A mentira paga uma rodada. E o país paga a conta.

DJALBA LIMA
Jornalista e editor de Relatos
Ramal 51 é como batizamos o Bar do Toninho, um pé-sujo onde a cerveja chega suando e a cachaça dispensa apresentações. Naquela sexta-feira, as mesas foram se juntando conforme os conhecidos apareciam. Os fumantes saíam para a calçada e voltavam trazendo as últimas notícias do mundo, quase todas recebidas pelo celular.
Manuel estacionou a Hilux, ajeitou o corpo avantajado numa cadeira e pediu uma cerveja. Antes que Toninho trouxesse o copo, já havia anunciado seu voto.
– Vou de Flávio. Sou fazendeiro, preciso desmatar. Espero que seja como no governo do pai, quando deixavam a boiada passar. Agora esses ambientalistas inventaram o aquecimento global e não deixam ninguém produzir.
– E as secas, as enchentes, esse calor todo? Não teme que acabem prejudicando sua soja, seu gado? – perguntei.
Manuel fez um gesto com a mão, como quem espanta uma mosca.
– Isso é o fim dos tempos. Está na Bíblia. Uma hora acaba tudo mesmo. Até lá, tenho que plantar e criar meus bois.
O fim do mundo parecia não alterar o calendário da fazenda.
– O que está acabando com o Brasil é esse Lula – continuou. – Quebrou o país sustentando vagabundo com dinheiro de quem trabalha.
João, que fazia manutenção e limpeza de piscinas, encontrou a deixa.
– Pode escrever. Ninguém quer trabalhar. Você oferece serviço e o sujeito prefere ficar em casa. Recebe seguro-desemprego por seis meses, depois cadastra a mulher no Bolsa Família. Pronto: cachaça, televisão e dinheiro do governo.
– Quanto você paga? Assina a carteira?
João demorou um pouco mais para pousar o copo.
– Aí você me aperta. Cliente quer piscina limpa, mas não quer pagar muito. Material caro, combustível caro… Se eu for fichar todo mundo, não sobra nada.
– Então o trabalho é sem carteira?
– É o que dá para oferecer. Quem precisa aceita.
Manuel assentiu. Os dois pareciam de acordo sobre as obrigações dos pobres.
Adão chegou quando a conversa já havia condenado o governo, os desempregados e boa parte da humanidade. Puxou uma cadeira.
– Vocês estão olhando só para o dinheiro. O perigo é a China. Lula está trazendo o comunismo para cá.
– Trazendo como?
– Olha, apareceu um sujeito do IBGE lá em casa perguntando quantos banheiros eu tinha. Eu disse um. Se você fala que tem dois ou três, eles põem outra família para morar com você.
– E quem lhe contou isso?
– Está circulando. Não sou bobo.
João achou prudente. Manuel tomou mais um gole. Adão parecia satisfeito por ter defendido a casa de uma invasão que só existia naquela conversa.
Joaquim, que passara para buscar uma marmita, reconheceu os amigos e se aproximou. Frequentava a igreja com fervor e os grupos de mensagens com assiduidade.
– A China é o começo. Com essa amizade com os chineses e a briga com o Trump, o nove-dedos vai fechar as igrejas. Vocês vão ver.
A marmita foi colocada no balcão. Joaquim continuou falando, enquanto o jantar esfriava.
Renato, aposentado, esperou uma brecha.
– Eu só sei que meu dinheiro não dá mais. Saio da farmácia e já tenho que escolher o que vou deixar de comprar no mercado.
Dessa vez, não respondi. Havia um cansaço em sua voz que não cabia numa discussão.
Rui, técnico em editoração eletrônica, aproveitou o silêncio.
– Eu estou vendendo o que tenho para comer. Já tive apartamento, sala comercial, casa na praia. Quase não aparece mais trabalho. É culpa do Lula!
