Um banho de sangue ou um banho de civilidade?

Por DJALBA LIMA (*)

Houve um tempo em que os economistas resumiam uma das escolhas fundamentais dos governos numa pergunta: manteiga ou canhões? Era o trade-off clássico, a escolha entre dois objetivos que disputavam os mesmos recursos. A manteiga representava os bens destinados à vida cotidiana, à alimentação e ao bem-estar; os canhões, a riqueza consumida pela guerra. Cada canhão construído significava alguma manteiga que deixaria de chegar à mesa. Governar era decidir onde colocar o dinheiro, a inteligência e a esperança de uma sociedade.

No Brasil de 2026, esse velho trade-off reaparece sob uma forma ainda mais áspera: cadeias ou escolas? Construir superpresídios ou construir oportunidades? Oferecer à sociedade um banho de sangue ou um banho de civilidade?

Talvez esta seja uma das escolhas mais profundas da próxima eleição: queremos um banho de sangue ou um banho de civilidade?

A pergunta não opõe segurança e direitos humanos. Uma sociedade civilizada precisa das duas coisas. O verdadeiro conflito está entre o Estado que usa a força dentro da lei para proteger a população e o Estado que transforma a força num espetáculo eleitoral; entre uma política de segurança destinada a reduzir a violência e uma política alimentada pela necessidade permanente de produzir inimigos, medo e cadáveres.

A escalada da brutalidade

As declarações recentes de três candidatos não são idênticas, mas parecem obedecer à mesma escalada retórica.

Flávio Bolsonaro encontrou-se em São Paulo com Osiris Luna, ministro da Justiça e diretor-geral dos presídios de El Salvador, um dos principais executores da política de encarceramento em massa do presidente Nayib Bukele. Diante das denúncias de violações de direitos humanos no país centro-americano, preferiu destacar o que considera a insuficiência brasileira: “Tem pouco preso no Brasil. Tinha que ter mais”.

Romeu Zema escolheu a segurança pública para abrir sua campanha. Disse que “o problema do Brasil é que bandido fica solto”, acusou a Justiça de desfazer o trabalho da polícia e prometeu construir, na região Norte, um “superpresídio” destinado a líderes de facções. Aos criminosos violentos, reservou uma expressão conhecida do populismo penal: vão “mofar na cadeia”.

Renan Santos atravessou a última fronteira verbal. Ao defender uma guerra contra o crime organizado, afirmou que o sangue que deve jorrar pelas ruas não é o da vítima, mas o do bandido. Admitiu que “banho de sangue” talvez não fosse a expressão mais bonita, mas não recuou. No mesmo conjunto de declarações, defendeu a construção de armas nucleares pelo Brasil, a criação de novos presídios, o endurecimento das leis penais e a possibilidade de descumprir decisões do Supremo Tribunal Federal que ele próprio considerasse ilegais.

Temos, assim, três degraus de uma mesma escada: mais prisões, um superpresídio, um banho de sangue.

No primeiro, a quantidade de pessoas encarceradas aparece como medida de eficiência do governo. No segundo, a prisão adquire proporções monumentais, como se o tamanho do edifício demonstrasse a força do Estado. No terceiro, desaparecem os últimos filtros da linguagem institucional. O candidato já não promete apenas prender ou condenar; anuncia o sangue que deverá correr.

Palavras não são balas. Mas podem preparar o terreno moral em que as balas deixam de causar espanto.

Quando um candidato à Presidência fala em “banho de sangue”, ele não está apresentando uma política de segurança. Está concedendo antecipadamente uma licença simbólica para matar. A frase dissolve investigações, julgamentos, erros policiais, inocentes atingidos e circunstâncias concretas numa única categoria: “bandido”. E, se alguém foi colocado nessa categoria, sua morte passa a ser não apenas tolerável, mas desejável.

É nesse momento que o Estado deixa de dizer “a lei será cumprida” e começa a insinuar: “algumas pessoas estão fora da lei e, portanto, fora da humanidade”.

O medo é real

Seria um erro, contudo, responder a essa retórica ignorando o sofrimento que a torna eleitoralmente poderosa.

