Por DJALBA LIMA (*)
Antes de qualquer juízo moral, convém olhar os números. Um levantamento histórico amplamente citado por centros de pesquisa em política internacional indica que, desde o fim do século XIX, os Estados Unidos realizaram 469 intervenções militares no mundo – diretas ou indiretas, abertas ou encobertas, declaradas ou negadas.
O número impressiona não apenas pela escala, mas pela recorrência. Ele sugere que a intervenção não é exceção na política externa norte-americana, mas um método. Um padrão histórico que atravessa governos, ideologias e épocas, e cujos resultados concretos merecem ser examinados com atenção.
Nenhum governante moderno declara guerra dizendo que pretende roubar, pilhar ou submeter um povo. A violência política, para ser socialmente aceitável, exige linguagem elevada: fala-se em “libertação”, “segurança”, “ordem internacional”, “valores democráticos”. O vocabulário muda conforme a época; o método, não.
Quando Donald Trump afirmou, sem rodeios, que pretendia se apropriar do petróleo venezuelano no contexto da captura de Nicolás Maduro, não inaugurou uma nova política externa. Apenas rompeu um tabu discursivo. Disse em voz alta o que, historicamente, sempre foi vendido com uma linguagem camuflada.
A análise histórica exige ir além da retórica e observar resultados concretos. E os resultados das intervenções norte-americanas, diretas ou indiretas, formam um padrão sólido, verificável e desconfortável.
Afeganistão, um simulacro de Estado (2001)
A invasão do Afeganistão após o 11 de Setembro foi apresentada como resposta necessária ao terrorismo global. Vinte e quatro anos depois, o balanço é devastador. O Estado afegão revelou-se uma construção artificial, dependente de financiamento externo, assessoria militar permanente e legitimidade importada.
Quando as tropas se retiraram, o Talibã retomou o poder quase sem resistência. Não houve colapso inesperado: houve a revelação de uma verdade incômoda – não se constrói soberania sob ocupação. “Democracia” não se sustenta só quando há soldados estrangeiros garantindo sua sobrevivência.
Síria: da guerra por procuração à transição incerta (2011–2024)
A intervenção na Síria começou como forma indireta: apoio a grupos armados, sanções econômicas e guerra por procuração com o objetivo declarado de enfraquecer o regime de Bashar al-Assad. Esse objetivo foi alcançado apenas formalmente no fim de 2024, quando uma ofensiva liderada pela oposição sob Ahmed al-Sharaa capturou Damasco e provocou a queda do governo de Assad.
A Síria emergiu dessa fase como um Estado profundamente fragmentado, marcado por instituições destruídas, economia arruinada e tensões internas latentes. O novo presidente, Ahmed al-Sharaa, lidera um governo de transição enfrentando desafios monumentais para reconstruir autoridade política e social, reduzir a interferência de potências externas e articular um projeto de reconciliação nacional.
O caso sírio ilustra que, quando um regime cai, a intervenção internacional não garante um Estado funcional nem uma transição pacífica. O que se instala é um espaço de poder ainda disputado (entre forças internas e influências externas). cuja estabilidade e legitimidade continuam incertas.
Há indicações claras de que o novo governo caminha para se tornar outra autocracia, sob as bênçãos de Donald Trump, frustrando a esperança inicial de mudança.
Líbia: a aniquilação do Estado (2011)
A derrubada de Muamar Gadafi, sob a bandeira da “proteção de civis”, produziu um dos casos mais claros de colapso estatal no século XXI. A Líbia deixou de existir como unidade política funcional.
Milícias rivais, tráfico humano, armas espalhadas pelo Norte da África e ausência total de soberania definem o pós-intervenção. Não houve transição democrática. Houve vazio de poder – e o vazio, na política, nunca permanece assim por muito tempo.
Iraque: a guerra fundada na mentira (2003)
A invasão do Iraque, em 2003, estabeleceu um precedente histórico que não pode ser ignorado. À frente de uma ampla coalizão, os Estados Unidos, então sob a presidência de George W. Bush, justificaram a guerra com base na alegação de que o regime de Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa, inclusive químicas.
