Meu Brasil não cabe numa motosserra


DJALBA LIMA

Jornalista e editor de Relatos
55(61)999379799


Milei com sua motosserra, símbolo de sua campanha para cortar gastos na Argentina. É com ele que vamos?

Não quero um Milei brasileiro. Não quero uma motosserra erguida como projeto de país. Nem um um bando de idiotas fazendo arminhas com os dedos. Quero um Brasil que enfrente seus problemas com inteligência, responsabilidade e compromisso com quem vive aqui. Há uma diferença enorme entre reformar o Estado e transformar sua destruição em espetáculo.

Tenho orgulho do meu país. Conheço suas injustiças, suas violências, seus desperdícios. Sei que o Brasil pode ser cruel com os próprios filhos. Meu orgulho não exige que eu feche os olhos para isso. Ao contrário: exige que eu os mantenha abertos.

Amo este país o suficiente para querer mudá-lo.

Quero um Brasil mais inclusivo, mais socialdemocrata, menos desigual. Um país em que o lugar de nascimento não determine até onde alguém poderá chegar. Em que uma criança não precise vencer a fome antes de descobrir seu talento. Em que envelhecer não signifique ter medo de adoecer, de faltar comida ou de se tornar um peso para a família.

É esse o Brasil que me interessa.

Grandeza para quem?

O Brasil é imenso. Tem recursos, capacidade produtiva, diversidade cultural e gente capaz de criar, pesquisar, ensinar e construir. Tem importância suficiente para participar das decisões do mundo e responsabilidade suficiente para não se oferecer como figurante de projetos alheios.

Mas tamanho não basta. A grandeza de um país precisa chegar à vida de sua população.

De pouco adianta celebrar a força da economia se quem trabalha não consegue viver com dignidade. Não me satisfaz um país admirado por suas riquezas e resignado diante da pobreza. Quero que sua importância também possa ser medida pela qualidade de suas escolas, pelo acesso à saúde, pela segurança de suas ruas e pelas oportunidades abertas aos seus jovens.

Combater a desigualdade é uma maneira de realizar o Brasil. Cada pessoa impedida de desenvolver suas capacidades representa uma perda para todos nós.

Quantos cientistas o Brasil perde para a fome? Quantas médicas, professoras, artistas e empreendedores deixam de existir porque alguém precisou abandonar a escola para sobreviver? A desigualdade rouba futuros individuais e empobrece o destino coletivo. Quando uma criança fica para trás, o país deixa pelo caminho uma parte do que poderia ser.

Uma pátria de muitas origens

Meu Brasil é plural. Tem muitos sotaques, muitas crenças, muitas cores e diferentes maneiras de entender a vida. Foi construído por povos indígenas, pela população negra, por migrantes e por gerações de brasileiros que atravessaram o próprio território em busca de trabalho e esperança.

Essa história não foi uma convivência sem conflitos. Houve escravidão, expulsões, racismo, perseguições e portas fechadas. Reconhecer essas feridas faz parte do compromisso de construir um país mais acolhedor.

O Brasil que defendo não exige de ninguém uma origem, uma religião ou uma opinião política para reconhecer seu pertencimento.

Não quero uma pátria em que alguns se atribuam o direito de decidir quem é brasileiro de verdade. A bandeira também é de quem discorda. O país também pertence a quem protesta. A democracia existe justamente para que possamos disputar seus rumos sem expulsar uns aos outros da comunidade nacional.

Meu Brasil é multilateral porque tem interesses próprios num mundo diverso. Precisa conversar, negociar, cooperar e, sobretudo, defender sua soberania. Não aceito que sua política externa se reduza à devoção a um líder estrangeiro.

O que a motosserra não enxerga

A motosserra é um símbolo sedutor para quem deseja soluções instantâneas. Faz barulho, produz imagens fortes e dá ao seu portador a aparência de coragem e de poder.

Governar, porém, exige saber o que se está cortando – e quem sofrerá as consequências.

Quando alguém promete eliminar despesas, quero conhecer os critérios. Se a conta chegar à escola, ao hospital, à aposentadoria ou à assistência de quem não pode trabalhar, haverá pessoas concretas pagando por aquela promessa. Pessoas que raramente aparecem no palco onde se anuncia o sacrifício.

Quero um Estado eficiente, capaz de prestar bons serviços e obrigado a justificar o uso do dinheiro público. Quero desperdícios combatidos, corrupção punida e privilégios revistos. Isso exige trabalho sério, escolhas transparentes e resultados que possam ser avaliados.

A responsabilidade fiscal faz parte dessa tarefa. Deve vir acompanhada de perguntas que não podem ser evitadas: quem contribuirá para o ajuste? Quais privilégios serão enfrentados? Como serão protegidos aqueles que já vivem no limite?

Uma sociedade profundamente desigual não pode cobrar sempre dos mesmos a conta de sua reorganização.

Mudar sem perder o país

Quando digo que meu Brasil não é a Argentina, não diminuo o povo argentino. Nossos vizinhos merecem o mesmo respeito, a mesma dignidade e o mesmo direito de construir seu futuro. O que rejeito é a ideia de importar um personagem, um espetáculo e uma receita como se nossa história pudesse ser governada por imitação.

O Brasil precisa encontrar caminhos à altura de sua complexidade.

Minha escolha é por uma socialdemocracia que combine liberdade, iniciativa privada, serviços públicos de qualidade e proteção social. Que permita empreender e assegure condições dignas a quem trabalha. Que enfrente a pobreza e amplie as oportunidades. Que reconheça no orçamento tanto a necessidade de equilíbrio quanto as prioridades de uma sociedade.

Tenho orgulho do Brasil que acolhe, que cria, que conversa com o mundo e que insiste em conviver apesar de suas diferenças. Quero que essa vocação alcance quem ainda está excluído dela.

Meu Brasil precisa mudar. Quero participar dessa mudança, cobrar seus resultados e defender seu sentido. Quero ter orgulho de um país cuja grandeza caiba na vida de todos os brasileiros. É esse o Brasil que defendo. E nenhuma motosserra pode construí-lo..

djalba.lima@gmail.com Escrito por:

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