A violência não é uma invenção dos candidatos. Ela está nas ruas, nos ônibus, nas casas invadidas, nos celulares arrancados das mãos, nas famílias destruídas por homicídios, nos bairros submetidos às facções e nas mulheres que alteram seus caminhos por medo. Há comunidades em que o Estado chega tarde, chega mal ou simplesmente não chega. Quando chega, às vezes aparece apenas com um fuzil.

O cidadão que pede segurança não está necessariamente pedindo autoritarismo. Em geral, está pedindo algo muito mais elementar: o direito de voltar vivo para casa.

Democratas cometem um erro grave quando tratam essa angústia como paranoia ou conservadorismo primitivo. A população tem o direito de exigir polícia preparada, investigação eficiente, fronteiras vigiadas, controle de armas, combate à lavagem de dinheiro e repressão firme às facções. Assassinos, estupradores, sequestradores e criminosos perigosos precisam ser retirados do convívio social, julgados e punidos. Civilidade não significa passividade. Direitos humanos não são um programa de desarmamento do Estado diante do crime.

A questão não é se o Estado deve usar a força. Deve. A questão é quem controla essa força, a quais objetivos ela serve e quais limites não pode ultrapassar.

Uma polícia que investiga, prende e preserva provas é forte. Uma polícia estimulada a contar cadáveres pode ser apenas violenta. Um sistema judicial que condena com rapidez e segurança é rigoroso. Um governo que seleciona quem merece viver ou morrer é arbitrário. Uma penitenciária que isola líderes criminosos e impede que continuem comandando facções cumpre uma função legítima. Uma prisão superlotada, degradante e dominada pelo crime organizado pode tornar-se uma universidade daquilo que deveria combater.

O problema não está na existência das cadeias. Está na crença de que elas, sozinhas, conseguem produzir a sociedade segura que prometem.

Um país que já prende muito

A afirmação de que há “pouco preso no Brasil” não resiste à realidade do sistema penitenciário. No final de 2024, aproximadamente 670 mil pessoas dormiam em celas físicas no país. Somadas as diferentes modalidades de prisão domiciliar, o universo de pessoas submetidas ao sistema penal era ainda maior. O Brasil já convivia com dezenas de milhares de presos além da capacidade oficial de suas penitenciárias. Os levantamentos da Secretaria Nacional de Políticas Penais mostram um sistema gigantesco, superlotado e incapaz de cumprir adequadamente todas as funções que a lei lhe atribui.

Se o encarceramento, por si só, resolvesse a violência, o Brasil deveria ser um dos países mais seguros do mundo.

Não é.

Prendemos muito e continuamos convivendo com facções poderosas. Construímos presídios e assistimos a organizações criminosas nascerem, crescerem ou consolidarem seu poder dentro deles. Isolamos pessoas, mas frequentemente não impedimos que os chefes continuem transmitindo ordens. Misturamos autores de delitos de gravidades diferentes, permitimos que grupos controlem galerias e depois devolvemos à sociedade pessoas recrutadas e endividadas com essas organizações.

Nesse ambiente, a cadeia pode deixar de ser uma barreira contra o crime e transformar-se numa de suas estruturas de reprodução.

Isso não significa que devamos abrir as celas indiscriminadamente. Significa que a pergunta correta não é apenas quantos presos existem, mas quem deve permanecer preso, por quanto tempo, em quais condições e com qual finalidade. Manter um chefe de facção isolado não é o mesmo que lançar um jovem autor de delito sem violência numa penitenciária dominada por essa facção. Tratar as duas situações como se fossem iguais não é rigor. É incompetência penal.

O superpresídio exerce enorme fascínio porque pode ser fotografado. Seus muros aparecem na televisão, as fileiras de celas produzem imagens impressionantes e o governante parece materializar sua autoridade em concreto armado. Já a investigação financeira que bloqueia empresas de fachada, a inteligência que intercepta uma rota internacional, a escola que mantém um adolescente longe do recrutamento e a política urbana que recupera um território são menos cinematográficas.

A política, no entanto, deveria ser avaliada pelo resultado, não pela fotografia.

A sedução de Bukele

O modelo de Nayib Bukele precisa ser analisado com a honestidade que o debate brasileiro raramente permite.

