Antes dos tanques, vieram as pressões, o dinheiro clandestino e os planos secretos. Documentos revelam como Washington ajudou a preparar o caminho para 1964.
Por DJALBA LIMA (*)

Há momentos em que os documentos antigos deixam de pertencer apenas ao passado. Durante décadas, eles permanecem em caixas de arquivo, bibliotecas presidenciais e depósitos de governos. Envelhecem em silêncio. O papel amarelece, os personagens morrem, os carimbos perdem a autoridade. Então, subitamente, alguma coisa acontece no presente – uma ameaça, uma tarifa usada como instrumento de pressão, uma acusação contra instituições nacionais, uma tentativa de interferir nas escolhas de outro país – e aquelas páginas voltam a respirar.
É o que acontece agora.
Brasil e Estados Unidos atravessam um período de crescente hostilidade. Divergências comerciais misturam-se a conflitos políticos. Decisões de autoridades brasileiras são julgadas em Washington como se estivessem sujeitas à revisão de um poder estrangeiro. Tarifas deixam de ser apenas instrumentos econômicos e passam a carregar recados sobre eleições, tribunais, empresas de tecnologia e alinhamentos internacionais. Em nome da liberdade, da segurança ou da defesa de interesses norte-americanos, a soberania brasileira volta a ser tratada como matéria sobre a qual outro governo acredita ter algo a ordenar.
Não estamos em 1964. Não há uma Guerra Fria dividindo o planeta entre Washington e Moscou. Não há tropas brasileiras deixando os quartéis. Não há, até onde a documentação permite afirmar, submarinos procurando praias isoladas para desembarcar armas durante a noite. E qualquer comparação que ignore essas diferenças reduziria a História a um truque de retórica.
Mas a História não precisa repetir os acontecimentos para repetir seus métodos. Às vezes, ela retorna na linguagem. Um país soberano é descrito como ameaça. Um governo estrangeiro se atribui o direito de julgar quais forças políticas são legítimas. Pressões econômicas são apresentadas como defesa da liberdade. Interesses privados vestem a roupa dos valores universais. A interferência recebe nomes respeitáveis: proteção da democracia, combate ao extremismo, defesa das empresas, preservação da estabilidade.
Foi também assim em 1964.
Durante muito tempo, contou-se o golpe brasileiro como uma história restrita aos quartéis: generais conspiraram, tanques deixaram Juiz de Fora, João Goulart caiu e os militares tomaram o poder. Essa narrativa contém fatos verdadeiros, mas deixa fora da fotografia uma presença decisiva.
Os Estados Unidos não foram surpreendidos pela queda de Goulart. Não permaneceram à distância, aguardando para reconhecer quem vencesse. Washington acompanhou, estimulou e ajudou a preparar o desfecho.
Quase dois anos antes de os tanques entrarem na estrada, John Kennedy já perguntava aos assessores que ligação seu governo mantinha com os militares brasileiros. A Casa Branca discutiu maneiras de mudar a orientação política do Brasil e examinou formalmente a possibilidade de colaborar com os adversários de Goulart para derrubá-lo. A embaixada manteve contatos com conspiradores, apoiou clandestinamente forças de oposição, atuou junto a sindicatos, estudantes, empresários, religiosos e militares e utilizou a ajuda econômica como instrumento de pressão.
Quando o golpe finalmente começou, Washington estava preparado.
Lincoln Gordon, embaixador dos Estados Unidos, pediu armas de origem não norte-americana para os partidários de Castello Branco. Sugeriu que fossem transportadas por um submarino sem identificação e desembarcadas à noite em praias ao sul de Santos. Solicitou gasolina, combustível de aviação e óleo para as forças rebeldes. Recomendou a presença de uma força naval e a preparação para uma intervenção aberta caso a resistência ao golpe se prolongasse.
Lyndon Johnson autorizou que sua equipe tomasse todas as medidas necessárias.
Navios começaram a mover-se. Petróleo e combustível foram mobilizados. Nos Estados Unidos, reuniram-se 110 toneladas de munição e outros equipamentos para uma possível ponte aérea. Um porta-aviões, destróieres e navios de apoio foram colocados em direção ao Atlântico Sul.
As armas não precisaram ser desembarcadas. Os golpistas brasileiros venceram depressa.
Este diário contará como isso aconteceu.
Não será apenas uma narrativa sobre generais. Será também uma viagem pelos bastidores da diplomacia norte-americana: reuniões secretas, gravações presidenciais, telegramas cifrados, operações clandestinas, pressões econômicas, campanhas de propaganda e planos militares. Veremos homens discutirem a democracia brasileira a milhares de quilômetros do Brasil e decidirem quais brasileiros mereciam apoio, quais deveriam ser enfraquecidos e que governo seria aceitável depois da queda de Goulart.
Mas este texto não absolverá os agentes internos.
Foram brasileiros que conspiraram, financiaram organizações, espalharam o medo, convocaram manifestações, romperam juramentos, movimentaram tropas e declararam vaga uma Presidência cujo titular ainda se encontrava em território nacional. A participação dos Estados Unidos não transforma os golpistas brasileiros em marionetes. Revela algo mais perturbador: setores civis e militares do país aceitaram associar seus projetos de poder aos interesses estratégicos de uma potência estrangeira.
A cada capítulo, seguiremos uma data.
O leitor verá o golpe aproximar-se como seus contemporâneos não puderam vê-lo: sabendo o que era dito nas praças e, ao mesmo tempo, o que se discutia a portas fechadas; ouvindo o discurso público em defesa da democracia e lendo o telegrama secreto que preparava armas contra ela.
Começaremos em 1962, quando Kennedy recebeu Goulart em Washington com todas as honras reservadas a um chefe de Estado. As fotografias mostram dois presidentes sorrindo. Poucos meses depois, as gravações do Salão Oval revelariam a pergunta que não apareceu diante das câmeras:
Que ligação os Estados Unidos mantinham com os militares brasileiros?
A partir daí, o relógio começará a correr.
Publicar este diário agora não significa afirmar que o Brasil de hoje caminha inevitavelmente para outro 1964. A História não é uma profecia. Seus sinais não anunciam destinos; revelam mecanismos. Servem para que uma sociedade reconheça determinadas engrenagens antes que elas voltem a adquirir movimento.
Talvez seja essa a utilidade mais profunda dos documentos: mostrar que as grandes conspirações raramente começam com homens armados arrombando uma porta.
Começam antes. Numa reunião cordial. Num relatório econômico. Numa campanha de propaganda. Numa tarifa apresentada como correção. Numa potência convencida de que seus interesses lhe concedem autoridade sobre o destino de outro país.
Em abril de 1962, as câmeras registraram João Goulart e John Kennedy sorrindo no Salão Oval. O golpe ainda não aparecia na fotografia. Mas já procurava um lugar para entrar.
LEIA A PRIMEIRA PARTE DO DIÁRIO DE UM GOLPE.
(*) DJALBA LIMA é jornalista e editor de Relatos.

Nesse texto, você observa que o Brasil de hoje não caminha para outro golpe de 64, mas a História antecipa mecanismos para que a sociedade identifique as engrenagens do perigo antes que elas entrem em movimento.
Esse é um valioso alerta no momento em que as mentes que governam a maior potência do mundo continuam no mesmo entendimento de que a América do Sul deve limitar-se à condição de protetorado a ajudar no crescimento econômico de uma nação em pleno declínio.
Esses documentos em suas mãos renderão valiosos textos, Djalba, e têm muito a nos ensinar.