As gravações mostram que, na política externa, não é a ética que orienta – são os interesses que decidem.
Por DJALBA LIMA (*)
16 de setembro de 1973. Washington. O telefone toca na Casa Branca. Do outro lado da linha está o secretário de Estado Henry Kissinger. Do lado de dentro, atende o presidente Richard Nixon. Cinco dias antes, um golpe militar havia derrubado o governo constitucionalmente eleito de Salvador Allende no Chile. O assunto entra na conversa sem cerimônia.
– A questão chilena está se consolidando… – diz Kissinger.
Ele acrescenta que a imprensa está “fazendo alarde” porque um governo pró-comunista foi derrubado. Nixon reage com desdém.
– Nossa mão não aparece nisso.
Kissinger corrige, mas apenas parcialmente:
– Nós não fizemos… mas ajudamos. Criamos as condições o melhor possível.
A conversa segue em tom leve, quase burocrático; em alguns momentos, em tom pessoal. Não há hesitação. Não há dúvida. Em determinado momento, Nixon se irrita com a cobertura da imprensa:
– Eles não vão engolir essa bobagem dos liberais desta vez.
Kissinger concorda. O ponto central, para ambos, não é o que aconteceu no Chile, mas como isso será interpretado.
O governo de Allende, diz Nixon, não era apenas “pró-comunista”. Era “antiamericano”.
A ligação termina. Nada ali soa extraordinário para quem participa da conversa. Mas, décadas depois, com a gravação tornada pública, a cena revela algo difícil de ignorar: o golpe no Chile não foi apenas um evento. Foi parte de uma lógica. E essa lógica, registrada sem filtros, é o que as fitas de Kissinger expõem.
Veja a íntegra da conversa no fim do texto.
Rotina de ligações: as entranhas do poder
A conversa fez parte de uma rotina: ligações frequentes com o presidente Richard Nixon, assessores e autoridades estrangeiras. Muitas dessas conversas foram gravadas. Décadas depois, passaram a ser analisadas em conjunto com memorandos e documentos desclassificados.
As gravações telefônicas de Henry Kissinger produzidas entre 1969 e 1974 – tornadas públicas depois de uma longa batalha judicial – oferecem um registro direto do funcionamento da política externa dos Estados Unidos durante a Guerra Fria. Em conjunto com memorandos e documentos desclassificados, elas permitem observar não apenas o que foi decidido, mas como essas decisões foram formuladas.
O material revela um padrão consistente: decisões orientadas por critérios estratégicos, com pouca margem para considerações humanitárias ou respeito a processos democráticos quando estes contrariavam interesses maiores dos Estados Unildos.
Efeito multiplicador a ser evitado
Voltamos ao assunto do telefonema do início deste texto. Em 4 de setembro de 1970, Salvador Allende venceu as eleições no Chile. Nos dias seguintes, a avaliação em Washington se concentrou menos no resultado em si e mais no seu significado.
Allende não havia tomado o poder pela força. Isso o tornava, paradoxalmente, mais problemático. Em registros do período, Kissinger expressa essa preocupação de forma direta:
“I don’t see why we need to stand by and watch a country go communist due to the irresponsibility of its own people.”
“Não vejo por que devemos ficar parados e assistir um país tornar-se comunista devido à irresponsabilidade de seu próprio povo.”
Fonte: reunião no Conselho de Segurança Nacional, 15 de setembro de 1970 (memorando desclassificado; posteriormente publicado em Foreign Relations of the United States – FRUS, 1969–1976, Vol. XXI, Chile).
A frase aparece em discussão interna logo após a eleição de Allende. Em conversas e memorandos do mesmo período, o argumento é ampliado:
“The issue is not Chile. The issue is the effect that this could have elsewhere.”
“A questão não é o Chile. A questão é o efeito que isso pode ter em outros lugares.”
Fonte: memorandos e conversas internas de 1970–1971, compilados em documentos do NSC e FRUS (mesma série sobre Chile).
O problema, portanto, não era apenas um governo. Era a possibilidade de que ele funcionasse e seus efeitos se multiplicassem.
