O conselho de Raimar Richers, as lições das grandes rupturas históricas e o risco de o Brasil confundir desejo de mudança com promessa de salvação.
Por DJALBA LIMA (*)
Em 1996, entrevistei Raimar Richers, um dos professores fundadores da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas e pioneiro do marketing no Brasil. Ele tinha 70 anos; eu, 39. Ele não me parecia um idoso – a jovialidade de suas ideias tornava a diferença de idade irrelevante.
Richers começou com um conselho que, trinta anos depois, continua voltando à minha memória: imite o surfista. Ninguém consegue permanecer na crista da onda a vida inteira. Na descida, inevitável, procure estar preparado para a próxima onda.
Reconstituo suas palavras como as conservei desde aquela conversa. Falávamos da capacidade de perceber movimentos, de nos adaptar e de compreender que o êxito não suspende o tempo. Hoje, penso que aquela lição poderia ter sido ouvida pelo Partido dos Trabalhadores (PT). E deveria ser considerada pelos brasileiros que, cansados do presente, se dispõem a apostar numa mudança sem examinar o que ela poderá trazer.
O conselho de Richers advertia contra a acomodação. A história acrescenta uma preocupação: quem percebe uma onda chegando precisa saber também para onde ela vai.
Há ondas que abrem caminhos. Outras arrastam uma sociedade para lugares dos quais ela levará décadas para sair.
Quem decide o destino da mudança?
Em 1789, os franceses começaram a desmantelar uma ordem fundada em privilégios de nascimento. A Revolução inscreveu a liberdade e a igualdade no horizonte político do mundo, mas atravessou também o Terror de 1793-1794, quando a defesa da República se converteu em justificativa para perseguir e executar seus supostos inimigos. Seria absurdo reduzir a Revolução Francesa à guilhotina. Seria igualmente absurdo apagar a guilhotina para preservar a beleza de seus ideais.
Uma década depois da tomada da Bastilha, o golpe de Napoleão Bonaparte, em novembro de 1799, abriu caminho para uma nova concentração de poder. A sociedade que enfrentara a autoridade monárquica passava a ter seu destino conduzido pelo general que prometia encerrar a instabilidade. A liberdade conquistada não assegurara a liberdade futura.
Nada disso estava previamente escrito. Guerras, conflitos sociais e decisões políticas conduziram o processo por caminhos que poderiam ter sido outros. A experiência ensina justamente isso: a legitimidade de uma revolta não oferece garantia sobre o poder que se constituirá depois dela.
Mais de dois séculos adiante, a Primavera Árabe expôs novamente a distância entre a esperança de uma praça e o futuro de um país. A partir de 2010, desemprego, corrupção, repressão e humilhação cotidiana alimentaram protestos que atravessaram fronteiras. Quem enfrentava aqueles regimes tinha motivos concretos para desejar uma transformação profunda.
No Egito, a queda de Hosni Mubarak abriu uma possibilidade democrática que não se consolidou. Em julho de 2013, os militares destituíram o presidente eleito Mohamed Morsi. Sob Abdel Fattah al-Sisi, a promessa de estabilidade veio acompanhada de graves violações de direitos humanos. A força recebida por parte da população como solução passou a restringir a possibilidade de a própria população contestá-la.
Desejar liberdade e construir instituições capazes de protegê-la eram tarefas diferentes. Entre uma e outra, organizações mais fortes, interesses estabelecidos e aparelhos de repressão disputaram o destino da mobilização.
O Brasil conhece também uma experiência mais fecunda. As Diretas Já reuniram multidões em torno de uma exigência democrática: devolver aos cidadãos a escolha do presidente da República. A emenda Dante de Oliveira foi rejeitada em abril de 1984, e o voto direto presidencial só voltaria em 1989. Mesmo derrotado em seu objetivo imediato, o movimento contribuiu para a transição que encerrou a ditadura.
Sua força estava na direção da mudança pretendida. O cidadão queria recuperar um instrumento com o qual poderia escolher um governante e, depois, substituí-lo. A mobilização procurava ampliar sua participação nas decisões do país.
Esses episódios não são equivalentes. O Brasil de hoje não repete a França revolucionária nem o Egito da Primavera Árabe. Eles ajudam, porém, a reconhecer um problema recorrente: a distância entre aquilo que mobiliza uma sociedade e aquilo que o poder resultante faz com sua mobilização.
