Diário do Golpe – Parte 1: quando Jango entrou na mira de Washington

Por DJALBA LIMA (*)

John Kennedy recebe João Goulart no Salão Oval da Casa Branca, em 3 de abril de 1962. Ao fundo, da esquerda para a direita, aparecem o chanceler San Tiago Dantas e o secretário de Estado norte-americano Dean Rusk.
Foto: Robert Knudsen/White House Photographs – John F. Kennedy Presidential Library and Museum.

30 de julho de 1962 – A primeira fita

João Goulart estivera em Washington apenas quatro meses antes. Fora recebido por John Kennedy, discursara no Congresso e posara para fotografias ao lado do presidente norte-americano. As imagens falavam de amizade. A confiança depositada em Jango não parecia apenas protocolar. Meses antes, durante a crise dos prisioneiros da Baía dos Porcos, Kennedy recorrera ao presidente brasileiro para abrir um canal com Fidel Castro.

Está documentado o apelo público de Goulart pela preservação da vida dos invasores capturados, Outros registros sugerem que ele pode ter transmitido a Fidel uma mensagem reservada do presidente norte-americano.

O episódio, já contado por Relatos em Documentos secretos da CIA — o império age na sombra, guarda uma ironia histórica: antes de conspirar contra Jango, Washington precisou dele para falar com Havana.

Mas a imagem oficial da visita de Jango à Casa Branca não correspondia às ações nos bastidores. Naquele 30 de julho, Kennedy reuniu-se na Casa Branca com Lincoln Gordon, embaixador dos Estados Unidos no Brasil, e Richard Goodwin, assessor para a América Latina. Era a primeira conversa registrada pelo sistema de gravação que o presidente instalara secretamente no Salão Oval. O primeiro país discutido nas fitas foi o Brasil.

“Que tipo de ligação temos com os militares?”, perguntou Kennedy.

A pergunta não era retórica. Gordon respondeu que um dos trabalhos mais importantes da embaixada seria “fortalecer a espinha” dos militares brasileiros. Era necessário fazê-los compreender, discretamente, que Washington não seria necessariamente contrário a uma ação militar contra Goulart, caso o presidente estivesse “entregando o país aos comunistas”.

Vernon Walters, em pé ao centro, atua como intérprete durante reunião militar na Itália, em 11 de dezembro de 1944. À esquerda está o general João Batista Mascarenhas de Moraes, comandante da Força Expedicionária Brasileira; à direita, o general Euclides Zenóbio da Costa. Também participam os generais norte-americanos Lucian Truscott e Willis Crittenberger. Foi na campanha da Itália que Walters construiu relações pessoais com oficiais brasileiros — vínculos que ganhariam importância decisiva duas décadas depois, nos bastidores do golpe de 1964.
Fonte: U.S. Army Signal Corps / The National WWII Museum.

A reunião avançou do diagnóstico para a escolha de um homem. O novo adido militar deveria conhecer os oficiais brasileiros, falar sua língua e conquistar sua confiança. O nome escolhido foi o do tenente-coronel Vernon Walters, veterano da Segunda Guerra Mundial que servira na Itália ao lado de oficiais brasileiros. Entre seus antigos companheiros estava Humberto de Alencar Castello Branco.

Goodwin admitiu o que se esperava daquela aproximação:

– Talvez queiramos que eles assumam o poder no fim do ano. Se puderem.

Vernon Walters ainda não havia arrumado as malas, mas o golpe começava a falar português. A fluência de Walters em português permitiu que ele atuasse como oficial de ligação com a Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Segunda Guerra Mundial. Era o homem certo para a missão e, com essas credenciais, virou adido militar no Brasil pré-golpe.

A transcrição dessa reunião integra o dossiê sobre as origens da política norte-americana de mudança de regime no Brasil publicado pelo National Security Archive. Veja o documento.

3 de novembro de 1962 – À procura de outro governo

Uma missão formada por representantes do Departamento de Estado, do Pentágono, da CIA, do Tesouro e de outras agências entregou a Kennedy um relatório sobre o Brasil. O grupo passara 16 dias no país. Conversara com integrantes do governo, comandantes militares, governadores, banqueiros e empresários brasileiros e norte-americanos.

O documento descrevia um país à beira do colapso financeiro e um presidente imprevisível, tolerante com comunistas e incapaz, na avaliação de seus autores, de compreender a gravidade da crise.