El Salvador sofreu durante décadas com níveis brutais de violência e com o domínio territorial das maras – termo usado na América Central para designar grupos que controlam territórios, praticam extorsões, tráfico de drogas, homicídios e recrutamento de jovens. A partir de 2022, sob um regime de exceção, o governo promoveu prisões em massa e desarticulou parte importante desse domínio. Os homicídios despencaram. Milhares de salvadorenhos voltaram a circular por lugares antes interditados pelo medo. Esse resultado é real. Ignorá-lo seria abandonar a análise e refugiar-se numa confortável superioridade moral.

Mas também é real o preço cobrado.

O regime de exceção suspendeu garantias, ampliou detenções sem o devido processo e levou mais de 90 mil pessoas às prisões até 2026. Organizações internacionais registraram denúncias de prisões arbitrárias, tortura, desaparecimentos e mortes sob custódia. Houve pessoas libertadas depois que o próprio Estado reconheceu a ausência de vínculos comprovados com as gangues. A Anistia Internacional descreve detenções em massa e arbitrárias, acompanhadas por denúncias disseminadas de maus-tratos e mortes.

O dilema salvadorenho não pode ser reduzido à oposição infantil entre os amigos dos bandidos e os defensores das vítimas. A pergunta verdadeira é mais difícil: quantos inocentes uma democracia pode sacrificar para prender culpados?

A resposta civilizada só pode ser uma: nenhum inocente deve ser transformado deliberadamente em dano colateral de uma política pública.

O Estado certamente cometerá erros. Toda instituição humana os comete. Mas uma coisa é o erro investigado, reconhecido e reparado; outra é construir um sistema no qual o erro deixa de importar porque qualquer pessoa presa já é apresentada como culpada. Quando a presunção de inocência desaparece, não são apenas criminosos que perdem garantias. Todos nós passamos a depender da infalibilidade da polícia, da honestidade do denunciante e da benevolência do governante.

E nenhum Estado é infalível. Nenhum governante é eternamente benevolente.

A escola chega antes

A pergunta “cadeias ou escolas?” contém uma simplificação. Uma sociedade precisa das duas. Precisa de prisões seguras para pessoas perigosas e de escolas capazes de oferecer futuro às crianças e aos jovens.

Mas a comparação revela o momento em que cada braço do Estado chega à vida de uma pessoa.

A escola chega antes. A cadeia chega depois.

A escola encontra a criança quando sua história ainda está sendo escrita. A prisão encontra o adulto depois que muitas portas já se fecharam. A escola oferece linguagem, convivência, horizonte e pertencimento. A cadeia pune aquilo que a sociedade não conseguiu impedir – ou que, em alguns casos, ajudou a produzir por meio do abandono, da desigualdade, da violência familiar, da evasão escolar e da ausência de oportunidades.

Isso não elimina a responsabilidade individual. A pobreza não transforma automaticamente ninguém em criminoso, assim como a riqueza não imuniza ninguém contra o crime. Milhões de brasileiros enfrentam privações sem violar a lei. Reconhecer fatores sociais não significa absolver quem escolhe matar, roubar ou explorar. Significa compreender que uma política pública séria não pode limitar-se ao instante final da trajetória, quando o crime já aconteceu e a vítima já foi ferida.

Um estudo do Ipea, realizado em 81 municípios que concentravam quase metade dos homicídios brasileiros em 2014, encontrou uma associação expressiva: para cada aumento de 1% na proporção de jovens de 15 a 17 anos na escola, a taxa de homicídios caía 2%. A pesquisa não transforma a sala de aula numa vacina milagrosa contra o crime, mas demonstra que educação também é política de segurança.

Uma escola não substitui uma delegacia. Um professor não deve ser encarregado de enfrentar um fuzil. Mas cada jovem que encontra pertencimento na educação representa uma disputa que o crime organizado pode perder.

O Estado brasileiro costuma fazer o contrário. Economiza na infância, tolera a evasão, abandona bairros inteiros e reaparece anos depois com viaturas, tribunais e celas. É uma extraordinária máquina de chegar tarde. Nega oportunidades quando elas custam menos e financia o encarceramento quando tudo se tornou mais caro – econômica, social e humanamente.