A origem de um movimento também não resolve essa questão. Uma insatisfação pode nascer da experiência cotidiana e ser posteriormente organizada, ampliada ou conduzida por forças com objetivos próprios. Espontaneidade e direção política frequentemente se encontram no mesmo processo.
A indignação pertence a quem a sente. Seu destino depende também de quem consegue organizá-la.
O PT diante do país que ajudou a transformar
É sob essa luz que volto ao conselho de Richers e à trajetória do PT. O PT ajudou milhões de brasileiros a mudar de vida, mas não compreendeu suficientemente como essa mudança transformaria também o que eles esperavam da política.
A pessoa que melhora de vida não assume uma dívida eleitoral perpétua com quem contribuiu para essa melhora. Amplia suas necessidades, compara possibilidades, deseja preservar o que conquistou e alcançar o que ainda lhe falta. Quem entra na universidade passa a se preocupar com o emprego que encontrará ao sair. Quem compra uma motocicleta continua precisando de segurança nas ruas. Quem aumenta sua renda pode descobrir que o posto de saúde, a escola e o transporte não acompanharam suas expectativas.
Uma política bem-sucedida pode criar as condições para que seu beneficiário se torne mais exigente com o governo que a realizou. Quando essa exigência é tratada como ingratidão, o partido revela uma dificuldade de compreender o próprio êxito.
Minha leitura é que o PT não se renovou na medida das mudanças que ajudou a produzir. Em momentos decisivos, confiou mais na memória de suas realizações do que na interpretação das inquietações seguintes. Um partido pode continuar contando a história de sua chegada enquanto a sociedade já procura saber como prosseguir.
O desencontro aparece quando a experiência concreta do cidadão não encontra resposta no repertório do partido. A conquista de ontem continua importante, mas já não responde sozinha à insegurança de hoje. Quem conseguiu estudar precisa encontrar trabalho; quem aumentou sua renda quer serviços públicos melhores; quem vive com medo espera uma política de segurança em que possa confiar. Renovar-se exige transformar essas demandas em prioridades, propostas e lideranças capazes de representá-las.
Junho de 2013 tornou esse desencontro visível. Os protestos começaram com a contestação ao aumento das tarifas de transporte e, depois da repressão policial e da expansão das manifestações, passaram a reunir demandas diversas: serviços públicos, gastos com grandes eventos, corrupção, representação política. Não havia uma única voz nas ruas, nem um destino obrigatório para aquela mobilização.
Seria uma simplificação transformar cada manifestante de 2013 em precursor do bolsonarismo. Também seria cômodo descrever toda a insatisfação como fabricação de adversários. Havia problemas reais e expectativas frustradas. A disputa política consistia em explicar aquelas experiências e oferecer uma direção para enfrentá-las.
A extrema direita encontrou oportunidades nesse terreno. Sua ascensão pode ser compreendida, em parte, pela capacidade de transformar inseguranças diversas numa narrativa de inimigos e salvação. A promessa de força parecia oferecer uma resposta imediata onde a política democrática soava distante, burocrática ou incapaz de agir.
O trabalhador que teme perder o emprego, a mulher que receia voltar sozinha para casa e o jovem que não enxerga futuro precisam reconhecer suas vidas na linguagem da política. Não basta lhes apresentar indicadores favoráveis se sua experiência cotidiana continua marcada pelo medo.
Richers aconselhava preparar-se durante a descida. Para um partido, isso significa escutar antes que o afastamento se transforme em ruptura, formar lideranças, reconhecer erros e perceber necessidades que já não cabem no repertório das antigas vitórias.
Nenhum partido tem direito adquirido ao futuro.
O voto de protesto também entrega poder
A responsabilidade do PT por suas insuficiências, entretanto, não absolve o projeto que pretende substituí-lo. É nesse ponto que o desejo de mudança precisa enfrentar sua pergunta mais difícil: mudar para quê?
Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro seria uma alternância produzida pelo voto. Isso lhe daria legitimidade eleitoral, mas não dispensaria o exame de suas propostas e compromissos. O eleitor pode rejeitar o PT por razões econômicas, políticas ou morais. O risco começa quando essa rejeição dispensa qualquer exigência feita à alternativa.
Há escolhas concretas a examinar. O plano de Flávio propõe restringir quem pode apresentar determinadas ações de controle constitucional ao STF. O acesso direto a esses instrumentos já é reservado a autoridades e entidades previstas na Constituição. Reduzir esse conjunto pode diminuir os caminhos institucionais para questionar leis e atos do poder público.