A partir desse diagnóstico, os Estados Unidos passaram a atuar em diferentes frentes: pressão econômica, isolamento político e apoio a iniciativas internas de desestabilização. Três anos depois, em 11 de setembro de 1973, o governo Allende foi derrubado.
O precedente brasileiro
Se o Chile exigia ação, o Brasil já havia oferecido um modelo. Em 1964, o governo de João Goulart foi derrubado com apoio dos Estados Unidos. A operação contou com preparação logística norte-americana e articulação política direta.
Nos anos seguintes, o país tornou-se um aliado estratégico. Esse episódio não aparece nas fitas como objeto central, mas como pano de fundo implícito.
Em 9 de dezembro de 1971, o presidente Richard Nixon recebeu o ditador brasileiro Emílio Garrastazu Médici no Salão Oval da Casa Branca. A conversa, registrada nos arquivos da presidência dos EUA e posteriormente desclassificada, revela um nível mais avançado de cooperação.
Durante o encontro, Médici afirmou que o governo de Salvador Allende provavelmente seria derrubado “pelas mesmas razões” que haviam levado à queda de Goulart no Brasil e indicou que o país já atuava nesse sentido.
Nixon, por sua vez, manifestou apoio à iniciativa e destacou a importância de uma colaboração estreita. O presidente norte-americano indicou disposição para oferecer apoio discreto, incluindo recursos, e concordou com a criação de um canal reservado de comunicação.
Esse canal seria operado pelo chanceler Mário Gibson Barboza, pelo lado brasileiro, e pelo então conselheiro nacional de Segurança Henry Kissinger, pela Casa Branca.
Fonte: Nixon–Médici conversation, Oval Office, 09/12/1971 — White House Tapes / National Security Archive
O registro não descreve um plano operacional detalhado, mas estabelece algo mais significativo: o reconhecimento explícito de uma ação convergente entre Brasil e Estados Unidos para conter e interromper a experiência chilena.
Nesse ponto, o Chile deixou de ser apenas um caso nacional e passou a integrar uma estratégia regional coordenada.
A macabra coordenação regional
Na década de 1970, regimes militares do Cone Sul passaram a cooperar em operações de repressão política. O sistema, mais tarde conhecido como Operação Condor, envolvia troca de informações, perseguição transnacional de opositores e ações coordenadas de segurança.
Para mais detalhes, leia as matérias Caçada humana sem fronteiras: como agia a Operação Condor e Agente da morte: as confissões secretas de Michael Townley.
As gravações de Kissinger não descrevem essas operações em detalhe, mas ajudam a entender o ambiente em que elas se desenvolveram. Em discussões sobre governos da região, a abordagem é pragmática:
“We have to deal with governments as they are, not as we might wish them to be.”
“Precisamos lidar com os governos que existem, não com os que gostaríamos que existissem.”
Fonte: State Department conversations, mid-1970s — declassified diplomatic records.
A frase não é um endosso explícito, mas tampouco indica objeção.
Bangladesh: o limite da variável humana
Em 1971, o consulado americano em Daca enviou a Washington uma série de relatórios descrevendo massacres no então Paquistão Oriental. O documento mais conhecido, o chamado Blood Telegram, alertava para a escala da violência. Nas conversas internas, o tema aparece de forma secundária.
O Paquistão desempenhava um papel estratégico na aproximação dos Estados Unidos com a China. Essa prioridade orientou a resposta. Em registros do período, Kissinger formula a hierarquia de forma clara:
“The issue here is larger than these local events.”
“O que está em jogo aqui é maior do que esses acontecimentos locais.”
Fonte: conversas internas entre Kissinger e Nixon durante a crise do Paquistão Oriental, 1971 (Nixon White House Tapes + memorandos NSC; ver também FRUS, South Asia Crisis, 1971).
Em outro momento, ao tratar das críticas internas:
“We cannot let that deflect our basic policy.”
“Não podemos deixar que isso desvie nossa política principal.”
Fonte: discussões no NSC e conversas telefônicas registradas, 1971 (Nixon tapes / NSC records).
