Houve um tempo em que as famílias discutiam política à mesa. Hoje, em muitas delas, é a política que decide quem ainda pode sentar-se à mesa.
Por DJALBA LIMA (*)
No país que eu amava, as reuniões de família também tinham política. Ela aparecia entre a travessa de arroz e a sobremesa, misturada às notícias da semana, às reclamações sobre o governo e aos prognósticos eleitorais. Um defendia Lula. Outro preferia Fernando Henrique. Havia quem desconfiasse dos dois, e quem resolvesse tudo com uma piada. As vozes podiam subir um pouco. Alguém batia a mão na mesa. Outro dizia que o cunhado não entendia nada de economia. Depois vinha o café. E a família continuava sendo família.
Não me lembro de ninguém abandonar a mesa porque o outro votava no PT ou no PSDB. Talvez a discussão deixasse alguma irritação no ar, mas não transformava o primo em traidor da pátria, a irmã em inimiga de Deus ou o tio em cúmplice de uma conspiração internacional. Quando a noite terminava, recolhiam-se os pratos, guardavam-se as divergências e marcava-se o próximo encontro.
Não era um país sem conflitos. Seria falso idealizá-lo. O Brasil nunca foi uma sala de visitas: nasceu sob a violência da escravidão, atravessou ditaduras, perseguiu adversários políticos e conservou desigualdades capazes de separar pessoas que moravam na mesma cidade como se habitassem continentes diferentes. Mesmo na democracia, petistas e tucanos travaram campanhas duras, trocaram acusações e cultivaram hostilidades.
Mas havia, entre grande parte dos brasileiros, uma fronteira que ainda não havia sido completamente derrubada. A política dizia respeito às nossas escolhas; não ocupava toda a nossa identidade. Podíamos discordar de uma ideia sem declarar guerra à pessoa que a defendia.
Sou social-democrata. Convivi com petistas que certamente não me amavam muito – e alguns talvez nem fizessem grande esforço para disfarçar. Mas me respeitavam; eu os respeitava. Discutíamos o papel do Estado, a responsabilidade fiscal, as políticas sociais, os limites do mercado e as imperfeições dos governos. Ninguém precisava examinar a alma do outro antes de ouvir seus argumentos.
Defender o welfare state – saúde pública, educação acessível, proteção social e alguma correção das desigualdades produzidas pelo mercado – não me transformava automaticamente em comunista. Eram ideias presentes nas democracias europeias e até mesmo em setores moderados do capitalismo norte-americano. Podiam ser contestadas, mas não eram tratadas como provas de uma doença moral.
O que aconteceu com aquele país? Ele não desapareceu numa única eleição. Foi se desfazendo lentamente, como uma toalha puxada pelas bordas. Vieram as sucessivas denúncias de corrupção, o desgaste dos partidos, as manifestações de 2013, a Operação Lava Jato, o impeachment de Dilma Rousseff, a recessão, a insegurança e uma crescente descrença nas instituições. O terreno estava coberto de material seco.
As redes sociais fizeram o vento soprar.
O debate público, antes mediado por jornais, partidos, associações e conversas presenciais, passou a caber na tela de um telefone. A complexidade perdeu espaço para a frase curta. A dúvida, para a certeza indignada. A conversa, para o compartilhamento impulsivo. Os algoritmos descobriram que a raiva prende mais a atenção do que a ponderação. E a política aprendeu que o medo mobiliza mais depressa do que a esperança.
Foi nesse ambiente que a extrema direita brasileira encontrou sua linguagem.
Ela não criou sozinha os ressentimentos nacionais, mas soube organizá-los. Reuniu antipetismo, fundamentalismo religioso, nostalgia da ditadura, frustração econômica, culto às armas e desconfiança da imprensa numa narrativa simples: o Brasil estava ameaçado, e somente os “cidadãos de bem” poderiam salvá-lo.
Toda narrativa de salvação precisa de demônios. O professor tornou-se doutrinador. O jornalista, inimigo. O artista, parasita. O defensor dos direitos humanos, cúmplice de criminosos. O ambientalista, obstáculo ao progresso. Quem defendia políticas sociais era comunista; quem criticava a violência policial protegia bandidos; quem discordava do chefe deveria estar contra a pátria.