Também defende limitar decisões individuais de ministros. São propostas distintas, que precisam ser julgadas por seus efeitos: aperfeiçoar o funcionamento de um tribunal é uma discussão legítima; reduzir os caminhos pelos quais a sociedade pode questionar o poder exige especial cuidado.
Uma maioria parlamentar também pode errar, favorecer interesses particulares ou atingir direitos. Quem restringe os meios de contestá-la precisa explicar como esses direitos continuarão protegidos. A insatisfação com decisões judiciais não torna dispensável o controle constitucional do poder político.
Na segurança, o candidato propõe classificar facções como narcoterroristas e ampliar a estrutura prisional. O crime organizado exige uma resposta firme, mas o eleitor precisa conhecer o conteúdo dessa resposta: quais instrumentos adicionais serão empregados, sob quais controles e com que resultados esperados? Uma nova classificação e mais prisões, por si sós, não demonstram como serão desarticuladas as redes financeiras e de corrupção que sustentam as organizações criminosas.
A promessa de dureza é politicamente atraente porque o medo tem urgência. Justamente por isso, precisa ser examinada com rigor. Uma sociedade pode apoiar poderes excepcionais imaginando que serão usados apenas contra aqueles que considera perigosos. Depois de concedidos, os limites de seu uso passam a importar para todos.
O voto destinado a castigar um partido entrega ao vencedor capacidade de tomar decisões sobre a vida inteira do país. O emprego, os direitos e a liberdade de quem votou contra o governo continuarão dependendo dessas decisões. A raiva que ajudou a eleger o sucessor não protegerá ninguém de seus erros.
Quando a conta chega ao país
Na situação brasileira, a soberania torna essa escolha ainda mais séria. Em julho de 2025, Donald Trump anunciou tarifas contra produtos brasileiros e vinculou expressamente sua iniciativa à defesa de Jair Bolsonaro. A ordem executiva publicada naquele mês incluiu o tratamento judicial dado ao ex-presidente entre suas justificativas para impor uma tarifa adicional de 40% sobre determinados produtos do Brasil. Uma disputa interna brasileira foi utilizada por outra potência para fundamentar uma pressão econômica sobre o país.
O precedente exige uma posição inequívoca: devemos aceitar que um governo estrangeiro use seu poder comercial para influenciar o funcionamento de nossas instituições?
A questão alcança diretamente Flávio. Em março de 2026, num discurso na conferência conservadora CPAC, nos Estados Unidos, ele pediu pressão diplomática americana relacionada às eleições brasileiras, apresentada como meio de assegurar “um pleito livre e justo”. O pedido ocorreu depois de Washington ter utilizado medidas econômicas para pressionar o Brasil em defesa de seu pai.
É uma escolha política que precisa ser confrontada com outra: em seu plano de governo, Flávio afirma que negociará com diferentes países segundo os interesses do produtor e do trabalhador brasileiro, independentemente da orientação de seus governos. Essa diretriz é adequada. Sua credibilidade dependerá da disposição de contrariar aliados estrangeiros quando os interesses deles colidirem com os nossos.
Não é necessário presumir acordos secretos nem anunciar como certeza uma futura submissão. Os atos públicos já justificam a pergunta: qual será a autonomia de um governo que buscou apoio político de quem pressionou economicamente o Brasil?
Os Estados Unidos têm interesses próprios, como todos os países. Um presidente brasileiro precisa negociar, cooperar quando houver benefício recíproco e divergir quando necessário. A capacidade de divergir faz parte do cargo.
Uma potência não perde seus interesses quando seu aliado chega ao poder. Pode continuar desejando vantagens comerciais, acesso a recursos estratégicos ou decisões regulatórias favoráveis às suas empresas. A proximidade política não elimina a negociação; pode torná-la mais difícil se o governante se sentir obrigado a corresponder ao apoio recebido.
Por isso, a soberania aparece em situações muito concretas: escolher parceiros comerciais, estabelecer regras para empresas que operam aqui, decidir como aproveitar recursos naturais e aplicar nossas leis sem aceitar punição econômica por desagradar a outro governo.
Exportadores e trabalhadores não devem arcar com o custo de pressões exercidas em benefício de uma família política. Tampouco o futuro do país pode se tornar moeda de reconhecimento por favores recebidos.
