Você é comunista?

Por DJALBA LIMA (*)

Em algum momento, talvez durante uma conversa entre amigos, alguém defende uma escola pública de qualidade, um sistema universal de saúde, uma tributação menos injusta ou uma distribuição de renda capaz de permitir que os pobres também participem do mercado de consumo. A resposta costuma chegar antes mesmo que o argumento seja concluído:

— Você é comunista?

A pergunta não procura compreender. Procura encerrar a conversa. No Brasil, “comunista” deixou de designar uma corrente política definida, com uma história, uma doutrina e um projeto de organização econômica. Transformou-se num rótulo lançado contra qualquer pessoa que questione a naturalidade da desigualdade. Se alguém propõe limitar privilégios, é comunista. Se defende a reforma agrária, é comunista. Se considera obsceno que uma criança tenha seu destino determinado pelo CEP em que nasceu ou mora, é comunista. Até o Estado de bem-estar social – construção histórica de numerosas democracias capitalistas – pode ser apresentado como uma espécie de porta de entrada para a coletivização da propriedade. “Comunista!” “Você nunca me enganou!”

Essa confusão não é inocente. Ela protege interesses concretos. Ao transformar qualquer política redistributiva em ameaça ideológica, evita-se discutir a pergunta que realmente importa: quanto de desigualdade uma sociedade consegue suportar antes que a economia, a democracia e a própria ideia de mérito comecem a desmoronar?

O capitalismo não depende apenas de capitalistas. Depende de consumidores, trabalhadores qualificados, empreendedores, instituições confiáveis e pessoas que acreditem que seu esforço pode produzir alguma recompensa. Uma economia na qual poucos conseguem comprar acaba vendendo pouco. Uma sociedade que desperdiça a inteligência de milhões de crianças porque elas nasceram pobres reduz sua própria capacidade de inovar, produzir e crescer. E um país no qual o lugar de cada indivíduo é definido menos por seu talento do que pelo patrimônio dos pais não pratica verdadeiramente a meritocracia: organiza uma corrida em que alguns largam poucos metros antes da chegada, enquanto outros começam amarrados ao ponto de partida.

Distribuir melhor a renda, portanto, não significa necessariamente abolir o capitalismo. Em determinadas circunstâncias, significa criar as condições para que ele funcione, prospere e sobreviva.

A história oferece exemplos eloquentes. Em 1883, o chanceler alemão Otto von Bismarck criou o primeiro sistema nacional de seguro-saúde obrigatório do mundo. Bismarck não era socialista. Era um conservador prussiano, monarquista, nacionalista e adversário feroz da social-democracia. Percebeu, porém, que a industrialização estava produzindo uma massa de trabalhadores submetidos a doenças, acidentes, velhice e insegurança. O abandono social alimentava precisamente os movimentos que ameaçavam a ordem que ele desejava preservar. A proteção social surgia, assim, não como negação do sistema, mas como mecanismo de estabilização.

Meio século depois, os Estados Unidos atravessaram a Grande Depressão. Bancos quebravam, empresas fechavam, o desemprego se espalhava e milhões de famílias descobriam que a prosperidade podia desaparecer numa manhã. Franklin Roosevelt respondeu com o New Deal. Em 1935, a Lei da Seguridade Social instituiu benefícios para idosos, seguro-desemprego e programas de assistência. Naquele tempo, também houve quem enxergasse nessas medidas uma aproximação com o socialismo. O que Roosevelt fazia, entretanto, era reconstruir as bases sociais e políticas de uma economia capitalista devastada pela crise.

O mecanismo se repetiria na Europa depois da Segunda Guerra Mundial. Diante de cidades destruídas, famílias desalojadas e sociedades traumatizadas, as democracias ocidentais criaram sistemas públicos de saúde, educação, previdência e proteção ao desemprego. O Estado de bem-estar social não nasceu nas repúblicas soviéticas. Floresceu sobretudo nas economias de mercado da Europa Ocidental, em parte porque suas elites compreenderam que a democracia precisava oferecer aos cidadãos mais do que o direito de votar: precisava protegê-los contra o medo permanente da doença, da fome, do desemprego e da velhice desamparada.

O welfare state não elimina o mercado. Estabelece os limites dentro dos quais ele pode funcionar sem triturar a sociedade que o sustenta. Não promete que todos terão o mesmo resultado, mas procura impedir que o nascimento determine antecipadamente quem ocupará o último andar e quem jamais sairá do porão.