Mas o trecho mais revelador não tratava de inflação ou balanço de pagamentos.

O relatório recomendava que os Estados Unidos ampliassem seu trabalho de inteligência e mantivessem, sem chamar atenção, contatos com militares e políticos capazes de formar um governo alternativo “mais amigável”. Washington deveria estar preparado para apoiar esse novo poder caso uma crise provocasse a saída de Goulart.

Recomendava também que fossem identificadas as forças políticas que os Estados Unidos desejariam ver vitoriosas nas eleições de 1965 e estudadas maneiras de apoiá-las discretamente.

Ainda faltavam mais de três anos para a eleição presidencial. Em Washington, porém, já se procurava um presidente.

O relatório completo encontra-se na coleção oficial Foreign Relations of the United States.

11 de dezembro de 1962 – Três caminhos sobre a mesa

O Comitê Executivo do Conselho de Segurança Nacional reuniu-se para decidir o que fazer com o Brasil. Havia três caminhos sobre a mesa. O primeiro era não fazer nada e permitir que a situação seguisse seu curso. O segundo, colaborar com brasileiros hostis a Goulart para derrubá-lo. O terceiro, pressionar o presidente para que alterasse a orientação política e econômica de seu governo.

Naquele momento, a Casa Branca escolheu o terceiro caminho. Não por respeito definitivo à soberania brasileira, mas porque os adversários de Goulart ainda não demonstravam, segundo a avaliação norte-americana, “capacidade e vontade” suficientes para derrubá-lo. Os próprios Estados Unidos também não se consideravam preparados para estimular uma operação bem-sucedida.

O golpe não foi rejeitado. Foi adiado.

O documento recomendava que essa possibilidade permanecesse sob “consideração ativa e contínua”. Caso Goulart continuasse a aproximar-se da esquerda, Washington deveria estar pronto para colaborar com elementos considerados amistosos, entre eles a maioria do corpo de oficiais, para afastá-lo do poder.

A democracia brasileira fora convertida numa alternativa de política externa. E não era a alternativa preferida.

As três opções e a decisão da reunião estão registradas nos documentos 2 e 3 do dossiê do National Security Archive.

17 de dezembro de 1962 – O irmão do presidente

O registro de uma cobrança – Primeira página do memorando elaborado pelo embaixador Lincoln Gordon sobre a conversa entre João Goulart e Robert Kennedy no Palácio da Alvorada, em Brasília, em 17 de dezembro de 1962. Durante mais de três horas, o emissário de John Kennedy pressionou o presidente brasileiro a modificar ministros, alianças políticas, política econômica e orientação internacional.
Crédito: Departamento de Estado dos Estados Unidos/National Security Archive.

Seis dias depois, Robert Kennedy desembarcou em Brasília. Oficialmente, era o procurador-geral dos Estados Unidos. Naquela tarde, porém, chegava ao Palácio da Alvorada como irmão e emissário pessoal do presidente. A conversa com Goulart durou mais de três horas.

Robert Kennedy apresentou as inquietações de Washington: a presença de comunistas e nacionalistas de esquerda em postos do governo, nas Forças Armadas, nos sindicatos e no movimento estudantil; as críticas dirigidas aos Estados Unidos; a política externa independente; as desapropriações de empresas norte-americanas; a inflação; a aproximação com países socialistas.

A mensagem era inequívoca: se desejava ajuda financeira, Goulart precisaria reorganizar não apenas a economia, mas também suas alianças, seus ministros e sua política exterior.

O presidente brasileiro tentou explicar que não podia perseguir pessoas apenas por suas ideias, que governava uma sociedade conflituosa e que os problemas econômicos do Brasil exigiam reformas profundas. Enquanto Goulart falava, Robert Kennedy escreveu um bilhete e o passou a Lincoln Gordon:

“Parece que não estamos chegando a lugar algum.”

O encontro não era uma negociação entre iguais. Era uma cobrança. Washington tratava o financiamento externo como instrumento para interferir na composição e na orientação de um governo constitucional.

No fim da reunião, as paredes curvas do Alvorada permaneceram no lugar. A relação entre os dois países, não.

