram ao patamar antigo, nem que a renda de todas as famílias recuperou o que perdeu. Uma pessoa pode ouvir que a inflação caiu e continuar encontrando no supermercado uma conta que não consegue pagar.
O PIB oferece outro retrato que exige cuidado. No segundo trimestre de 2026, cresceu 2% em relação ao mesmo período de 2025, mas recuou 0,6% diante do trimestre anterior, descontados os efeitos sazonais. A economia ainda estava acima do nível de um ano antes e, ao mesmo tempo, perdia terreno na comparação mais recente.
Há resultados favoráveis e sinais de deterioração. É justamente essa combinação que merece ser examinada. Uma política econômica precisa ser julgada pela capacidade de sustentar suas conquistas e ampliar as condições de vida, não apenas pelo indicador que melhor serve ao discurso do dia.
O Brasil diante do espelho
A pergunta brasileira não precisa ser se “vamos virar a Argentina?”. A pergunta é quais mecanismos queremos importar, em que condições seriam aplicados e sobre quem recairiam seus custos.
Essa discussão ganhou concretude com as reportagens sobre estudos de um ajuste de aproximadamente R$ 250 bilhões ligado à equipe de Flávio Bolsonaro. O candidato nega cortes sociais, e sua campanha apresenta medidas como redução de cargos, venda de imóveis públicos e combate a fraudes. É preciso distinguir o que foi noticiado como estudo do que está formalmente assumido como proposta.
A distinção não elimina a necessidade de explicação. Se a promessa é reduzir despesas nessa escala e preservar a proteção social, cabe mostrar a conta: quais gastos, qual economia recorrente, em quanto tempo? Vender um imóvel produz receita uma vez; sustentar uma economia anual exige medidas que se repitam. Combater fraudes é uma obrigação, mas a estimativa de quanto se economizará precisa ser demonstrada.
O cidadão tem direito de conhecer a composição do sacrifício antes de autorizar quem irá distribuí-lo. Pode concordar com reformas, cobrar equilíbrio fiscal e desejar um Estado mais eficiente. Nada disso o obriga a aceitar uma conta apresentada com a ocultação de dados fundamentais. Não dá pra assinar um cheque em branco.
Também precisamos discutir os privilégios que sobrevivem ao discurso da austeridade. Um ajuste que pede contenção a quem depende de serviços públicos deve explicar como trata benefícios tributários, subsídios e vantagens de grupos com maior capacidade de influência. A distribuição do esforço revela as prioridades do governo. Cortar dos pobres é fácil. Difícil é usar a tesoura nos benefícios que sempre alimentaram os ganhos dos setores mais favorecidos da sociedade.
A experiência argentina nos oferece uma oportunidade: observar o percurso antes de aderir à promessa. Reconhecer as conquistas, investigar seus custos e perguntar se o desenho proposto para o Brasil corresponde às nossas condições.
Não há virtude em deixar as contas públicas se deteriorarem. Tampouco há sabedoria em imaginar que toda redução de gasto produz prosperidade. Quando um corte atinge renda, consumo ou investimento, seus efeitos se espalham. O que parece economia num primeiro momento pode criar dificuldades que a própria política terá de enfrentar depois.
A propaganda da Orloff sobrevivia numa frase de quatro palavras. Governar um país exige muito mais. Exige explicar o caminho entre a promessa e o resultado, admitir os riscos e responder por quem paga a travessia.
Podemos olhar para a Argentina com respeito por sua população e atenção à sua experiência. Ali há pessoas tentando trabalhar, estudar, envelhecer e organizar a vida enquanto se discutem as virtudes de um modelo. É esse futuro humano que precisamos enxergar no espelho.
“Eu sou você amanhã”, dizia o personagem. A vantagem de enxergar o amanhã no país vizinho é poder fazer escolhas diferentes hoje.

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