A palavra “comunista” deixou de designar uma corrente política. Tornou-se uma pedra lançada contra qualquer pessoa que não aceitasse o novo catecismo.
Jair Bolsonaro não inventou o insulto na política brasileira. Fez algo mais profundo: converteu o insulto em método de identificação coletiva. A grosseria passou a ser apresentada como autenticidade. A recusa ao diálogo, como firmeza. A humilhação do adversário, como coragem. Não bastava discordar; era preciso desprezar. Não bastava vencer uma eleição; era necessário desmoralizar o vencido.
Pesquisadores chamam esse fenômeno de polarização afetiva: o adversário deixa de ser apenas alguém cujas ideias rejeitamos e passa a ser alguém de quem não gostamos, em quem não confiamos e com quem preferimos não conviver. Estudos sobre o Brasil identificam o crescimento dessa hostilidade e sua penetração nas relações entre amigos e familiares. A divisão tornou-se especialmente personalista, organizada menos por programas partidários do que pelas identidades construídas em torno de Lula e Bolsonaro.
Nesse processo, o telefone celular ocupou um lugar à mesa. Chegaram aos grupos de família as mensagens anunciando que o comunismo tomaria o país, que igrejas seriam fechadas, que crianças seriam ameaçadas, que urnas haviam sido fraudadas, que vacinas escondiam perigos inconfessáveis. Algumas dessas histórias eram absurdas. Mas não precisavam ser verdadeiras. Precisavam apenas confirmar o medo de quem as recebia.
Quando alguém tentava contestá-las, já não discutia somente uma informação. Parecia atacar a identidade, a fé e o pertencimento de quem acreditava nela. A mentira havia criado raízes emocionais. Arrancá-la passou a ser percebido como uma agressão.
Não se deve concluir, porém, que todos os lados fizeram exatamente a mesma coisa. A hostilidade pode contaminar campos diferentes, mas a erosão democrática não foi simétrica. Houve um movimento político que glorificou a ditadura, atacou sistematicamente o processo eleitoral, transformou instituições em inimigas e fez da desumanização do adversário uma ferramenta recorrente. Chamar tudo isso simplesmente de “polarização” pode esconder quem decidiu empurrar deliberadamente as fronteiras da convivência democrática.
Também seria injusto imaginar que todos os brasileiros de direita aderiram a esse projeto. A direita democrática existe e é necessária. Democracias não sobrevivem sem conservadores, liberais, socialdemocratas e socialistas capazes de disputar o governo reconhecendo a legitimidade dos demais. O problema começa quando uma corrente deixa de querer derrotar o adversário e passa a desejar eliminá-lo da comunidade política.
Eu não sinto saudade necessariamente dos governos daquele tempo, nem das ilusões que alimentávamos. Sinto saudade de uma “gramática” democrática que nos permitia discordar sem romper todos os vínculos. De um país em que as opiniões políticas não funcionavam como exames de pureza. De uma família que podia discutir eleições, reclamar dos candidatos e, ainda assim, celebrar aniversários no mesmo quintal.
O país que eu amava tinha inúmeros defeitos. Talvez eu o veja agora através da névoa generosa da memória. Mas nele ainda parecia possível convencer alguém – e somente tentávamos convencer aqueles que reconhecíamos como interlocutores.
A democracia começa antes das urnas. Começa quando aceitamos que nenhuma pessoa cabe inteira dentro de seu voto. Quando compreendemos que o cunhado petista, o primo tucano, o vizinho conservador e o amigo socialdemocrata pertencem à mesma comunidade política – e que nenhum de nós tem o direito de expulsar os demais do país.
Ainda imagino aquela antiga mesa. Talvez algumas cadeiras estejam vazias. Talvez outras tenham sido afastadas depois de uma discussão num grupo de WhatsApp. Sobre a toalha, entre os pratos, repousam palavras que já não sabemos recolher.
Às vezes, olho para essas cadeiras e me pergunto: o que fizeram daquele país que tanto amei? O país que eu amava não era aquele em que todos concordavam. Era aquele em que, terminada a discussão, ainda havia café.
(*) DJALBA LIMA é jornalista e editor de Relatos.

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