O porrete e a “missão”: Noriega, Maduro e o Destino Manifesto em pleno funcionamento

Por DJALBA LIMA (*)

Os Estados Unidos não construíram apenas um Estado nacional. Construíram, ao longo de mais de dois séculos, uma narrativa de missão histórica. A convicção de que sua expansão, seu modelo político e sua concepção de ordem seriam não apenas legítimos, mas necessários ao mundo, moldou a política externa americana desde o século XIX. Essa crença ganhou nome, doutrina e imaginação coletiva: Destino Manifesto.

Formulado explicitamente na década de 1840, o Destino Manifesto não foi apenas uma ideia expansionista. Foi, como observa o historiador Frederick Jackson Turner, uma estrutura mental: a noção de que a história americana avançava sempre “para fora”, levando consigo civilização, progresso e ordem. Povos indígenas, territórios mexicanos e soberanias alheias tornaram-se obstáculos naturais a serem superados.

O que muda, ao longo do tempo, não é o princípio – é o vocabulário.

Duas capturas, separadas por quase quatro décadas, ajudam a revelar essa continuidade subterrânea: a de Manuel Noriega, em 1990, e a de Nicolás Maduro, anunciada em 2026. Contextos distintos. A mesma lógica estrutural de poder.

Noriega: quando o instrumento vira ameaça

Em dezembro de 1989, os Estados Unidos lançaram a Operação Just Cause, invadindo o Panamá com dezenas de milhares de soldados. O alvo era Manuel Noriega, general, homem forte do regime e, durante anos, ativo colaborador da CIA. Quando Noriega deixou de ser funcional, passou a ser descrito como ameaça: narcotraficante, ditador, inimigo da democracia.

A operação foi apresentada como defesa da ordem, proteção de cidadãos norte-americanos e combate ao crime organizado. O desfecho foi simbólico: Noriega refugiado na Nunciatura Apostólica, submetido a cerco psicológico e levado algemado para julgamento nos Estados Unidos, em 1990.

O episódio cristalizou uma regra não escrita da política hemisférica: alianças são contingentes; soberanias, condicionadas.

Maduro: o Destino Manifesto em versão explícita

Em janeiro de 2026, Donald Trump anunciou uma operação que resultou no sequestro de Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, sob acusações de narcotráfico e terrorismo.

A semelhança com 1989 é evidente. A diferença é estratégica.

A Venezuela não é um pequeno país sob tutela informal, como era o Panamá. É potência energética, detentora de uma das maiores reservas de petróleo do mundo e inserida em um tabuleiro geopolítico que envolve China, Rússia e Irã. Capturar um chefe de Estado em exercício não é apenas uma ação policial internacionalizada: é uma declaração de supremacia política.

Nada disso implica qualquer endosso ao regime de Nicolás Maduro. A Venezuela vive, há anos, sob um governo autoritário, marcado pelo esvaziamento das instituições, perseguição a opositores, restrições à imprensa e graves denúncias de violações de direitos humanos. Ditaduras, de esquerda ou de direita, não são defensáveis.

O ponto central é outro. A crítica não recai sobre o caráter do regime, mas sobre o método empregado para enfrentá-lo. Quando uma potência se arroga o direito unilateral de punir, remover e reorganizar governos estrangeiros, não age como guardiã da democracia, mas como poder soberano acima do sistema internacional.

Aqui, o Destino Manifesto reaparece sem verniz. Não mais como missão civilizatória, mas como direito autoatribuído de intervir, julgar e decidir destinos nacionais.

Destino Manifesto: da fronteira física à fronteira política

O Destino Manifesto nasceu para justificar a marcha para o Oeste. Com o fim da fronteira territorial, a doutrina não desapareceu; transmutou-se.

A historiadora Patricia Limerick observa que a fronteira americana deixou de ser um lugar e passou a ser um método: onde quer que os EUA identifiquem desordem, ameaça ou oportunidade estratégica, ali se projeta a lógica da expansão.

No século XX, essa lógica assumiu novas roupagens: “defesa do mundo livre” na Guerra Fria; “combate ao narcotráfico” nos anos 1980 e 1990; “guerra ao terror” após 2001; e, agora, “segurança hemisférica” e “crime transnacional”.

O eixo moral – moral relativa, é verdade – permanece intacto: a exceção americana.

Big Stick: a bizarra pedagogia da força

No início do século XX, o presidente norte-americano Theodore Roosevelt condensou essa visão em uma fórmula brutalmente honesta: “Speak softly and carry a big stick.” Fale manso, mas carregue um porrete grande.

