Por DJALBA LIMA (*)
Das fitas da Casa Branca às pressões de hoje, uma investigação sobre os métodos de Washington para interferir no destino político brasileiro.

Durante décadas, as vozes permaneceram presas em fitas magnéticas, e os telegramas e memorandos ficaram protegidos por carimbos de sigilo. Os documentos silenciaram. Os planos, não. Foram executados – e ajudaram a produzir um golpe de Estado, a deposição de um presidente constitucional e uma ditadura que duraria 21 anos.
Agora, aqueles registros voltam a assombrar o presente. Não porque o Brasil esteja vivendo uma repetição de 1964. A História não retorna com os mesmos personagens, as mesmas armas ou os mesmos pretextos. Mas certos métodos sobrevivem ao tempo. Mudam as palavras, os instrumentos e as circunstâncias; permanece a tentação de uma potência estrangeira de converter sua força econômica e diplomática em autoridade sobre as escolhas de outro país.
Durante as negociações para reverter as tarifas de 50% impostas aos produtos brasileiros, representantes dos Estados Unidos apresentaram uma lista de 21 pontos. O documento ultrapassava as relações comerciais. Exigia garantias para eleições consideradas “livres e justas”, sem restrições à participação dos chamados “dissidentes políticos”; tratava de liberdade de expressão, regulação das plataformas digitais, sanções financeiras e acesso norte-americano a minerais críticos brasileiros.
A palavra “dissidentes” não era inocente. Procurava conferir a determinados opositores investigados ou condenados por ataques à ordem democrática a condição de perseguidos políticos – e transformava a disputa interna brasileira em objeto de negociação com um governo estrangeiro.
O Itamaraty considerou as exigências inaceitáveis. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o documento havia sido remetido ao “arquivo morto”. Mas os papéis podem ser arquivados sem que desapareça a política que os produziu. Pouco depois, a Agência Brasileira de Inteligência alertou o governo e o Tribunal Superior Eleitoral para o risco de pressões políticas, econômicas e diplomáticas dos Estados Unidos interferirem no ambiente institucional e no debate público durante as eleições.
É nesse ponto que os arquivos do golpe deixam de pertencer apenas ao passado. Em 1962, a pressão vinha acompanhada por outra linguagem. Falava-se em comunismo, segurança hemisférica, defesa do mundo livre e proteção dos interesses norte-americanos. A ajuda econômica era oferecida ou retida conforme a orientação política do governo brasileiro. Washington pretendia decidir quais ministros João Goulart deveria afastar, que alianças poderia manter e até que limites sua política externa teria permissão para alcançar.
Hoje, os argumentos são outros: suposta liberdade de expressão, proteção das empresas de tecnologia, segurança econômica, minerais estratégicos e hipotética defesa de opositores políticos. Não são situações idênticas. Mas existe entre elas uma pergunta inquietante: até onde uma potência acredita poder utilizar tarifas, sanções e recursos econômicos para interferir nas decisões soberanas de outro país?
Os documentos de 1962 a 1964 ajudam a compreender por que essa pergunta não pode ser respondida com ingenuidade. Quando as fitas da Casa Branca foram abertas, ouviu-se algo que os brasileiros da época não puderam ouvir.
Em 30 de julho de 1962, John Kennedy reuniu-se no Salão Oval com Lincoln Gordon, embaixador norte-americano no Brasil, e Richard Goodwin, assessor para a América Latina. O sistema secreto de gravação presidencial acabara de ser instalado. A primeira conversa registrada por aquelas máquinas teve como tema o Brasil. É por essa fita que começa o nosso diário.
Veja no texto seguinte o que eles disseram.
(*) DJALBA LIMA é jornalista e editor de Relatos.

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