Os países nórdicos representam a demonstração mais clara desse princípio. Noruega, Dinamarca, Suécia e Finlândia não aboliram a propriedade privada, o lucro, o investimento nem a livre iniciativa. Possuem empresas multinacionais, mercados dinâmicos, inovação tecnológica, alta produtividade e ambientes institucionais favoráveis aos negócios. O que fizeram foi combinar economia de mercado com impostos elevados, serviços públicos abrangentes, educação de qualidade, proteção social e forte negociação entre trabalhadores, empresas e Estado.

A Noruega possui ainda a vantagem extraordinária do petróleo e de um gigantesco fundo soberano. Mas o petróleo, isoladamente, não explica seu sucesso. Muitos países ricos em recursos naturais converteram essa riqueza em corrupção, autoritarismo e desperdício. A diferença norueguesa está na qualidade das instituições, no gerenciamento responsável da riqueza nacional, no investimento em capital humano e na disposição de transformar um recurso pertencente ao país em patrimônio das gerações futuras. Em sua avaliação de 2026, a OCDE descreve a Noruega como uma das economias mais prósperas e igualitárias do mundo, sustentada por boa gestão macroeconômica e força de trabalho altamente qualificada. Sua competitividade, acrescenta a organização, é favorecida por instituições sólidas e por um sistema responsável de negociação salarial com amplo apoio social.

A lição é desconfortável para o debate brasileiro: a Noruega não é rica apesar de possuir um Estado de bem-estar social. Sua prosperidade também depende das instituições, da confiança e da qualificação humana que esse modelo ajudou a construir.

O Brasil fez uma escolha histórica diferente. Durante mais de três séculos, organizou sua economia em torno da grande propriedade, do trabalho escravizado e da concentração do poder político. A desigualdade não foi um acidente ocorrido no caminho. Foi um dos instrumentos utilizados para construir o próprio caminho.

Quando a escravidão terminou, em 1888, o país libertou juridicamente os escravizados, mas não lhes ofereceu terras, educação, crédito, moradia nem mecanismos efetivos de incorporação econômica. A porta da senzala foi aberta, mas nenhuma escada foi colocada diante dela. Milhões de pessoas foram lançadas à liberdade formal sem receber os instrumentos materiais mínimos para exercê-la.

Ao mesmo tempo, a Lei de Terras de 1850 já havia estabelecido a compra como principal forma de acesso legal às terras públicas, fechando uma passagem que poderia permitir aos pobres, aos libertos e aos imigrantes sem recursos transformar trabalho em propriedade. O latifúndio atravessou a Abolição, a República, a industrialização e a modernização agrícola. Mudaram os regimes políticos; a concentração permaneceu como uma espécie de coluna vertebral invisível da sociedade.

Os números revelam a persistência dessa estrutura. De acordo com o Censo Agropecuário de 2017, os estabelecimentos com mil hectares ou mais representavam apenas 1% do total, mas concentravam 47,6% de toda a área ocupada pelos estabelecimentos rurais brasileiros. Em 2006, detinham 45%. A concentração, portanto, não apenas permanecera elevada: havia aumentado.

É nesse ponto que o rótulo volta a cumprir sua função. A simples menção à reforma agrária é apresentada como ataque à propriedade privada. Mas existe outra maneira de formular a questão: quanto mais pessoas possuírem terras, mais ampla será a base social interessada em proteger o direito de propriedade.

A propriedade concentrada pode parecer poderosa, mas é politicamente estreita. Quando terras, imóveis, empresas e investimentos pertencem a uma pequena parcela da população, a defesa da propriedade corre o risco de ser percebida como a defesa dos privilégios dessa minoria. Quando milhões de famílias possuem sua casa, sua terra, seu pequeno negócio, sua poupança e alguma perspectiva de futuro, a segurança jurídica deixa de ser interesse exclusivo do andar de cima. Torna-se patrimônio coletivo.

Isso não significa romantizar a reforma agrária. Entregar um pedaço de terra e abandonar uma família sem crédito, assistência técnica, estradas, energia, armazenamento e acesso ao mercado pode apenas distribuir pobreza. A democratização da terra precisa vir acompanhada das condições que a transformem em produção, renda e autonomia. Mas, quando bem conduzida, ela não destrói a propriedade: cria proprietários. Não elimina o mercado: incorpora ao mercado pessoas que antes permaneciam à sua margem.

