O mito da eficiência militar: que país a ditadura entregou à democracia?

Por DJALBA LIMA (*)

Há poucas ideias tão persistentes na memória nacional quanto a de que os militares foram grandes administradores da economia. Ela reaparece em conversas de família, nas redes sociais, em discursos políticos e até em análises aparentemente técnicas. Quase sempre vem acompanhada da mesma lembrança: “naquele tempo o Brasil crescia”.

É verdade. Mas essa é apenas uma parte minúscula da história. E uma meia-verdade, quando repetida durante décadas, pode tornar-se mais enganosa do que uma mentira completa.

A História Econômica ensina um princípio simples: nenhum governo deve ser avaliado apenas pelos anos em que tudo parece funcionar. Uma política pública precisa ser julgada pelo ciclo inteiro que produz – pela forma como nasce, pelos mecanismos que a sustentam e, sobretudo, pelo legado que deixa quando o entusiasmo termina.

É justamente esse olhar mais amplo que desmonta um dos maiores mitos econômicos do Brasil.

O chamado “milagre econômico” existiu. Entre 1968 e 1973, a economia brasileira cresceu a taxas extraordinárias, em alguns anos superiores a 10% do Produto Interno Bruto. Rodovias cortavam o país, hidrelétricas eram inauguradas, grandes obras tornavam-se símbolos de modernização e o governo difundia a imagem de um Brasil destinado a ocupar o lugar das grandes potências.

Seria intelectualmente desonesto negar esses resultados. Mas o problema é outro.

Transformar aqueles anos em prova definitiva da competência econômica da ditadura significa ignorar as condições excepcionais que os tornaram possíveis – e, principalmente, esquecer quem pagaria essa conta.

É preciso lembrar que o Brasil não crescia sozinho. Os anos 1950 e 1960 foram um dos períodos mais prósperos da economia mundial. A Europa reconstruía-se após a guerra e vivia os chamados “Trinta Anos Gloriosos” – cunhado pelo economista francês Jean Fourastié, o termo Trente Glorieuses descreve a era de ouro do capitalismo. O Japão experimentava seu espetacular crescimento industrial. A Coreia do Sul iniciava sua transformação econômica. Diversos países em desenvolvimento expandiam-se impulsionados por uma abundância inédita de crédito internacional.

Os bancos internacionais estavam repletos dos chamados petrodólares, recursos acumulados pelos países exportadores de petróleo e reciclados sob a forma de empréstimos baratos. As taxas de juros eram historicamente baixas. Havia liquidez em excesso.

O Brasil aproveitou esse cenário.

A estratégia adotada pelo regime consistiu em financiar o desenvolvimento por meio de um intenso endividamento externo, ampliando investimentos públicos, fortalecendo empresas estatais e realizando grandes obras de infraestrutura. Enquanto o crédito era abundante e barato, o modelo produzia resultados impressionantes.

Mas havia uma fragilidade estrutural. Grande parte daquele crescimento dependia de uma variável que o governo brasileiro não controlava: a economia internacional.

Foi então que o vento mudou.

O primeiro choque do petróleo, em 1973, já sinalizava dificuldades. O segundo, em 1979, aprofundou dramaticamente a crise. No mesmo período, o presidente do Federal Reserve, Paul Volcker, elevou de forma agressiva as taxas de juros nos Estados Unidos para combater a inflação americana. Em poucos meses, a dívida dos países que haviam tomado empréstimos em dólar tornou-se muito mais cara. O Brasil estava entre eles.

O que antes parecia uma estratégia brilhante revelou seu custo oculto.

A imagem talvez seja simples. Imagine uma família que compra uma casa maior, troca de automóvel, viaja com frequência e aparenta prosperidade porque consegue crédito fácil e barato. Durante algum tempo, tudo parece funcionar. O problema surge quando os juros aumentam, e as prestações se multiplicam. A riqueza desaparece quase instantaneamente. O patrimônio permanece, mas a dívida torna-se sufocante.

