A vitória de James Talarico no Texas ilumina um caminho que aproxima fé, liberdade e justiça social e desafia o uso político da intolerância.

DJALBA LIMA
Jornalista e editor de Relatos
55(61)999379799
Uma das maiores vitórias da extrema direita acontece antes da abertura das urnas: quando consegue convencer uma pessoa comum de que a dor de outra pessoa não merece consideração. O imigrante vira invasor; o pobre, aproveitador; o adversário, ameaça à família. Aos poucos, a crueldade deixa de provocar constrangimento e passa a funcionar como demonstração de coragem. Quem acolhe é fraco. Quem humilha parece forte.
É nesse terreno que a recuperação da empatia adquire importância política. Reconhecer a humanidade do outro ajuda a interromper o mecanismo que transforma insegurança em ódio e diferença, em ameaça. E permite fazer uma pergunta que o espetáculo da hostilidade costuma esconder: quem está, de fato, melhorando a vida das pessoas?
Em 3 de novembro de 2026, James Talarico venceu Ken Paxton na disputa pelo Senado dos Estados Unidos no Texas. O democrata rompeu um longo domínio republicano num estado em que Donald Trump havia vencido com folga dois anos antes. Sua vitória oferece uma experiência concreta para essa reflexão, embora nenhum resultado eleitoral possa ser explicado por uma única virtude ou mensagem.
Professor antes de ingressar na política e seminarista presbiteriano, Talarico contestou a pretensão dos nacionalistas cristãos de falar em nome de todos os cristãos. Fez de sua formação religiosa uma razão para defender a democracia. Fez de sua formação religiosa uma razão para defender a democracia e a liberdade de quem acredita de outra maneira – inclusive de quem não acredita. No centro dessa posição está o mandamento de amar o próximo, independentemente de sua religião, posição política ou orientação sexual.
Há uma diferença decisiva entre reconhecer na própria crença uma obrigação de cuidar e encontrar nela uma autorização para mandar na vida alheia.
Essa diferença ajuda a compreender o contraste com as Sete Montanhas do Poder, tema que já abordei em Relatos. O projeto sinistro propõe conquistar posições de comando em sete esferas da sociedade: religião; família; educação; governo; mídia; artes e entretenimento; e negócios. Em suas expressões dominionistas, a participação religiosa se converte numa ambição de supremacia: subordinar a vida coletiva a determinada interpretação do cristianismo. A investigação da ProPublica documentou a atuação de Lance Wallnau, um dos principais divulgadores dessa estratégia, na mobilização em favor de Trump.
O problema não está na presença de cristãos na política. Eles têm o mesmo direito de participação que qualquer cidadão. Está na pretensão de transformar uma interpretação religiosa em título de propriedade sobre o Estado. Quando o governante se apresenta como instrumento de uma missão divina, a oposição corre o risco de ser tratada como adversária da própria fé – ou inimiga de Deus. A negociação se torna suspeita; a alternância no poder, uma derrota espiritual.
Talarico abriu outra possibilidade. Associou a defesa da família a creches acessíveis e licença remunerada para cuidar de familiares; vinculou a liberdade à proteção das escolhas pessoais; e sustentou a separação entre Igreja e Estado. Sua mensagem permite ao eleitor religioso reconhecer seus valores em propostas que ampliam direitos, em vez de procurar sua confirmação na perseguição aos diferentes.
Essa linguagem teve também uma tradução econômica. Em sua agenda, Talarico propôs elevar o salário mínimo, ampliar o pagamento de horas extras, investir em educação e saúde, proteger programas de aposentadoria e fechar brechas tributárias favoráveis aos bilionários. Procurou deslocar o conflito público para a distribuição do poder e das oportunidades: quem trabalha consegue viver do próprio trabalho? Quem paga a conta das decisões do governo?
A empatia ganha consequência quando chega ao orçamento. A preocupação com uma criança precisa aparecer na escola que a recebe; o respeito ao idoso, no cuidado que ele consegue obter. Sem essa passagem, a solidariedade pode se esgotar numa fotografia de campanha.
Seria precipitado atribuir a vitória de Talarico apenas à sua mensagem acolhedora. O custo de vida, o desgaste republicano e as controvérsias em torno de Paxton também pesaram. A eleição demonstra algo mais delimitado, mas relevante: uma candidatura pode vencer uma disputa difícil combinando linguagem inclusiva, identidade religiosa e confronto firme com interesses econômicos e políticos.
Como romper o recrutamento pelo medo
Hannah Arendt oferece uma contribuição importante para essa discussão. Em “Verdade e política”, sustenta que o julgamento político se fortalece quando consideramos perspectivas diferentes da nossa. Ela distingue esse exercício da empatia: ampliar a compreensão do mundo não exige sentir exatamente o que o outro sente, nem abandonar o próprio julgamento.
Uma democracia precisa de sensibilidade ao sofrimento e da disposição de examinar um mundo que ninguém enxerga por inteiro. A experiência do trabalhador precarizado, da mulher ameaçada, do migrante ou do morador de uma periferia não pode desaparecer porque incomoda as certezas de quem ocupa uma posição mais protegida. Considerá-la não obriga a concordar com tudo; obriga a reconhecer que essas pessoas também fazem parte da realidade sobre a qual decidimos.
É assim que o resgate da empatia pode ajudar a isolar politicamente a extrema direita: enfraquecendo o recrutamento pelo medo e ampliando o campo da convivência democrática. Isso exige oferecer aos seus eleitores espaço para reconsiderar escolhas, sem constrangê-los a uma confissão pública de erro.
Quando um eleitor conservador encontra acolhimento para suas preocupações e respostas para suas dificuldades, pode perceber que não precisa aderir à intolerância para proteger a família ou praticar a religião. A liderança extremista perde força quando deixa de monopolizar o pertencimento.
Isso exige distinguir dirigentes que promovem a desumanização dos eleitores que ainda podem ser alcançados pelo diálogo. Exige também limites claros. Compreender as razões de alguém não significa aceitar racismo, perseguição religiosa, violência ou golpe de Estado. A defesa democrática precisa combinar uma porta aberta à convivência com instituições capazes de responsabilizar quem viola direitos.
Esse compromisso também exige uma revisão de nossas próprias atitudes. Quando tratamos todo eleitor conservador como ignorante, todo religioso como fanático ou toda preocupação com segurança como desejo de repressão, fechamos a conversa antes de começá-la. O respeito precisa sobreviver à discordância e à recusa do voto; caso contrário, será apenas uma conveniência eleitoral.
Para mim, que vivi sob uma ditadura, acolher a divergência e enfrentar o autoritarismo são compromissos inseparáveis. Sei quanto custa perder a liberdade. Mas também me preocupa uma vida pública em que milhões de pessoas sejam consideradas irrecuperáveis, como se o país pudesse dispensar parte de seus cidadãos. Uma democracia precisa proteger-se e, ao mesmo tempo, oferecer caminhos de volta.
O Brasil tem razões para prestar atenção ao que aconteceu no Texas. Há espaço para uma linguagem política que converse com a fé sem explorar o medo religioso, defenda a justiça social sem desprezar a experiência das pessoas e enfrente o autoritarismo sem fazer da humilhação um método.
As Sete Montanhas oferecem uma imagem de conquista: alcançar o alto e comandar a sociedade. Prefiro começar onde a vida acontece, junto de quem precisa de cuidado, trabalho, liberdade e respeito. Uma democracia começa a se recuperar quando a dor de quem votou diferente volta a nos importar.

Excelente como sempre sua análise.
Parabéns!