O mesmo raciocínio vale para a distribuição de renda. Quando uma família pobre recebe recursos, não os envia a paraísos fiscais nem os conserva em aplicações no exterior. Compra alimentos, roupas, medicamentos, material escolar, móveis e serviços. O dinheiro circula pelo comércio, chega às pequenas empresas, sustenta empregos e retorna parcialmente ao Estado na forma de impostos. A política social possui uma dimensão ética evidente, mas também produz efeitos econômicos. Ela pode transformar necessidade reprimida em demanda, demanda em produção e produção em trabalho.

Evidentemente, nenhuma transferência de renda substitui crescimento econômico, produtividade, boa educação, infraestrutura ou responsabilidade fiscal. Tampouco todo gasto público é eficiente. Estados podem desperdiçar recursos, capturar políticas sociais para fins eleitorais e sustentar privilégios sob o nome de proteção. O debate sério não está entre o Estado absoluto e o mercado sem limites. Está em saber quais políticas ampliam capacidades, reduzem riscos e permitem que mais pessoas participem produtivamente da economia.

No Brasil, porém, antes que esse debate possa amadurecer, surge novamente a acusação: comunismo.

O mais irônico é que aqueles que invocam a meritocracia deveriam ser os primeiros interessados em reduzir a desigualdade de oportunidades. Não existe mérito verificável quando o resultado depende decisivamente do ponto de partida. Uma criança alimentada, cercada de livros, matriculada numa boa escola e protegida por uma família com renda estável não participa da mesma competição que outra exposta à fome, à violência, ao transporte precário e a uma escola sem recursos. Dizer que ambas vencerão de acordo com o esforço individual é como colocar dois corredores numa pista, dar a um deles tênis e treinamento, prender pesos aos pés do outro e depois atribuir o resultado exclusivamente ao talento.

A OCDE encontrou uma expressão dolorosamente precisa para esse fenômeno: o elevador social está quebrado. Em seu relatório de 2018, a organização estimou que, mantido o padrão de mobilidade observado, seriam necessárias cerca de quatro a cinco gerações para que uma criança nascida entre os 10% mais pobres alcançasse a renda média nos países analisados. Em sociedades mais desiguais e menos móveis, como Brasil, Colômbia e África do Sul, seriam necessárias nove gerações ou mais.

Nove gerações. Não se trata mais da história de uma pessoa tentando melhorar de vida. Trata-se de uma espera que atravessa pais, filhos, netos, bisnetos e descendentes que sequer possuem nome. Um brasileiro pode nascer pobre, trabalhar por toda a vida e morrer deixando aos filhos não a chegada ao andar seguinte, mas apenas o direito de continuar esperando.

O mesmo estudo apresenta outra medida reveladora. Se um pai brasileiro ganha o dobro de outro, a diferença esperada entre os rendimentos dos filhos ainda será de aproximadamente 70%. Na Finlândia, seria de cerca de 20%. Isso significa que o Brasil não transmite apenas patrimônio entre gerações. Transmite posição social. A riqueza aprende a se reproduzir; a pobreza também.

Os dados mais recentes não permitem conforto. O estudo da OCDE sobre mobilidade e desigualdade na América Latina, publicado em 2025, registra que Brasil, Colômbia e Panamá estavam, nos dados de 2021, entre os países mais desiguais da região. Na educação, a herança social aparece muito antes da primeira entrevista de emprego: no Brasil, a diferença de desempenho em matemática entre os 10% de estudantes socialmente mais favorecidos e os 10% mais desfavorecidos chegou a 137 pontos, a maior entre os países latino-americanos examinados.

O país desperdiça talentos em escala industrial. Cientistas que jamais chegarão a um laboratório, escritores que não encontrarão livros, engenheiros que abandonarão a escola, empreendedores que nunca obterão crédito, músicos cuja sobrevivência não lhes permitirá descobrir a própria música. A desigualdade não retira apenas alguma coisa dos pobres. Retira do país tudo aquilo que essas pessoas poderiam ter criado.

É por isso que a desigualdade extrema representa também um tiro no pé das elites. Ao bloquear a ascensão social, elas reduzem o mercado consumidor do qual dependem. Ao tolerar uma educação pública precária, diminuem a produtividade das empresas. Ao impedir que milhões acumulem patrimônio, enfraquecem a base social de defesa da propriedade. Ao concentrar oportunidades em círculos familiares, substituem a seleção dos mais capazes pela reprodução dos mais bem relacionados. Ao abandonar os serviços públicos, obrigam-se a pagar separadamente por escolas, hospitais, transporte, lazer e segurança. Constroem muros cada vez mais altos e depois descobrem que também se tornaram prisioneiras.