Abandona a carteira escolar e depois constrói o beliche de concreto.

A política do sangue

O “banho de sangue” não é apenas uma expressão infeliz. Ele contém uma concepção de poder.

Numa democracia, a força é um recurso extremo submetido à Constituição, às leis, aos tribunais e ao controle público. Na política do sangue, a força converte-se em demonstração de autenticidade. Quanto mais violento o candidato parece, mais decidido pretende ser. A crueldade passa a funcionar como certificado de coragem.

É uma fraude perigosa.

Coragem política não é prometer a morte de pessoas que não estão presentes para responder. Coragem é enfrentar as estruturas financeiras das facções, a corrupção policial, o tráfico de armas, as milícias, os agentes públicos associados ao crime e os empresários que lavam seu dinheiro. É reformar presídios dominados por organizações criminosas. É investir em investigação, ciência forense e integração de dados. É prender os chefes, proteger testemunhas e impedir que adolescentes sejam recrutados para substituí-los.

O banho de sangue é, muitas vezes, o atalho verbal de quem não apresentou a engenharia necessária para produzir segurança.

Além disso, o sangue raramente respeita as fronteiras traçadas nos palanques. Uma vez legitimada a ideia de que determinadas pessoas podem ser eliminadas, amplia-se progressivamente o grupo dos elimináveis. Primeiro o homicida, depois o suspeito. Primeiro o homem armado, depois o jovem que correu. Primeiro aquele que reagiu, depois aquele que parecia que iria reagir. Quando o erro aparece, a vítima já recebeu um rótulo que dispensa explicações.

No fundo, o populismo penal oferece uma promessa impossível: eliminar o crime eliminando os criminosos. Mas sociedades não são divididas com tanta nitidez entre “pessoas de bem” e “bandidos”. Há criminosos violentos que precisam ser contidos, inocentes acusados injustamente, policiais honestos, policiais corruptos, jovens recuperáveis, chefes irrecuperáveis, vítimas que desejam justiça e vítimas que não querem vingança.

Governar é entrar nessa complexidade. O slogan serve justamente para não entrar.

O tamanho de uma civilização

A escolha de 2026, portanto, não será entre prender ou não prender. Pessoas perigosas devem ser presas. Chefes de facções devem ser isolados. O crime organizado deve ser enfrentado com inteligência, recursos, coordenação e força legítima.

A escolha será entre fazer da prisão uma parte da política de segurança ou transformar o país inteiro numa extensão simbólica da prisão.

Será entre o Estado que pune para defender a vida e o Estado que promete matar para conquistar votos. Entre a autoridade submetida à lei e a autoridade que deseja ocupar o lugar da lei. Entre governantes que apresentam resultados verificáveis e candidatos que oferecem cadáveres imaginários a uma plateia assustada.

Durante muito tempo, perguntamos quantos canhões uma sociedade poderia construir sem retirar a manteiga de sua mesa. Agora talvez devamos fazer outra pergunta: quantas prisões um país pretende erguer antes de perceber que nenhuma muralha será alta o bastante para separar indefinidamente a violência das condições que a alimentam?

Cadeias serão necessárias. Escolas são indispensáveis. A polícia deve chegar quando o crime acontece; a civilização precisa chegar antes.

Porque o verdadeiro sinal de força de uma nação não é a quantidade de pessoas que consegue encarcerar nem o volume de sangue que admite derramar. É sua capacidade de proteger os inocentes, punir os culpados dentro da lei e impedir que novas vítimas e novos criminosos continuem sendo produzidos.

O banho de sangue pode render aplausos num palanque. O banho de civilidade exige inteligência, paciência, coragem e instituições.

Mas somente um deles é capaz de lavar o medo sem afogar a democracia.

(*) DJALBA LIMA é jornalista e editor de Relatos.

djalba.lima@gmail.com Escrito por:

Um comentário

  1. Marly Paiva
    agosto 31, 2026
    Responder

    Um artigo que vale por um curso. Todos os candidatos deveriam lê-lo calmamente e refletir bem.

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