De Keynes a Tony Judt, dez razões pelas quais o liberalismo econômico é insuficiente para enfrentar os desafios brasileiros

DJALBA LIMA
Jornalista e editor de Relatos
55(61)999379799
Uma criança que abandona a escola para trabalhar não recupera a infância quando a economia melhora. Um trabalhador que passa anos desempregado pode perder, além da renda, a profissão, a saúde e a confiança no futuro. O tempo das estatísticas nem sempre coincide com o tempo de uma vida.
Em 1923, John Maynard Keynes escreveu uma frase que atravessaria o século: “No longo prazo, estaremos todos mortos”. A observação apareceu em A Tract on Monetary Reform, numa discussão sobre moeda e preços. Keynes contestava a utilidade de explicar apenas o equilíbrio distante enquanto a instabilidade castigava o presente.
Comparava essa insuficiência à de economistas que, durante uma tempestade, se limitassem a informar que o mar voltaria a ficar calmo. Sua teoria mais conhecida sobre emprego e demanda seria desenvolvida posteriormente, mas a inquietação já estava ali: uma explicação econômica precisa ajudar a enfrentar o sofrimento de seu tempo.
O debate entre Keynes e Friedrich Hayek, reconstruído por Nicholas Wapshott em Keynes x Hayek, continua oferecendo uma entrada para essa discussão. Até onde o Estado deve agir? Quando a intervenção corrige uma crise e quando produz distorções? Que riscos existem tanto na concentração do poder público quanto na confiança excessiva na capacidade dos mercados?
No Brasil, essas perguntas atravessam escolas, hospitais, empregos, moradias e perspectivas de futuro. A liberdade de empreender, a concorrência e a estabilidade econômica são necessárias. Tornam-se insuficientes quando apresentadas como resposta completa a problemas que também exigem redistribuição, coordenação e decisões coletivas.
Aqui, a crítica à resposta neoliberal se dirige à prioridade conferida à redução do Estado, às privatizações e à disciplina fiscal quando esses instrumentos passam a comandar o projeto de país.
Dez razões ajudam a compreender seus limites:
1. A fome tem vencimento hoje
Numa casa sem comida, a expectativa de crescimento econômico no próximo ano tem pouca utilidade imediata. A urgência daquela família precisa encontrar uma resposta antes.
O mercado percebe necessidades por meio da capacidade de pagamento. Uma pessoa pode precisar de alimento sem conseguir comprá-lo. Sua necessidade é imensa; seu poder de compra, nenhum. Essa distância ajuda a compreender por que produzir riqueza e assegurar condições mínimas de vida são tarefas relacionadas, mas diferentes.
Os números tornam essa distância visível. Segundo o IBGE, em 2024, 3,5% da população brasileira vivia na extrema pobreza. Se os benefícios dos programas sociais fossem retirados do cálculo da renda, a proporção chegaria a 10%. Nesse exercício, a pobreza também subiria de 23,1% para 28,7%. A comparação mostra o peso imediato das transferências na renda das famílias; não é uma previsão de todos os efeitos de sua eventual retirada.
Para quem olha de longe, são percentuais. Para quem depende dessa renda, a diferença pode estar no prato. A transferência não resolve todas as causas da pobreza, mas permite enfrentar o dia enquanto se constroem condições para sair dela. Exigir que alguém primeiro conquiste autonomia para depois receber ajuda pode significar exigir uma travessia sem lhe dar condições de chegar à outra margem.
2. A infância não pode ser adiada
Uma criança que passa anos sem aprender a ler não fica suspensa no tempo, aguardando que a economia melhore. Ela continua crescendo. As dificuldades se acumulam, a distância em relação aos colegas aumenta e o abandono escolar pode se tornar uma saída.
Em 2024, o Brasil tinha 1,65 milhão de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos em situação de trabalho infantil, segundo o IBGE. Entre eles, 66% eram pretos ou pardos. O país continuava consumindo, no trabalho precoce, uma parte do tempo que deveria dedicar à formação de suas novas gerações.
A linguagem do mérito costuma começar a comparação tarde demais: no vestibular, na entrevista de emprego, na disputa por uma promoção. Antes disso, houve alimentação, moradia, escola, livros, segurança e tempo para estudar – ou a falta de tudo isso. Houve quem pudesse fazer a tarefa depois da aula e quem precisasse trabalhar.
Investir na infância permite que o esforço encontre condições para produzir resultados. Quando o país adia esse investimento, também pode estar desistindo de capacidades que jamais conhecerá. Há perdas que não aparecem no orçamento: o talento que não teve oportunidade de se desenvolver sequer chega a ser contabilizado. Quando a economia melhorar, aquela infância já terá passado..