O memorando diplomático da conversa está reproduzido em Airgram A-710, “Ata da conversa entre o presidente brasileiro João Goulart e o procurador-geral Robert F. Kennedy, Brasília, 17 de dezembro de 1962”, 19 de dezembro de 1962.

8 de março de 1963 – Apertar os parafusos

Kennedy voltou a discutir o Brasil com Dean Rusk, Lincoln Gordon, Robert Kennedy e outros assessores. O ministro da Fazenda brasileiro, San Tiago Dantas, preparava-se para ir a Washington em busca de recursos destinados ao combate à inflação e à crise externa.

A economia brasileira precisava de dólares. A Casa Branca sabia disso.

Na gravação da reunião, Kennedy propôs prolongar as negociações sobre a ajuda para, em suas próprias palavras, “apertar os parafusos” sobre Goulart. Os recursos deveriam ser utilizados como alavanca para obrigá-lo a afastar integrantes da esquerda e modificar suas políticas.

Robert Kennedy ainda demonstrava irritação com o encontro de dezembro. Para ele, Goulart acreditava que poderia fazer pequenas concessões, receber o dinheiro norte-americano e continuar governando como antes. Era necessário mostrar que não poderia manter comunistas em posições importantes, criticar os Estados Unidos e, ao mesmo tempo, receber centenas de milhões de dólares de Washington.

No mesmo dia, a CIA produziu um informe sobre conspirações militares contra o presidente brasileiro. Um dos planos mais desenvolvidos envolvia o marechal Odílio Denys, ex-ministro da Guerra e adversário da posse de Goulart em 1961.

A preocupação da agência não era proteger a ordem constitucional. Era evitar que uma tentativa precipitada fracassasse e permitisse a Goulart expurgar das Forças Armadas os oficiais mais próximos dos Estados Unidos.

A democracia continuava de pé. Mas seus inimigos já recebiam recomendações para não tropeçar.

Veja trechos da conversa de JFK com Lincoln Gordon na Casa Branca.

Leia memorando secreto da CIA sobre planos golpistas no Brasil contra Jango.

10 de setembro de 1963 – O dinheiro invisível

Richard Helms, diretor-adjunto de Planos da CIA, compareceu diante do conselho que fiscalizava as operações de inteligência em nome do presidente Kennedy. Falou sobre ações clandestinas em Cuba, Chile, Haiti, Itália, Congo, Guiana Britânica e Brasil.

Sobre o Brasil, informou que a CIA estava realizando uma operação secreta no movimento sindical. A agência acreditava que poderia enfraquecer a influência comunista entre os trabalhadores.

Veja o que diz Helms: “Goulart está empenhado em esforços coordenados para (1) desacreditar o Legislativo, (2) obter o apoio do Exército e (3) fazer um apelo demagógico ao povo brasileiro, apresentando-se como o único líder capaz de atender aos seus interesses. A CIA está conduzindo ações encobertas no movimento trabalhista e acredita ser possível enfraquecer o controle comunista. Entre os grupos estudantis, diversas operações da CIA estão em andamento e há colaboradores posicionados (por exemplo, no alto comitê executivo da federação estudantil). No entanto, não há, no momento, nenhuma operação política da CIA em grande escala no Brasil.”


A conspiração registrada no papel. Em memorando ultrassecreto de 10 de setembro de 1963, Richard Helms, alto dirigente da CIA, admite que a agência realizava ações clandestinas no movimento sindical brasileiro e mantinha operações e agentes infiltrados no movimento estudantil. Faltavam seis meses para a deposição de João Goulart. Fonte: Arquivo Nacional dos EUA/National Security Archive.

O registro, integralmente liberado apenas em 2025, não revela naquele trecho todos os destinatários, valores e métodos empregados. Mas elimina qualquer dúvida sobre a existência da operação: meses antes do golpe, a CIA atuava clandestinamente dentro de organizações brasileiras.

Essa página é importante também pelo que ainda não diz. Enquanto a intervenção norte-americana no Chile foi amplamente documentada, muitos arquivos operacionais da CIA relativos ao Brasil permanecem fechados, incompletos ou expurgados. Conhecemos a decisão política. Conhecemos parte do dinheiro. Conhecemos alguns intermediários. Ainda não conhecemos toda a contabilidade.

O segredo não apaga o acontecimento. Apenas mantém alguns nomes do lado escuro da página.

7 de outubro de 1963 – “Intervir militarmente?”