O tiro no pé acontece quando o cidadão, querendo punir seus governantes, ajuda a reduzir a capacidade de seu próprio país decidir.
Um Itamaraty para servir a quem?
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, publicada em 30 de setembro, a campanha de Flávio Bolsonaro trabalha com uma reforma do Itamaraty inspirada na reestruturação conduzida por Marco Rubio no Departamento de Estado americano.
Marcos Degaut, ligado a Eduardo Bolsonaro e responsável por apresentar propostas da campanha em reuniões com diplomatas, descreveu mudanças nas carreiras, nas promoções e na avaliação de resultados comerciais.
O Itamaraty pode e deve ser aperfeiçoado. Cobrar resultados, corrigir distorções e melhorar a atuação diplomática são objetivos legítimos. Mas uma reforma precisa responder primeiro a uma pergunta: que capacidade o Brasil pretende adquirir com ela? A diplomacia brasileira tem de trabalhar para ampliar nossas possibilidades de negociação, inclusive diante de governos com os quais um presidente mantém afinidade política.
Marco Rubio dirige uma instituição encarregada de defender os interesses dos Estados Unidos. O Brasil precisa de uma diplomacia igualmente comprometida com os seus. As duas tarefas podem convergir em muitas circunstâncias; em outras, haverá conflitos comerciais, tecnológicos e estratégicos. É nesses momentos que se mede a autonomia de um governo.
A preocupação ganha substância quando a inspiração administrativa é examinada ao lado de uma escolha política: em março de 2026, na CPAC, Flávio pediu pressão diplomática americana relacionada às eleições brasileiras, apresentada como instrumento para assegurar um pleito livre e justo. Quem solicita essa pressão precisa explicar como preservará, no governo, a independência diante de quem foi chamado a exercê-la.
Nesse contexto, a reforma merece ser examinada também por sua orientação política. A questão é saber se o Itamaraty ganhará capacidade de defender os interesses brasileiros quando eles divergirem dos interesses americanos. A proximidade com Washington só será vantajosa se preservar essa liberdade.
O conselho de Richers era preparar-se para a próxima onda. Para um país, essa preparação exige capacidade de escolher seus próprios caminhos. Modernizar o Itamaraty deveria aumentar a liberdade de decisão do Brasil. Esse é o critério pelo qual a reforma precisa ser julgada.
Antes de subir na próxima onda
O desgaste de um governo pode tornar a novidade atraente antes mesmo de ela revelar seu conteúdo. A experiência histórica recomenda examinar essa atração: quem conduzirá a mudança, com quais poderes, submetido a quais limites?
Isso não torna a permanência de um governo automaticamente desejável. Obriga a comparar alternativas com responsabilidade. O PT precisa responder pelo que não compreendeu, pelo que não corrigiu e pelo futuro que não conseguiu tornar convincente. Sua história não pode funcionar como dispensa de renovação.
O eleitor, por sua vez, precisa saber se a alternativa oferece soluções ou apenas transforma seu descontentamento em autorização para um projeto que ele ainda não examinou. Há mudanças que ampliam a capacidade de uma sociedade corrigir seus rumos. Outras enfraquecem os instrumentos com os quais ela poderá se defender do governante seguinte.
Aos 70 anos, Richers conservava a juventude de quem sabia que ainda precisava aprender. Talvez seja essa a lição que falta aos partidos envelhecidos em suas certezas – e a uma sociedade tentada a entregar seu futuro a quem melhor organiza sua raiva.
Prepare-se para a próxima onda, ele me disse.
Trinta anos depois, acrescento: antes de subir nela, veja para onde ela vai.
(*) DJALBA LIMA é jornalista e editor de Relatos.

Como sempre, abordagem lúcida e com o pé no futuro. Os textos do djalba são uma leitura obrigatória para se compreender o brasil e o.mundo de hoje.
Discordo de você, Djalba. Não responsabilizo o PT pelo descontentamento da população, pela falta de perspectiva dos que continuam na luta, por não propiciar horizontes para quem concluiu universidade e não consegue emprego. Isso tudo é a nova realidade do mundo. O PT produziu extraordinária revolução social, reconhecida pelos maiores governantes do planeta. O que existe agora é uma revolução tecnológica tratorando o mundo, e até essas mudanças referidas por você na atividade diplomática já caíram por terra. Para o Trump, diplomacia agora se faz é pelo Truth Social