Contexto: essas falas ocorrem durante o debate sobre o Blood Telegram e a postura americana frente aos massacres.
A política não foi alterada. O diplomata que liderou as críticas foi removido do posto.
Camboja: a guerra que não era pública
Durante a Guerra do Vietnã, os Estados Unidos conduziram bombardeios no Camboja. O país era oficialmente neutro. As operações foram mantidas em sigilo.
Em uma das conversas registradas no contexto da expansão da guerra, aparece uma orientação direta:
“I want everything that flies to go against everything that moves.”
“Quero tudo que voa contra qualquer coisa que se mova.”
Fonte: ordem atribuída a Richard Nixon em conversa com Henry Kissinger sobre a expansão da guerra no Camboja, 1969 (documentada em memorandos militares e estudos históricos baseados nos Nixon Tapes.
A frase sugere a intensificação máxima dos bombardeios, sem distinção clara entre alvos militares e áreas potencialmente ocupadas por civis – uma diretriz que prioriza volume e impacto sobre discriminação de alvos.
A manipulação da informação
As gravações mostram também uma preocupação constante com a forma como as decisões seriam apresentadas. Kissinger mantinha contato frequente com jornalistas e acompanhava de perto a repercussão das ações. Veja o que ele disse em conversas internas:
“We have to take care of how this is presented.”
“Precisamos cuidar de como isso será apresentado.”
Fonte: conversas telefônicas e reuniões internas (telcons), início dos anos 1970; registros compilados pelo National Security Archive.
E, em outro momento:
“The perception is as important as the reality.”
“A percepção é tão importante quanto a realidade.”
Fonte: formulações recorrentes em conversas de política externa e comunicação estratégica (telcons + memorandos NSC; atribuídas a Kissinger em diferentes registros do período).
Não se trata apenas de comunicação, mas de controle narrativo.
O padrão
Tomados isoladamente, os episódios – Chile, Brasil, Bangladesh, Camboja ~ pertencem a contextos distintos. Lidos em conjunto, revelam um padrão.
As decisões são centralizadas, seguem critérios estratégicos claros, incorporam custos humanos como variável secundária e operam com diferença entre prática e discurso
Em um dos registros mais citados, Kissinger resume essa lógica:
“Foreign policy is not about morality, it is about effectiveness.”
“Política externa não é feita para ser moral, mas para ser eficaz.”
Fonte: formulação amplamente atribuída a Kissinger em discursos e registros analíticos de sua atuação (não vinculada a um único telcon específico, mas consistente com memorandos e entrevistas posteriores).
Muda nossa percepção?
Não. As gravações de Henry Kissinger não mudam os fatos conhecidos da Guerra Fria. Mas alteram a forma como esses fatos podem ser compreendidos.
Elas mostram que decisões centrais foram tomadas de forma consistente com objetivos estratégicos definidos, mesmo quando isso implicava apoiar intervenções, tolerar repressões ou ignorar consequências humanitárias. Não há, nas conversas, sinais de dúvida sobre o método. O que aparece é outra coisa: clareza.
Uma clareza que se aproxima daquilo que, desde o século XIX, se convencionou chamar de realpolitik: uma prática de poder baseada em interesses, equilíbrio de forças e cálculo estratégico – não em princípios abstratos ou imperativos morais.
As fitas de Kissinger não explicam a realpolitik. Elas a registram em funcionamento.
Uma das conversas de Kissinger com Nixon

Casa Branca, 16 de setembro de 1973 – Trechos:
“A questão chilena está se consolidando… e os jornais estão fazendo um escândalo porque um governo pró-comunista foi derrubado.”
— Kissinger
“Nossa mão não aparece nisso.”
— Nixon
“Nós não fizemos… mas ajudamos. Criamos as condições o melhor possível.”
— Kissinger
“Eles não vão engolir essa bobagem dos liberais desta vez.”
— Nixon
“Vamos esquecer o rótulo de pró-comunista. Era um governo antiamericano o tempo todo.”
— Nixon
(*) DJALBA LIMA é jornalista e editor de Relatos – A Estação da História.

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