A acusação foi submetida a inspeções da ONU. As equipes internacionais não encontraram provas que confirmassem a existência desses arsenais. Ainda assim, a intervenção ocorreu. Anos depois, investigações posteriores corroborariam o que os inspetores já indicavam: as armas simplesmente não existiam. Tanto Bush quanto o então primeiro-ministro britânico Tony Blair reconheceriam, tardiamente, que a guerra fora um erro – um erro de inteligência, de julgamento e de proporção histórica.
O dano, porém, já estava consumado: um Estado desmantelado, centenas de milhares de mortos, a radicalização da região e a abertura de um ciclo de instabilidade que persiste até hoje.
Panamá: soberania como detalhe operacional (1989)
A captura de Manuel Noriega marcou um precedente simbólico: um chefe de Estado tratado como criminoso comum por uma potência estrangeira. Bairros inteiros foram destruídos, civis morreram em número até hoje controverso, e a soberania panamenha foi reduzida a obstáculo secundário.
O gesto consolidou uma lógica perigosa: quando convém, a força substitui o direito internacional.
Nicarágua: a guerra como método de desgaste (anos 1980)
Na Nicarágua, a estratégia foi prolongada e indireta: financiamento dos Contras, sabotagem econômica, guerra de desgaste. O país saiu devastado, com tecido social dilacerado e instituições corroídas.
Décadas depois, o autoritarismo ressurgiu como consequência de uma sociedade exaurida. A intervenção não produziu liberdade. Produziu fadiga histórica e mais autoritarismo.
Brasil e Chile: ditaduras como “efeitos colaterais” (1964–1973)
Na América do Sul, o saldo é inequívoco. A deposição de João Goulart resultou em 21 anos de ditadura, tortura institucionalizada, censura e atraso democrático. No Chile, a derrubada de Salvador Allende abriu caminho para a ditadura de Augusto Pinochet, uma das mais violentas do século XX.
Em ambos os casos, a promessa de “estabilidade” mascarou o apoio a regimes de força, desde que alinhados geopoliticamente.
Irã e Guatemala: quando o curto prazo destrói o longo prazo (1953–1954)
No Irã, a derrubada de Mohammad Mossadegh, em 1953, restaurou um regime autoritário que, décadas depois, seria varrido por uma revolução religiosa radical.
Na Guatemala, a queda de Jacobo Árbenz, em 1954, levou a uma guerra civil de 36 anos, marcada por genocídio indígena.
Intervenções tratadas como “cirúrgicas” produziram catástrofes estruturais duradouras.
O padrão histórico
Os contextos variam. As culturas diferem. As justificativas se adaptam ao tempo.
O resultado, não.
Intervenções externas reiteradamente produzem destruição institucional, radicalização política, violência prolongada, autoritarismo ou fragmentação e ressentimento histórico de longa duração.
Não se trata de erros pontuais, mas de uma doutrina recorrente, sustentada pela crença de que a força pode substituir processos políticos internos.
Quando a acusação substitui a prova
O caso do Iraque, citado anteriormente, permanece como alerta histórico: acusações graves, quando não suficientemente comprovadas em instâncias multilaterais, podem funcionar menos como diagnóstico e mais como instrumento político. Elas criam o clima moral necessário para legitimar decisões que já estavam, de fato, tomadas.
É nesse ponto que o presente dialoga diretamente com o passado.
No caso venezuelano, a acusação central mobilizada contra Nicolás Maduro deslocou-se do campo militar para o criminal. O enquadramento por narcotráfico e terrorismo, conduzido no sistema judicial de um país diretamente interessado em sua derrubada, passou a cumprir papel semelhante ao das armas químicas iraquianas: oferecer um fundamento “moral” para uma ação de força.
Não se trata de absolver o regime venezuelano, mas de observar o método. As acusações não foram submetidas a tribunais internacionais independentes, não resultaram de processos multilaterais e não produziram consenso jurídico fora da órbita do próprio acusador. Ainda assim, passaram a operar como justificativa suficiente para uma ação extrema.
A contradição hondurenha: dois pesos, duas medidas
A seletividade desse discurso torna-se ainda mais evidente quando confrontada com outros casos recentes. O ex-presidente de Honduras Juan Orlando Hernández, condenado nos Estados Unidos por tráfico de drogas após julgamento formal, foi perdoado por Donald Trump e libertado em dezembro de 2025.