Foi exatamente isso que aconteceu com a economia brasileira.

O chamado “milagre” não terminou porque os brasileiros perderam subitamente a capacidade de produzir riqueza. Terminou porque o modelo que financiava aquele crescimento havia se tornado insustentável.

Geisel transmite o poder a Figueiredo em 1979: os generais fracassaram no legado econômico

É nesse contexto que o governo do general João Figueiredo assume o poder, em 1979. Muitas vezes apontado como responsável pela crise, ele administrou, na verdade, a fase mais dramática de um processo iniciado anos antes. Herdou uma economia altamente endividada, dependente de financiamento externo e vulnerável às mudanças do mercado internacional.

Os números falam por si. A inflação, que já era elevada em 1979, ultrapassaria 215% ao ano em 1984. A dívida externa dobraria, superando a marca de 100 bilhões de dólares. O Produto Interno Bruto recuaria fortemente em 1981 e novamente em 1983. O país seria obrigado a negociar com o Fundo Monetário Internacional, adotando programas de ajuste que comprimiram ainda mais salários, reduziram investimentos e aprofundaram a recessão.

As imagens dos saques a supermercados em 1983 tornaram-se o retrato mais visível de uma crise que já não podia ser escondida.

Mas existe outro aspecto frequentemente esquecido quando se recorda o “milagre”: o crescimento não beneficiou todos os brasileiros da mesma forma.

Boa parte de sua competitividade foi construída sobre uma política deliberada de contenção salarial. A repressão aos sindicatos, o controle das negociações coletivas e as limitações ao direito de greve reduziram artificialmente o custo da mão de obra. A economia crescia rapidamente, mas a participação dos salários na renda nacional diminuía. O país enriquecia sem distribuir proporcionalmente essa riqueza.

Delfim Neto (à esquerda), guru do “milagre econômico”, em 1970, e sua fórmula de fazer o bolo crescer para depois dividi-lo.

A frase do então ministro da Fazenda, Antônio Delfim Netto – “é preciso fazer o bolo crescer para depois dividi-lo” – tornou-se um dos símbolos dessa estratégia. O bolo realmente cresceu. A divisão, porém, permaneceu profundamente desigual. Ao final da ditadura, o Brasil estava entre os países com pior distribuição de renda do planeta.

É por isso que separar o “milagre econômico” da chamada “década perdida” constitui um erro histórico. Ambos pertencem ao mesmo ciclo. Ou, como dizem os cientistas, à mesma etiologia – o estudo ou a ciência que investiga as causas e a origem de um fenômeno.

O crescimento extraordinário dos primeiros anos foi financiado pelo endividamento que explodiria na década seguinte. A expansão e a crise não são histórias diferentes; são capítulos sucessivos da mesma narrativa.

É como admirar apenas a decolagem de um avião e concluir que o voo foi bem-sucedido sem perguntar como ocorreu o pouso.

Isso não significa negar os avanços do período. Obras como a Usina Hidrelétrica de Itaipu, a Ponte Rio–Niterói e a expansão da infraestrutura tiveram impactos duradouros e fazem parte da história do desenvolvimento brasileiro. O desafio do historiador não é apagá-las, mas analisá-las em conjunto com seus custos, suas fontes de financiamento e seus resultados de longo prazo.

Governos não são avaliados apenas pelas obras que inauguram. Também o são pelas contas que deixam.

Quando a democracia foi restaurada, em 1985, o país herdou inflação explosiva, dívida externa gigantesca, profunda concentração de renda, estagnação econômica e uma sociedade obrigada a atravessar praticamente toda a década seguinte tentando recuperar a estabilidade perdida.

Talvez seja esse o verdadeiro legado econômico da ditadura.

Não um período de prosperidade permanente, nem um desastre absoluto, mas um ciclo de crescimento intenso sustentado por crédito abundante, forte intervenção estatal, compressão salarial e endividamento crescente, que terminou expondo fragilidades estruturais profundas.

