O Brasil das certezas morais

Há uma frase em A Mente Moralista, de Jonathan Haidt, que parece ter sido escrita para o Brasil de hoje: “A moralidade une e cega.”

Une porque aproxima aqueles que compartilham valores, medos, crenças e esperanças. Cria comunidades. Produz pertencimento.

Mas também cega. E talvez esteja aí uma das chaves para compreender o que aconteceu conosco. O Brasil não está dividido apenas por ideias. Está dividido por certezas morais.

Não basta mais discordar sobre impostos, segurança pública, desigualdade, drogas, educação ou tamanho do Estado. Acrescentamos uma pergunta muito mais perigosa:

Quem são as pessoas boas e quem são as pessoas más?

Quando a política chega a esse ponto, o adversário deixa de ser alguém que pensa diferente. Torna-se alguém moralmente suspeito.

O cavaleiro acredita que manda

Haidt construiu uma metáfora extraordinária para explicar nossos julgamentos morais.Imagine um cavaleiro montado num enorme elefante. O cavaleiro representa a razão. O elefante, nossas intuições: emoções, lealdades, medos, repulsas, valores adquiridos ao longo da vida.

Gostamos de imaginar que o cavaleiro conduz o animal. Haidt sugere que, muitas vezes, ocorre o contrário.

Daí um dos princípios centrais de A Mente Moralista:

“As intuições vêm primeiro; o raciocínio estratégico, depois.”

Primeiro sentimos. Depois procuramos argumentos para explicar por que sentimos. Na política, o fenômeno é facilmente reconhecível. Surge uma denúncia contra o adversário: acreditamos imediatamente. Surge denúncia semelhante contra alguém do nosso grupo: imediatamente pedimos contexto, provas, cautela, contraditório. Os fatos podem ser semelhantes.

O elefante é que mudou de lado.

O brasileiro não cabe na caixa

Os dados brasileiros tornam essa discussão ainda mais interessante.

A matriz ideológica do Datafolha de 2026 encontrou 44% dos brasileiros na direita ou centro-direita e 39% na esquerda ou centro-esquerda. Mas basta separar os assuntos para a aparente simplicidade desaparecer.

Nas questões comportamentais, 52% ficam à direita ou centro-direita. Nas questões econômicas, porém, 45% ficam à esquerda ou centro-esquerda.

Quem é, afinal, esse brasileiro?

Pode ser conservador nos costumes e defender políticas econômicas redistributivas. Pode desejar mais rigor na segurança pública e, ao mesmo tempo, acreditar em serviços públicos universais. Pode frequentar uma igreja evangélica e considerar que o Estado tem responsabilidade no combate à desigualdade.

A pessoa real é muito mais complexa do que o personagem das redes sociais. O problema começa quando a política exige que ela compre o pacote inteiro.

A lupa e o espelho

É nesse terreno que prosperam os moralistas de plantão.

São aqueles que transformam religião, família, sexualidade, comportamento e costumes em certificados públicos de virtude.

Não há nada de ilegítimo em orientar a própria vida por convicções religiosas ou valores conservadores. Tampouco há virtude automática em professar valores progressistas. O problema começa quando nossas convicções particulares se transformam em régua para medir a dignidade moral dos outros.

E aqui aparece uma característica fascinante do moralismo: o moralista carrega uma lupa e quase nunca um espelho. Com a lupa, examina minuciosamente o adversário. Descobre suas contradições, deslizes, pecados, negócios, amizades, palavras infelizes e incoerências. Quando chega a vez dos seus, guarda a lupa. Aparecem então as explicações. É preciso compreender o contexto. A imprensa exagerou. A frase foi retirada de contexto. O adversário fez pior. Não era exatamente aquilo. Há interesses por trás da denúncia.

E o espelho? O espelho permanece no bolso.

Quando a política se torna sagrada

Há outra descoberta importante em Haidt. Nossa moralidade não serve apenas para distinguir certo e errado. Ela também ajuda a formar grupos. Precisamos pertencer. Partidos, movimentos e líderes podem então adquirir algumas características normalmente associadas às religiões: símbolos, rituais, heróis, mártires, histórias fundadoras – e pecadores.

Algumas ideias tornam-se sagradas. E aquilo que é sagrado não se negocia. Quando um líder passa a integrar a identidade moral de uma pessoa, criticá-lo já não parece apenas uma divergência política. Pode soar como agressão pessoal.

A política deixa então de perguntar: “Você concorda comigo?” E passa a perguntar: “Você é um dos nossos?” A diferença é enorme. Na primeira pergunta ainda existe espaço para debate. Na segunda, estamos escolhendo uma tribo.

Talvez sejamos menos divididos do que pensamos

Aqui está o paradoxo. Se milhões de brasileiros podem ser conservadores numa questão e progressistas em outra, talvez o país real não esteja dividido em duas metades perfeitamente coerentes e irreconciliáveis. Talvez tenhamos construído duas grandes caixas e tentemos enfiar dentro delas uma sociedade que simplesmente não cabe. A polarização faz o restante.

Quanto mais forte se torna nossa identidade política, mais fácil enxergar as contradições do outro e mais difícil reconhecer as nossas. A lupa aumenta. O espelho diminui.

O teste do espelho

A Mente Moralista não afirma que todas as ideias são equivalentes. Não são. Há fatos verdadeiros e falsos. Há governos que acertam e erram. Existem crimes, abusos e responsabilidades que precisam ser apurados. Políticas públicas produzem resultados diferentes e podem – e devem – ser avaliadas pelas evidências.

A lição de Haidt é mais desconfortável. Precisamos desconfiar da extraordinária capacidade de nossa mente para transformar preferência política em superioridade moral. Talvez exista um teste bastante simples. Escolha uma conduta que o indigna quando praticada pelo adversário.

Agora imagine a mesma conduta praticada pelo político que você admira. Sua indignação permanece igual? Se permanece, talvez você tenha um princípio. Se desaparece, talvez tenha apenas uma torcida. É aí que precisamos trocar a lupa pelo espelho.

Porque o maior desafio não é descobrir a incoerência do adversário. Para isso somos extraordinariamente competentes. O difícil é enxergar a nossa.

Jonathan Haidt talvez nos ajude a compreender por quê. No fundo, todos gostamos de imaginar que somos o cavaleiro racional, conduzindo serenamente nossas convicções. Mas, debaixo de nós, existe um enorme elefante feito de intuições, identidades, afetos e lealdades.

E talvez o primeiro passo para diminuir nossas certezas morais seja admitir uma possibilidade incômoda: o elefante do outro nem sempre está errado – e o nosso não conhece necessariamente o caminho.

djalba.lima@gmail.com Escrito por:

2 Comentários

  1. Davi Ribeiro
    outubro 2, 2026
    Responder

    “— Por que você vê o cisco no olho do seu irmão, mas não repara na trave que está no seu próprio?”
    ‭‭Mateus‬ ‭7‬:‭3‬ ‭NAA‬‬

    Guarde sua lupa e pegue seu espelho….

    Bem lúcido.

    Deus te abençoe.

  2. Teresa Cardoso
    outubro 2, 2026
    Responder

    Gostamos de imaginar que conduzimos o elefante, observamos que é ele que nos conduz, mas no fundo sabemos que nossas certezas são tão voláteis quanto um e outro. Viver é perigoso, o inferno são os outros, navegar é preciso, mas certezas ninguém tem.

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