O contraste é eloquente. Um ex-chefe de Estado condenado por narcotráfico recebe perdão presidencial; outro, acusado, mas não julgado em instâncias internacionais, torna-se alvo de captura sob o mesmo discurso de “guerra às drogas”. A diferença não está na natureza do crime, mas no alinhamento político e estratégico.
Esse episódio expõe uma contradição estrutural: o discurso moral não é aplicado de forma universal, mas seletiva. Ele se intensifica contra adversários e se dissolve diante de aliados – mesmo quando estes foram formalmente condenados.
Um traço comum no balanço das intervenções
Nesse balanço – necessariamente parcial, já que apenas algumas das 469 intervenções foram aqui examinadas –, emerge um traço comum que precisa ser explicitado para evitar leituras apressadas ou moralmente simplificadoras.
Na maioria dos casos, os regimes alvo das intervenções eram ditaduras. E, após a intervenção, como ditaduras continuaram a existir. Não democracias consolidadas, mas novas formas de autoritarismo – frequentemente mais instáveis, mais violentas e mais dependentes de tutelas externas.
Há exceções reveladoras. que só reforçam a regra geral. No Brasil, em 1964, e no Chile, em 1973, os governos depostos eram democráticos, eleitos e dotados de instituições em funcionamento. O resultado foi a substituição por ditaduras cruéis, com repressão sistemática, censura, tortura e supressão prolongada das liberdades políticas.
Nos demais casos, a promessa implícita era a substituição de regimes autoritários por ordens políticas mais abertas. O que se observou, porém, foi a continuidade do autoritarismo sob outras formas, pioradas: Estados fragmentados, regimes híbridos, governos de transição permanente ou soberanias severamente limitadas.
O padrão histórico sugere que a intervenção externa raramente transforma ditaduras em democracias. Mais frequentemente, reorganiza o autoritarismo, desloca seus atores, pulveriza a autoridade estatal e multiplica os custos sociais. A coerção não desaparece – apenas muda de forma, de escala e de intensidade.
O que a história autoriza esperar da Venezuela
Diante desse acúmulo histórico, a pergunta correta já não é se uma intervenção dos Estados Unidos na Venezuela seria bem-intencionada. A questão central é outra: o que, em termos concretos, intervenções desse tipo costumam produzir?
O padrão observado ao longo de mais de sete décadas permite antecipar cenários com razoável precisão. A derrubada externa de um governo, autoritário ou não, tende a desorganizar o Estado antes de qualquer possibilidade de reorganização democrática. Instituições são desmontadas mais rapidamente do que podem ser reconstruídas. O vazio de poder não gera consenso; gera disputa, fragmentação e violência.
Na Venezuela, isso significaria risco imediato de colapso institucional, disputa entre facções civis e militares, ampliação da crise humanitária e abertura do território a interesses externos concorrentes. A promessa de estabilidade tenderia a se converter em tutela prolongada. A promessa de democracia, em adiamento indefinido. A promessa de prosperidade, em controle estratégico de recursos, especialmente o petróleo, por atores alheios ao destino da sociedade venezuelana.
Nada disso seria inédito. Seria, ao contrário, historicamente coerente.
A experiência demonstra que intervenções não resolvem crises políticas complexas: simplificam-nas à força, destruindo os mecanismos internos que poderiam, com tempo e pressão social, produzir saídas próprias. Quando a política é substituída pela imposição externa, o que emerge não é autodeterminação, mas dependência – e dependência raramente convive com democracia.
Se a história serve para algo além da erudição, é para delimitar expectativas realistas. E ela é clara: intervenções derrubam governos; não constroem sociedades.
O futuro da Venezuela, seja ele qual for, dificilmente escapará desse veredicto histórico caso volte a ser tratado como capítulo de uma doutrina de força, e não como expressão de um povo que, como todos os outros, tem o direito de enfrentar suas próprias contradições sem porretes, tutelas ou “missões”.
(*) DJALBA LIMA é jornalista e editor de Relatos – A Estação da História.

Mais uma vez, excelente! Você nos traz ‘ressonâncias magnéticas’ de casos e fatos profundamente esclarecedores..