3. As crises podem destruir pessoas e empresas antes que o ajuste aconteça
Quando consumidores reduzem compras, empresas vendem menos. Diante da queda nas vendas, cortam investimentos e empregos. Os trabalhadores demitidos passam a consumir ainda menos. Uma decisão defensiva, compreensível para cada agente, pode aprofundar a crise quando se generaliza.
É nesse circuito que a intervenção pública pode sustentar renda, preservar serviços e realizar investimentos. O argumento keynesiano exige atenção ao momento: estimular uma economia com capacidade ociosa é diferente de expandir gastos quando a produção já está pressionada e a inflação acelera.
A política econômica precisa diagnosticar a doença. Esperar pelo ajuste, enquanto famílias e negócios desaparecem, também é uma escolha – com consequências que não se revertem automaticamente.
4. Saúde e educação têm um valor que o preço não consegue expressar
Uma escola pode transformar o futuro de uma comunidade sem apresentar rentabilidade empresarial. Um hospital pode ser socialmente indispensável mesmo quando seu funcionamento exige recursos permanentes do orçamento.
Num artigo de Relatos que publiquei sobre Tony Judt, aparece justamente essa preocupação: a perda da capacidade de discutir o bem comum quando o cálculo financeiro ocupa o centro de todas as decisões. Sua reflexão ajuda a recuperar perguntas sobre a sociedade que desejamos construir e sobre as obrigações que temos uns com os outros.
O custo deve ser conhecido, fiscalizado e justificado. Mas avaliar uma escola apenas pelo que custa deixa de fora o que ela torna possível. O mesmo vale para a prevenção de doenças, a pesquisa científica e a preservação cultural.
5. Austeridade sem critério pode comprometer o próprio desenvolvimento
Controlar desperdícios, enfrentar privilégios e administrar a dívida são tarefas necessárias. O problema surge quando despesas muito diferentes recebem o mesmo tratamento. Um benefício injustificável e uma obra de saneamento entram na contabilidade como gasto, mas produzem efeitos inteiramente distintos.
Cortes sobre educação, infraestrutura e prevenção de doenças podem gerar economia imediata e custos maiores adiante. Durante uma recessão, uma contração fiscal também pode agravar a queda da atividade e reduzir receitas, dependendo de sua intensidade e composição.
A responsabilidade fiscal precisa considerar o que se corta, em que momento e com quais consequências. Um orçamento merece ser julgado pela sustentabilidade e pela qualidade de suas escolhas.
6. Uma cidade não cabe no balanço de uma empresa
Uma empresa pode avaliar se vale a pena operar uma linha de ônibus. A cidade precisa avaliar se seus moradores conseguem chegar ao trabalho, à escola e ao hospital.
Uma concessionária pode executar obras de saneamento. O poder público precisa assegurar que o serviço chegue também às áreas onde o retorno financeiro é menor. Para isso, contratos, financiamento e fiscalização precisam incorporar a obrigação de atender.
O Censo de 2022 mostrou que 62,5% dos brasileiros viviam em domicílios ligados à rede de coleta de esgoto. Portanto, mais de um terço da população estava fora dessa cobertura – embora parte dispusesse de outras soluções, como fossas sépticas. O indicador mede acesso à rede, não tratamento do esgoto. É uma fotografia de 2022, mas revela a dimensão do caminho que o país ainda precisava percorrer.
Para uma família, essa discussão começa perto de casa: no banheiro, na rua, na água que escoa depois da chuva. A espera por infraestrutura atravessa o cotidiano antes de aparecer num plano de investimentos.
Privatizar pode melhorar determinados serviços quando há bons contratos, financiamento e regulação competente. A troca de proprietário, sozinha, não assegura que o atendimento alcance quem ficou para trás. É preciso estabelecer quem será atendido, em quanto tempo e quem pagará pela expansão. Sem essas respostas, a promessa de eficiência pode conviver por muitos anos com a mesma exclusão.
7. Transformar a estrutura produtiva exige coordenação e continuidade
Inovação, pesquisa e formação profissional envolvem investimentos cujos resultados podem levar muitos anos. Infraestrutura depende de decisões articuladas. Algumas tecnologias oferecem benefícios que ultrapassam a empresa responsável por desenvolvê-las, dificultando a apropriação privada de todo o retorno.
Há, portanto, razões para a participação pública no desenvolvimento produtivo. A Nova Indústria Brasil, lançada em 2024, explicita essa escolha ao organizar missões e instrumentos voltados à transformação industrial. Sua existência demonstra uma orientação de política econômica; seus resultados precisam ser avaliados.
Apoio público exige metas, transparência e cobrança. Subsídios permanentes sem contrapartidas podem proteger ineficiência. Uma política industrial séria deve desenvolver capacidades e permitir que o benefício para a sociedade seja demonstrado.