Essa elite é canhestra não necessariamente porque seja incapaz de enriquecer. Muitas vezes demonstra enorme habilidade para proteger negócios, influenciar decisões e capturar parcelas do Estado. É canhestra porque confunde a prosperidade de um grupo com o desenvolvimento de uma nação. Sabe acumular riqueza, mas não sabe construir um país no qual essa riqueza possa existir com segurança, legitimidade e horizonte histórico.

Sua visão é extrativa. O país aparece como território do qual se retiram rendas, benefícios fiscais, juros, recursos naturais, terras valorizadas e contratos públicos. Pouco importa se, ao redor das ilhas de prosperidade, cresçam oceanos de precariedade. O problema é que nenhuma ilha permanece isolada para sempre. A baixa produtividade chega às empresas; a violência atravessa os muros; a instabilidade contamina os investimentos; a desconfiança destrói a cooperação; o ressentimento encontra expressão política.

As democracias mais estáveis não são necessariamente aquelas em que todos possuem a mesma renda. São aquelas em que as diferenças não parecem eternas, em que os cidadãos acreditam que as regras são razoavelmente justas e em que o fracasso dos pais não se transforma em destino inevitável dos filhos. A mobilidade social funciona como promessa de legitimidade. Quando o elevador sobe, mesmo lentamente, o edifício conserva algum sentido. Quando permanece quebrado durante nove gerações, os moradores do porão deixam de acreditar que o prédio também lhes pertence.

Reduzir desigualdades não exige hostilidade à riqueza honesta, ao lucro produtivo ou ao empreendedorismo. Ao contrário: significa permitir que mais pessoas produzam, empreendam, consumam e acumulem patrimônio. O objetivo não deveria ser impedir que alguém chegue ao último andar. Deveria ser garantir que as escadas não sejam retiradas depois que alguns poucos chegaram lá.

Talvez seja essa a pergunta que o Brasil ainda não conseguiu formular adequadamente. Não se trata de escolher entre capitalismo e comunismo sempre que alguém propõe educação pública, saúde universal, tributação progressiva, proteção social ou democratização da propriedade. Trata-se de escolher entre um capitalismo dinâmico, capaz de incorporar pessoas, e um capitalismo de castas, que protege heranças, socializa prejuízos e chama privilégio de mérito.

A elite brasileira acredita que distribuir renda significa apenas repartir a riqueza já existente. Não percebe que distribuir oportunidades permite produzir muito mais riqueza. Imagina que defender seus privilégios equivale a proteger o capitalismo, quando talvez esteja fazendo exatamente o contrário: retirando do sistema os consumidores, os talentos, os proprietários e a legitimidade de que ele precisa para sobreviver.

No Brasil, o medo do comunismo tornou-se, muitas vezes, o nome dado ao medo da igualdade. Mas uma sociedade na qual milhões tenham renda, educação, terra, moradia e patrimônio não será necessariamente menos capitalista. Será apenas menos feudal.

Talvez a resposta à pergunta do início seja, portanto, outra pergunta:

— Você é comunista?

— Não. Quero apenas saber por que, no capitalismo brasileiro, tão poucos receberam a chave do elevador.

(*) DJALBA LIMA é jornalista e editor de Relatos.

djalba.lima@gmail.com Escrito por:

3 Comentários

  1. julho 22, 2026
    Responder

    Amigo, eis aqui uma bela aula de sociologia. A clareza do texto é sua marca!!

  2. Teresa Cardoso
    julho 23, 2026
    Responder

    Alguém já disse que há uma hierarquização na cabeça do rico brasileiro que pereniza a desigualdade nacional. A elite não percebe que trabalhar pela igualdade entre todos os habitantes impulsiona o avanço de todos. E, como você bem observa em seu texto, distribuir oportunidades permite produzir muito mais riqueza. Ao defender seus privilégios, os donos do dinheiro aqui trabalham exatamente pelo retrocesso, retirando do país os meios de crescer como nação.

  3. DOURIVAN LIMA
    julho 23, 2026
    Responder

    Mais um ótimo texto, Djalba.

    O nosso caso, em particular, merece ser arrematado com a frase de Sérgio Buarque de Holanda: “Nós não temos conservadores no Brasil. Nós temos gente muito atrasada.”

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