– Seu mercado mudou muito. Será que atualizar as ferramentas, procurar outro tipo de serviço…
– Atualizar o quê? Depois de uma vida inteira trabalhando, eu tenho que começar de novo? Vá se lascar!
Percebi tarde demais que havia tocado numa ferida. Eu falara em ferramentas. Rui falava de uma vida inteira que parecia perder valor. Minha pergunta chegara ao lugar errado.
– Vocês sempre arrumam uma desculpa para esse governo – disse ele. – Seu velho comunista, não tem vergonha de defender essa petezada?
Outras vozes se juntaram à dele. Já não se discutiam banheiros, empregos, programas sociais ou orçamento. Eu havia recebido um nome que dispensava respostas. Paguei minha parte e saí. Toninho recolheu o copo. Na mesa, a conversa prosseguiu.
O que ficou sobre a mesa
Longe do Ramal 51, as frases pediam uma atenção que ali não encontraram. Algumas continham falsidades verificáveis. Outras começavam numa dificuldade real e desembocavam numa explicação que parecia ter vindo pronta.
O aquecimento global, por exemplo, não foi inventado por ambientalistas. O IPCC, que reúne avaliações da literatura científica, atribui inequivocamente às atividades humanas o aquecimento observado.
A “boiada” também tem história. Em reunião ministerial de 22 de abril de 2020, Ricardo Salles, então ministro do Meio Ambiente, propôs aproveitar a atenção da imprensa à pandemia para mudar normas e fazer passar a boiada. A expressão que Manuel repetia no bar havia sido usada dentro do governo.
Já a acusação de que o Bolsa Família “quebrou o Brasil” merecia, pelo menos, abrir as contas. Entre 2019 e 2022, Bolsa Família e Auxílio Brasil somaram R$ 189,68 bilhões em despesas liquidadas, segundo tabela do TCU baseada em informações do Ministério do Desenvolvimento Social. O total não inclui o Auxílio Emergencial da pandemia, que substituiu temporariamente o benefício para muitas famílias.
Renúncia tributária é a receita que o Estado deixa de arrecadar ao conceder isenções, descontos ou outros benefícios fiscais. Quando favorece setores economicamente poderosos, reduz seus custos e amplia seus lucros – uma forma de apoio público menos visível que os programas sociais.
No mesmo intervalo, o demonstrativo da Receita Federal utilizado nesta comparação estimava cerca de R$ 1,554 trilhão em gastos tributários, incluindo uma projeção para 2022. O montante corresponde a aproximadamente 8,2 vezes as despesas liquidadas daqueles dois programas. Os valores são nominais, sem correção pela inflação.
A comparação não prova que toda renúncia seja injusta, nem resolve a situação fiscal do país. Mostra, porém, a desproporção de uma indignação que enxerga o dinheiro destinado à subsistência dos pobres e quase nunca pergunta pelos benefícios fiscais concedidos a empresas e outros contribuintes. Benefícios fiscais também precisam demonstrar resultados, justificar seu custo e prestar contas.
No governo Lula, as transferências para o Bolsa Família ficaram em R$ 169,6 bilhões em 2023, R$ 168,3 bilhões em 2024 e quase R$ 160 bilhões em 2025. São despesas expressivas, que exigem financiamento e fiscalização. Atribuir-lhes sozinhas a suposta ruína do país dispensa examinar receitas, juros, dívida, crescimento e o restante do orçamento.
Na série mais recente da Receita Federal, os gastos tributários federais com renúncias são estimados em R$ 534 bilhões para 2023, com bases efetivas. Para 2024, 2025 e 2026, o demonstrativo apresenta projeções de R$ 546,8 bilhões, R$ 569,2 bilhões e R$ 590,2 bilhões, respectivamente. O último valor corresponde ao ano inteiro.
Esses totais incluem benefícios a empresas, pessoas físicas e entidades sem fins lucrativos, muitos deles estabelecidos antes do atual governo.