A História raramente julga governos pelos momentos em que tudo parecia dar certo. Costuma julgá-los pelo país que deixam quando as circunstâncias favoráveis desaparecem.

Sob esse critério, o chamado “milagre econômico” talvez mereça um nome menos sedutor. Não foi um milagre. Foi um período de crescimento extraordinário financiado por uma aposta que funcionou enquanto o mundo oferecia crédito barato e juros baixos. Quando o cenário internacional mudou, a ilusão terminou. O Brasil descobriu que havia confundido crédito com prosperidade.

Como uma família deslumbrada que entra em um restaurante de luxo, pede os pratos mais caros, brinda à fartura e acredita que finalmente enriqueceu. Ao final da noite, percebe que nunca foi rica. Apenas havia recebido um limite maior no cartão de crédito. A conta chegou alguns anos depois. E foi essa conta que a ditadura entregou à democracia.

Como outros países transformaram crescimento em desenvolvimento

A comparação internacional é decisiva porque desmonta uma confusão muito comum: crescer muito durante alguns anos não é o mesmo que construir desenvolvimento duradouro.

O Brasil do “milagre” cresceu em ritmo acelerado entre 1968 e 1973. Coreia do Sul, Taiwan e Espanha também cresceram fortemente no mesmo ciclo histórico – e, em muitos aspectos, fizeram algo que o Brasil não conseguiu: converter expansão econômica em ganhos estruturais de produtividade, educação, tecnologia e renda. As séries históricas do Maddison Project permitem observar esse deslocamento no PIB per capita de longo prazo.

A diferença central está no legado.

A Coreia do Sul saiu das décadas de 1960 e 1970 com uma economia cada vez mais industrializada, exportadora e tecnologicamente sofisticada. Taiwan combinou reforma agrária, indústria leve, exportações e acumulação tecnológica. A Espanha, após o franquismo, integrou-se progressivamente à Europa democrática e modernizou sua economia. O Brasil, ao contrário, encerrou a ditadura com inflação explosiva, dívida externa gigantesca, recessão, arrocho salarial e uma sociedade profundamente desigual.

O ponto central dessa discussão é perguntar por que esse crescimento, no Brasil, não se transformou em desenvolvimento sustentável.

Essa comparação revela a fragilidade do mito. O Brasil não foi excepcional porque cresceu. Excepcional seria se tivesse usado aquele crescimento para reduzir desigualdades, elevar produtividade, fortalecer a educação, dominar tecnologia e sair do ciclo de dependência externa. Não foi o que ocorreu.

Enquanto países asiáticos transformavam crescimento em capacidade produtiva de longo prazo, o Brasil transformava parte importante de seu crescimento em dívida. A própria FGV observa que, já em 1973, dívida externa e inflação apareciam como problemas potencialmente crescentes para a administração seguinte.

A conta veio logo depois. Nos anos 1980, a crise da dívida externa produziu estagnação e alta inflação inercial, interrompendo o ciclo de crescimento que vinha desde décadas anteriores.

É aqui que a comparação se torna devastadora: Coreia do Sul, Taiwan e Espanha entraram nas décadas seguintes mais preparados para competir no mundo. O Brasil entrou nelas tentando sobreviver à própria herança econômica.

O “milagre”, visto desse ângulo, parece menos um caso de genialidade administrativa e mais um crescimento de alto fôlego, sustentado por crédito externo, compressão salarial e circunstâncias internacionais favoráveis. Quando essas circunstâncias desapareceram, o modelo não resistiu.

A pergunta final é simples: se outros países cresceram no mesmo período e conseguiram transformar crescimento em desenvolvimento, por que o Brasil terminou o regime militar mergulhado em dívida, inflação e crise?

Essa talvez seja uma das melhores formas de desmontar o mito econômico da ditadura. Não basta perguntar quanto o país cresceu. É preciso perguntar o que permaneceu depois do crescimento.

djalba.lima@gmail.com Escrito por:

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