O Big Stick não era apenas ameaça. Era uma bizarra pedagogia. Intervenções militares eram apresentadas como lições necessárias a países considerados incapazes de autogoverno pleno. Panamá, Cuba, Nicarágua, Haiti, República Dominicana – a lista é longa.

Noriega foi o Big Stick clássico: invasão aberta, captura pública, punição “exemplar”. Maduro, se confirmados os termos anunciados, representa o Big Stick do século XXI: forças especiais, guerra jurídica, narrativa criminal e desprezo funcional pelo direito internacional quando ele limita a ação.

O padrão que atravessa o tempo

Como lembra o cientista político Noam Chomsky, a política externa americana não é guiada por valores universais, mas por interesses estratégicos revestidos de moralidade. Quando esses interesses exigem exceções, o discurso se adapta.

O padrão se repete: um líder é rotulado como ameaça global; constrói-se uma narrativa moralizante; a força é apresentada como último recurso, embora seja o recurso decisivo desde o início; o precedente vira método.

A pergunta central não é se Noriega ou Maduro são culpados. Nem se são mocinhos. A pergunta incômoda é outra: quem decide quando a soberania de um país termina e com base em quais critérios?

Enquanto a resposta continuar unilateral, o Destino Manifesto seguirá operando. Não como relíquia do século XIX, mas como estrutura viva do poder americano.

Quando uma potência se arroga o direito de capturar chefes de Estado, redesenhar governos e impor punições extraterritoriais, não estamos diante de um gesto excepcional, mas da normalização da força como linguagem política. A soberania deixa de ser princípio e passa a ser concessão. Os povos deixam de ser sujeitos da história e tornam-se objetos de correção.

Foi contra essa lógica que Denis Diderot escreveu, no século XVIII, uma frase que atravessou o tempo com intacta atualidade:

A defesa da soberania não é defesa de tiranos. É defesa dos povos contra a ideia perigosa de que alguns nasceram com missão, outros com tutela; alguns com direito de punir, outros apenas de obedecer. Sempre que essa hierarquia se impõe, o Destino Manifesto deixa de ser doutrina histórica e volta a ser prática viva.

E quando isso acontece, a história já nos ensinou: o porrete nunca cai apenas sobre os governantes. Ele sempre atinge, primeiro, os povos.

(*) DJALBA LIMA é jornalista e editor de Relatos – A Estação da História.

djalba.lima@gmail.com Escrito por:

7 Comentários

  1. DOURIVAN LIMA
    janeiro 3, 2026
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    Uma análise muito boa, Djalba. E feita a quente, em cima do fato.

  2. João Carlos Ferreira da Silva
    janeiro 3, 2026
    Responder

    Muito bom, Djalba. Dentro do possível, vou retransmitir.

  3. Marcos Magalhães
    janeiro 3, 2026
    Responder

    A normalização da força, que você cita, é ainda mais triste quando tanta gente a aceita como algo natural.

  4. Paulo José Cunha
    janeiro 3, 2026
    Responder

    Em palavras bem simles, há muito tempo os EUA se arrogam o direito de serem o xerife do mundo. E repetem e repetirão ad infinitum o argumento do direito de intervenção. Em outras palavras: o direito de invadir qualquer pais que, por qualquer motivo, contrariar seus interesses. Que Maduro é um ditador com todos os defeitos fartamente apontados é fato conhecido. Daí a invadir seu país e aprisioná-lo ferindo de morte o direito à autodeterminação dos povos vai uma distância infinita.

  5. Patrícia
    janeiro 3, 2026
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    É uma mistura de Doutrina Monroe com Destino Manifesto que vai deixar a Venezuela à mercê de facções paramilitares e sua população com saudade do Chavismo. No final, o que mas interessa aí não é apenas o petróleo, mas controlar para quem ele será vendido, obviamente não mais para a China, nem parceria estratégica com o Irã e, menos ainda, investimentos russos.

  6. janeiro 4, 2026
    Responder

    Ótima análise!
    Djalba, este seu texto precisa de chegar às salas de aulas, se é que ainda se pratiquem leituras e discussões de textos nas universidades.

  7. MARIOSAN GONCALVES
    janeiro 12, 2026
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    O Rei está nu com o grande porrete na mão. E no desespero, aponta o porrete pra tudo que é lado. Êpa! Lá vem ele ali .. UFA! por pouco… Mas devemos ficar atentos, pra salvar o multilateralismo geopolítico.. Salve o acordo UE/MERCOSUL!

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