João também misturava regras com suspeitas. O seguro-desemprego do trabalhador formal é normalmente pago em três a cinco parcelas. Já o Bolsa Família considera a renda e a composição familiar: colocar o cadastro em nome da mulher não elimina esses critérios. O programa admite beneficiários com trabalho e renda, inclusive emprego com carteira assinada, desde que cumpridas suas regras. Receber o benefício não demonstra recusa ao trabalho.
As perguntas do IBGE sobre banheiros ajudam a conhecer as condições de moradia e saneamento. O Censo de 2022, por exemplo, investigou a existência e o número de banheiros nos domicílios. Transformar esse levantamento em ameaça de ocupação da casa é atribuir à pesquisa uma finalidade que ela não tem.
A previsão de fechamento das igrejas saltava de uma relação diplomática para uma ameaça sem demonstração. A Constituição brasileira assegura a liberdade de consciência e de crença e o livre exercício dos cultos religiosos. A proximidade comercial com a China, por si só, não comprova a intenção de suprimir essas garantias.
Os homens que olham para o andar de baixo
Depois de conferir os números, voltei em pensamento àquela mesa. A dificuldade de Renato para comprar remédios era real. A angústia de Rui, vendendo o que levara uma vida para construir, também. João fazia contas para manter seu pequeno negócio. Havia sofrimento naquela conversa. E talvez fosse isso o que mais me entristecesse: dores verdadeiras estavam sendo conduzidas a culpados escolhidos de antemão.
O pobre que recebia ajuda aparecia como um peso para o país. O benefício tributário, muito maior e menos visível, quase nunca entrava na conversa. Era fácil enxergar os poucos reais na mão de uma família; difícil acompanhar os bilhões que deixavam de chegar aos cofres públicos. E alguém havia ensinado aqueles homens a olhar sempre para baixo quando procurassem o responsável por suas perdas.
Como a “realidade” é fabricada
Era essa passagem entre dificuldade e explicação que me fazia lembrar de algo fundamental: o poder de produzir percepções coletivas até que elas sejam experimentadas como conclusões pessoais.
Não é preciso que todas aquelas falas tenham um único autor ou venham de uma operação coordenada. Há interesses, preconceitos, notícias mal compreendidas e experiências dolorosas. Mas a repetição pode reuni-los numa história em que tudo aponta para o mesmo culpado. O auxílio causa a preguiça; a ciência impede o progresso; o recenseador ameaça a propriedade; o parceiro comercial anuncia o comunismo.
Quando surge uma pergunta, o rótulo protege a história contra ela
O Brasil conhece antigas versões desse expediente. Em 1937, o falso Plano Cohen, apresentado como ameaça comunista, ajudou a preparar o ambiente para a implantação do Estado Novo. Não se trata de equiparar uma mesa de bar àquele golpe, mas de reconhecer a persistência do medo como recurso político. A ameaça inventada pode ter consequências muito reais.
No Ramal 51, ninguém precisava falsificar um documento. Bastava repetir o que já chegara ao celular. Cada voz emprestava à mensagem alguma coisa que ela não tinha: o rosto de um conhecido, a confiança de uma amizade, a autoridade de quem dizia ter visto com os próprios olhos.
Talvez fosse isso o mais triste: a mentira encontrara abrigo num lugar feito para o encontro. Entrara com as vozes dos amigos e aprendera seus nomes.
Naquela noite, deixei uma cadeira vazia no Ramal 51. A verdade já estava de pé havia muito tempo, esperando que alguém lhe oferecesse um lugar.
P.S.: O bar e os personagens desta crônica são fictícios. As falas recompõem argumentos que circulam em conversas cotidianas; não são necessariamente transcrições de uma reunião específica.

Ótimo texto, Djalba. Muito bem lembrada a desproporção de uma indignação que enxerga o dinheiro destinado à subsistência dos pobres e quase nunca pergunta pelos benefícios fiscais concedidos a empresas e outros contribuintes. Como você diz, benefícios fiscais também precisam demonstrar resultados, justificar seu custo e prestar contas.