Kennedy fez a pergunta sem rodeios:

– O senhor prevê uma situação em que talvez consideremos desejável intervir militarmente?

Lincoln Gordon não descartou a possibilidade. Estimava em 50% a chance de Goulart deixar o governo até o início de 1964, por pressão, renúncia ou derrubada. Caso uma tentativa de golpe dividisse as Forças Armadas, os Estados Unidos deveriam considerar o fornecimento de combustível e munição aos grupos favoráveis a Washington.

O embaixador não queria que escrúpulos constitucionais impedissem o reconhecimento de um governo surgido da ruptura. Tampouco queria excluir uma intervenção discreta que ajudasse “o lado certo a vencer”.

O secretário da Defesa, Robert McNamara, sugeriu acelerar os planos militares de contingência. Kennedy concordou.

A Operação Brother Sam ainda não tinha recebido sua forma definitiva. Mas seus componentes essenciais já apareciam na conversa: combustível, munição, identificação das forças amigas e preparação para uma guerra interna.

Naquele momento, ninguém sabia em que quartel a rebelião começaria. Washington já estudava como abastecê-la.

Leia trechos da conversa de Lincoln Gordon com JFK em 7 de outubro de 1963. Quarenta e cinco depois, JFK seria assassinado.

22 de novembro de 1963 – Um plano dentro de um funeral

Naquele dia, John Kennedy viajou para Dallas.

Naquele mesmo dia, um memorando do Departamento de Estado registrou a existência de um plano de contingência preparado pela embaixada no Brasil. O documento destacava sua “forte ênfase na intervenção armada dos Estados Unidos”.

O plano completo não foi divulgado.

Não sabemos todos os seus cenários, alvos, rotas ou procedimentos. Sabemos que existia. Sabemos que fora elaborado sob a supervisão da embaixada. E sabemos que a intervenção militar já não era apenas uma pergunta feita numa reunião: tornara-se matéria de planejamento.

Poucas horas depois, Kennedy foi assassinado.

Lyndon Johnson herdou a Presidência, a guerra do Vietnã, a hostilidade a Cuba e um arquivo brasileiro no qual a possibilidade de derrubar João Goulart já ocupava várias pastas.

Os homens mudariam. O plano continuaria sobre a mesa.

22 de novembro de 1963 — o poder muda de mãos
Lyndon Johnson presta juramento como presidente dos Estados Unidos a bordo do Air Force One, em Dallas, após o assassinato de John Kennedy. À direita, Jacqueline Kennedy ainda veste a roupa marcada pelo atentado. Naquele mesmo dia, um documento norte-americano tratava de um plano de contingência para o Brasil com “forte ênfase” na possibilidade de intervenção armada. Kennedy morria; a política contra João Goulart passava às mãos de Johnson.
Crédito: Cecil Stoughton/White House Photographs — John F. Kennedy Presidential Library and Museum.


(*) DJALBA LIMA é jornalista e editor de Relatos.

djalba.lima@gmail.com Escrito por:

4 Comentários

  1. Teresa Cardoso
    agosto 29, 2026
    Responder

    Em 1962, nos registros do sistema de gravação instalado pelo presidente Kennedy no Salão Oval da Casa Branca, o primeiro país discutido foi o Brasil.
    Isso diz muito sobre um país que, naquela época, tinha um horizonte promissor e que, como agora, incomodava tanto a maior potência do mundo.
    Ali, o embaixador Lincoln Gordon, dizia a Kennedy que, na estratégia pra derrubar João Goulart, um dos trabalhos mais importantes seria “fortalecer a espinha dos militares brasileiros”.
    Djalba, na leitura dessa primeira parte dos documentos secretos da Casa Branca que você tem compilado, revela-se não só um período histórico que traumatizou o Brasil. Revela-se um alerta gritante para que a sociedade brasileira não desabe novamente num período de escuridão.

  2. Mariosan Gonçalves
    setembro 27, 2026
    Responder

    Muito boa esta série. Mostra bem desde quando esse dedo podre do Tio Sam interfere em nossa nação com seus interesses escusos. E novamente estamos assistindo ao vivo e a cores, escancaradamente, a arrogância hostil desse decadente império com seu dedo cada vez mais fétido e manchado de sangue tentando mudar os rumos do nosso futuro político.

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