8. A crise ambiental exige decisões que ultrapassam o interesse de cada empresa
Uma atividade pode ser lucrativa enquanto transfere à população os custos da poluição, da degradação ambiental ou da ocupação de áreas vulneráveis. Se esses danos não entram no preço, a decisão economicamente vantajosa para um agente pode ser destrutiva para a coletividade.
Enfrentar esse problema requer fiscalização, planejamento urbano, infraestrutura de adaptação e instrumentos que façam os responsáveis considerar os custos de suas atividades.
A transição energética oferece oportunidades para empresas, mas também exige escolhas públicas sobre financiamento e distribuição dos encargos. No Brasil, proteger o território e preparar cidades para eventos extremos faz parte da política de desenvolvimento.
9. A proteção social ajuda a preservar autonomia e confiança na democracia
Quem vive sob ameaça permanente de perder renda, moradia ou acesso a tratamento tem pouca margem para escolher. Aceita condições que recusaria se dispusesse de alguma segurança. A proteção social amplia essa margem e pode permitir que uma pessoa procure emprego, se qualifique ou atravesse uma doença sem desorganizar inteiramente a vida familiar.
Tony Judt oferece uma chave para compreender o alcance político dessa questão: o enfraquecimento dos vínculos de solidariedade compromete a percepção de um destino comum.
Insegurança e abandono podem alimentar ressentimentos e favorecer discursos autoritários, embora essa relação não seja automática. Uma democracia precisa oferecer razões concretas para que seus cidadãos confiem na convivência e nas instituições.
10. Cortar a máquina pública não substitui um projeto de país
A comparação entre Lula e Flávio Bolsonaro torna essas escolhas mais visíveis. Segundo o levantamento da Folha de S.Paulo sobre os programas apresentados em agosto de 2026, Flávio propõe cortes administrativos, redução de ministérios, novo teto de gastos e retomada da desestatização. Lula defende manter o arcabouço fiscal e estimular investimentos em infraestrutura e indústria, incluindo concessões à iniciativa privada.
A diferença está na prioridade e no papel atribuído à ação pública. Cortar estruturas pode eliminar desperdício, mas não demonstra, por si só, como serão ampliadas a produtividade e a capacidade dos serviços. Investir pode desenvolver o país, mas exige financiamento sustentável, execução competente e avaliação.
À luz dos desafios discutidos aqui, a orientação de Lula oferece instrumentos mais compatíveis com uma estratégia que combine desenvolvimento e proteção social. Essa é uma avaliação de orientação, não uma garantia de resultados. Uma reportagem da Reuters de 24 de setembro aponta que as duas candidaturas prometem enfrentar o problema fiscal sem detalhar plenamente as escolhas politicamente difíceis. A cobrança sobre viabilidade deve alcançar ambas.
A história ajuda a dimensionar o que está em jogo. Ao assumir a Presidência dos Estados Unidos em 1933, Franklin Delano Roosevelt mobilizou o governo para enfrentar a Grande Depressão. O New Deal reuniu medidas de socorro, recuperação e reforma, ampliando a participação pública na resposta à emergência. Contribuiu para a recuperação, mas não encerrou sozinho a Depressão; a mobilização econômica da Segunda Guerra Mundial foi decisiva para superar o desemprego em massa.
O Brasil precisa encontrar suas próprias respostas, com instituições capazes de apoiar a produção, fiscalizar interesses poderosos e garantir condições básicas de vida. Isso exige competência administrativa e responsabilidade fiscal, mas também a disposição de reconhecer que há problemas para os quais a rentabilidade privada oferece uma resposta incompleta.
Uma criança que perde a escola hoje talvez não consiga voltar quando as condições melhorarem. O futuro do país está sendo decidido durante essa espera. É por isso que, mais de cem anos depois, a advertência de Keynes continua a nos alcançar.
O aluguel vence na segunda-feira. A criança precisa aprender neste ano. O tratamento tem de começar enquanto ainda há tempo. Por trás de cada indicador há alguém para quem a espera cobra um preço. Uma política econômica deve ser capaz de olhar esses prazos de frente – e explicar o que oferece a quem não tem reservas para aguardar.
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No momento em que o debate político ferve na disputa pelo segundo turno, você faz muito bem em lembrar que “o liberalismo econômico é insuficiente para enfrentar os desafios brasileiros”.
No Brasil, o candidato dos trabalhadores zerou o imposto de renda de quem ganha até R$5 mil, retirou 33 milhões de brasileiros da miséria, propiciou teto a 10 milhões de habitantes, pagou a dívida externa, tirou o Brasil do mapa da fome e o tornou líder mundial na exportação de alimentos.
O Brasil é grande demais pra caber nessa tese do liberalismo econômico.