AS SETE MONTANHAS DO PODER


DJALBA LIMA

Jornalista e editor de Relatos
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Imagine que alguém lhe diga que Deus deseja que os cristãos assumam o controle do governo, da educação, dos meios de comunicação, da economia, da cultura, da religião e da família. Não apenas para participar da vida pública, mas para orientar essas instituições segundo uma suposta e determinada interpretação da vontade divina.

Parece o enredo de uma distopia religiosa. Mas não é ficção.

A ideia está presente na chamada estratégia das Sete Montanhas, uma das expressões contemporâneas da teologia do domínio, desenvolvida em ambientes evangélicos norte-americanos e difundida internacionalmente.

A metáfora é simples: a sociedade estaria organizada em sete grandes esferas de influência, ou montanhas. Conquistá-las seria parte da missão dos cristãos de transformar o mundo.

Não estamos falando simplesmente de um religioso que decide disputar uma eleição, dirigir uma escola ou administrar uma empresa. Estamos falando de correntes que atribuem significado espiritual à conquista de posições estratégicas nas instituições.

Há diferenças importantes entre os movimentos associados ao dominionismo. Nem todos defendem uma teocracia ou rejeitam formalmente a democracia. Mas determinadas vertentes compartilham uma ambição que merece ser examinada: subordinar a organização da sociedade a uma interpretação particular da lei ou da vontade de Deus.

E aqui surge uma pergunta fundamental: se conquistar o Estado é uma missão divina, o que acontece quando a vontade dos eleitores contraria a vontade atribuída a Deus?

O escolhido

Donald Trump não inventou o dominionismo ou a teologia do domínio. Mas encontrou em algumas de suas correntes aliados empenhados em sua ascensão política.

Lance Wallnau, um dos principais divulgadores das Sete Montanhas, ajudou a popularizar uma interpretação singular: Trump seria uma espécie de Ciro moderno, o governante persa que, segundo a tradição bíblica, foi utilizado por Deus para cumprir seus propósitos.

A comparação resolvia um problema inconveniente. Não era necessário demonstrar que Trump possuía as virtudes religiosas exigidas por seus apoiadores. Bastava apresentá-lo como instrumento de uma missão superior.

O candidato podia ser imperfeito. Sua missão, não.

A aproximação ultrapassou os púlpitos. Redes religiosas mobilizaram eleitores, promoveram campanhas e conquistaram acesso ao poder político. O nacionalismo cristão encontrou no trumpismo um aliado para suas disputas sobre educação, costumes, identidade nacional e organização das instituições.

Os números ajudam a compreender a dimensão do fenômeno.

Em setembro de 2024, uma pesquisa do Public Religion Research Institute, o PRRI, revelou que 43% dos republicanos que tinham uma opinião favorável a Trump concordavam com a afirmação de que Deus deseja que os cristãos assumam o controle das Sete Montanhas da sociedade. Entre os protestantes evangélicos brancos, o percentual chegava a 48%.

Não significa que todos defendessem uma teocracia. Mas demonstra que a ideia de conquistar instituições como parte de uma missão religiosa encontrava receptividade expressiva em segmentos do eleitorado norte-americano.

A relação entre essas crenças e o autoritarismo também apareceu na pesquisa. Os entrevistados identificados como simpatizantes ou adeptos do nacionalismo cristão apresentavam maior propensão a concordar com determinadas afirmações de caráter autoritário.

O problema deixa de ser exclusivamente religioso. Torna-se político e institucional.

O caminho brasileiro

Seria um erro imaginar que essas ideias permaneceram confinadas aos Estados Unidos.

No Brasil, pesquisadores vêm examinando a circulação da teologia do domínio em determinados ambientes evangélicos e sua aproximação com o bolsonarismo.

Em 2023, o pesquisador Eliseu Pereira publicou, na revista acadêmica Projeto História, um estudo que propõe a teologia do domínio como chave de interpretação da aliança política entre lideranças evangélicas e o movimento bolsonarista.

Outros trabalhos analisaram discursos de Michelle Bolsonaro e identificaram elementos dominionistas na construção de uma identidade política cristã, conservadora e fortemente marcada pela oposição entre um suposto campo do bem e seus adversários.

Não significa que todo evangélico seja dominionista. Nem que todos os apoiadores de Jair Bolsonaro compartilhem a estratégia das Sete Montanhas. A generalização seria injusta com milhões de brasileiros que vivem sua fé sem pretender impô-la aos demais.

Mas existe uma convergência que não pode ser ignorada.

A política passa a ser apresentada como guerra espiritual. O candidato deixa de ser apenas um representante de determinado projeto de governo e adquire a condição de escolhido de Deus. O adversário já não é alguém que pensa diferente: torna-se uma ameaça aos valores cristãos, à família e à própria ordem moral.

A eleição deixa de ser uma disputa entre propostas e passa a ser narrada como uma batalha entre o bem e o mal.

É uma transformação perigosa.

Porque, se determinado candidato representa a vontade divina, como reconhecer a legitimidade de sua derrota? Como aceitar que milhões de eleitores, exercendo livremente seus direitos, tenham escolhido outro caminho?

Quando a vitória política é apresentada como uma exigência de Deus, a derrota corre o risco de ser tratada como uma afronta à própria fé.

A democracia conquistada por dentro

As democracias nem sempre são destruídas por generais, tanques e parlamentos fechados.

Podem ser enfraquecidas gradualmente, por governantes eleitos que passam a atacar os mecanismos destinados a limitar seu poder. É um dos fenômenos examinados por Steven Levitsky e Daniel Ziblatt em Como as Democracias Morrem.

A estratégia das Sete Montanhas merece atenção porque identifica justamente as instituições que influenciam a formação da consciência coletiva e o funcionamento da sociedade.

Escolas, universidades, meios de comunicação, governos e instituições culturais tornam-se espaços de disputa por influência.

Disputar influência é legítimo. Numa democracia, todos têm o direito de defender suas ideias e buscar apoio para elas.

O limite é ultrapassado quando essa disputa pretende eliminar o pluralismo, restringir direitos ou conferir a uma determinada crença uma autoridade superior à Constituição e à soberania popular.

Uma eleição confere o direito de governar. Não confere o direito de se apropriar do Estado.

E nenhuma maioria, por mais expressiva que seja, possui legitimidade para suprimir a liberdade das minorias.

Deus não precisa de um partido

O Brasil conhece os perigos da associação entre autoridade religiosa e poder político.

Durante o Império, a Igreja Católica esteve institucionalmente vinculada ao Estado pelo regime do padroado. A separação formal veio com o Decreto nº 119-A, de 7 de janeiro de 1890. A Constituição de 1988 consolidou a liberdade de consciência e de crença e estabeleceu limites às relações entre o poder público e as instituições religiosas.

O Estado laico não é um Estado ateu. Não proíbe manifestações religiosas nem impede que padres, pastores ou fiéis participem da política.

Ao contrário: assegura que católicos, evangélicos, judeus, muçulmanos, espíritas, adeptos das religiões de matriz africana e pessoas sem religião possam viver sob as mesmas leis, sem precisar professar a mesma fé.

A laicidade protege também as próprias igrejas. Quando uma instituição religiosa se identifica inteiramente com um partido ou governante, passa a compartilhar seus erros, seus escândalos e seus eventuais abusos.

A fé, que deveria transcender governos, acaba subordinada à sorte de um projeto político.

Há quase dois mil anos, segundo os Evangelhos, Jesus foi questionado sobre o pagamento de impostos a Roma. Pediu uma moeda, perguntou de quem era a imagem nela gravada e respondeu:

“Dai a César o que é de César, e a Deus, o que é de Deus.”

Não era uma formulação antecipada do Estado laico moderno. Mas a distinção permanece extraordinariamente atual.

César não é Deus.

Um pastor pode orientar seus fiéis sobre valores. Não pode reivindicar o direito de decidir politicamente por eles. Um cidadão pode votar de acordo com sua fé. Não pode exigir que todos os demais obedeçam à sua interpretação religiosa.

A diferença é enorme.

“Minha fé orienta meu voto” é uma afirmação de consciência individual. “Deus manda você votar neste candidato” é uma tentativa de exercer autoridade sobre a consciência alheia.

E quando essa pretensão se associa a um projeto de conquista das instituições, a liberdade religiosa pode transformar-se em instrumento de submissão política.

A democracia não exige que ninguém abandone sua fé. Exige apenas que todos reconheçam o direito dos outros de não compartilhá-la.

As Sete Montanhas, o trumpismo e o bolsonarismo nos colocam diante de uma questão que ultrapassa as fronteiras entre religião e política. Trata-se de saber se continuaremos a viver numa sociedade em que o poder deriva da vontade dos cidadãos ou se aceitaremos que alguém reivindique uma autorização superior para governar em nome de todos.

A resposta deveria ser simples: Deus não disputa eleições. Quem disputa são os homens. E nenhum deles tem o direito de transformar sua ambição de poder em vontade divina.

djalba.lima@gmail.com Escrito por:

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