Por que o oprimido defende seu opressor?
Por DJALBA LIMA (*)
Há personagens de ficção que envelhecem. Outros atravessam o tempo. Stephen, o velho escravo interpretado por Samuel L. Jackson em Django Livre, pertence à segunda categoria.
À primeira vista, ele parece apenas um auxiliar de Calvin Candie, o proprietário da fazenda escravista que domina a narrativa. À medida que o filme avança, porém, percebe-se algo mais perturbador. Stephen não serve apenas ao senhor. Ele acredita nele. Defende-o. Vigia os demais escravos. Protege a ordem da fazenda com um zelo que, em certos momentos, supera o do próprio Candie.
É um personagem desconfortável porque desafia uma expectativa intuitiva: a de que os oprimidos se oponham naturalmente aos seus opressores. A história humana mostra exatamente o contrário.
Durante séculos, reis foram defendidos por camponeses miseráveis. Impérios coloniais encontraram colaboradores entre os povos dominados. Regimes autoritários mobilizaram multidões compostas justamente por aqueles que mais sofriam suas consequências. Escravos denunciaram escravos. Trabalhadores combateram trabalhadores. Mulheres defenderam sistemas que restringiam sua autonomia. Pobres apoiaram projetos concebidos para beneficiar os mais ricos.
A pergunta atravessa séculos e ideologias: por que isso acontece?
Talvez porque a dominação mais eficiente não seja aquela que controla os corpos, mas aquela que conquista as consciências.
Em 1973, durante um assalto a banco em Estocolmo, quatro reféns passaram seis dias sob o controle de criminosos armados. Após a libertação, surpreenderam psicólogos e autoridades ao demonstrar simpatia pelos sequestradores. O episódio deu origem ao termo “Síndrome de Estocolmo”, utilizado para descrever vínculos afetivos desenvolvidos por vítimas em situações extremas de dependência e ameaça.
A comparação com a política precisa ser usada com cautela. Não existe evidência de que escolhas eleitorais possam ser explicadas por um mecanismo clínico semelhante. Ainda assim, a metáfora continua provocadora porque aponta para algo real: a extraordinária capacidade que relações de poder possuem de produzir lealdade entre aqueles que ocupam posições subordinadas.
Foi justamente esse fenômeno que fascinou alguns dos maiores intérpretes da vida social.
Gramsci observou que as classes dominantes não governam apenas pela força. Governam porque conseguem apresentar sua visão de mundo como se fosse a visão natural de toda a sociedade. A isso chamou hegemonia.
Bourdieu descreveu processo semelhante ao analisar a violência simbólica: uma forma de poder tão sofisticada que dispensa coerção permanente. Os dominados acabam incorporando os valores, critérios e percepções dos dominantes, reproduzindo espontaneamente a ordem existente.
Paulo Freire formulou talvez a versão mais contundente dessa ideia. Em sua análise, o grande drama do oprimido é que ele frequentemente abriga dentro de si a imagem do opressor. Em vez de desejar a transformação da estrutura que o submete, sonha em ocupar um lugar privilegiado dentro dela.
A crítica não era moral. Era histórica.
Freire procurava compreender por que sistemas profundamente injustos conseguem sobreviver por tanto tempo sem depender exclusivamente da violência.
O psiquiatra Frantz Fanon encontrou fenômeno semelhante ao estudar o colonialismo. Em diversos contextos coloniais, observou que parte dos dominados passava a enxergar a si mesma através do olhar do colonizador, internalizando valores, preconceitos e hierarquias que legitimavam sua própria subordinação.
Essa talvez seja uma das descobertas mais inquietantes das ciências humanas: a opressão duradoura produz adaptação. Aquilo que deveria causar revolta passa a parecer natural. Aquilo que deveria ser percebido como privilégio converte-se em mérito. Aquilo que deveria ser questionado transforma-se em senso comum.
Mas existe ainda outro elemento. Os seres humanos raramente se movem apenas por interesses econômicos. Movem-se também por identidade, pertencimento, religião, valores morais, medo e esperança.
Estudos recentes de psicologia política mostram que eleitores frequentemente votam menos em função de benefícios materiais imediatos e mais em função da comunidade simbólica à qual acreditam pertencer. Muitas vezes, a identidade cultural pesa mais do que a posição econômica.
Isso ajuda a explicar por que trabalhadores podem apoiar projetos econômicos que aparentemente os prejudicam, assim como ajuda a explicar por que empresários apoiam políticas que lhes trazem custos. Em ambos os casos, a decisão política ultrapassa o cálculo financeiro. Ela envolve pertencimento.
Stephen é um personagem memorável porque encarna a forma extrema desse fenômeno. Ele não usa correntes. Não precisa delas. A ordem escravista já se instalou dentro dele. Por isso continua tão perturbador. Não porque represente todos os pobres. Não porque represente todos os conservadores. Nem porque represente uma posição política específica.
Ele nos inquieta porque revela uma possibilidade permanente da experiência humana: a de que o poder, quando suficientemente duradouro e eficaz, possa ser defendido com entusiasmo exatamente por aqueles que mais deveriam questioná-lo.
E talvez seja essa a lição mais desconfortável de todas. As correntes mais resistentes da história raramente foram feitas apenas de ferro. Muitas vezes foram feitas de ideias.
Talvez seja por isso que Stephen continua nos incomodando tanto. Não porque represente um escravo do século XIX. Nem porque represente um eleitor do século XXI. Ele nos incomoda porque encarna uma possibilidade permanente da condição humana: a de colaborar com aquilo que nos diminui, de defender aquilo que nos submete e de amar as correntes que nos prendem.
As formas de dominação mudam. Mudam os impérios, os senhores, as ideologias, as bandeiras e os discursos. O mecanismo, porém, permanece surpreendentemente semelhante. O poder mais duradouro raramente é aquele que se impõe apenas pela força. É aquele que consegue transformar obediência em convicção, submissão em identidade e dependência em virtude.
Talvez por isso a filósofa Simone de Beauvoir tenha formulado uma das observações mais desconfortáveis da modernidade: “O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos.”
A frase não é apenas uma denúncia. É um alerta.
Porque toda sociedade que perde a capacidade de questionar os privilégios, as hierarquias e as narrativas que a organizam corre o risco de produzir seus próprios Stephens – homens e mulheres que, sem perceber, passam a vigiar as portas da própria prisão.
(*) DJALBA LIMA é jornalista e editor de Relatos – A Estação da História.

“O poder mais duradouro raramente é aquele que se impõe apenas pela força. É aquele que consegue transformar obediência em convicção, submissão em identidade e dependência em virtude”. Isso é angustiante e absurdamente atual, Djalba.
É a reprodução do panóptico de Foucault em escala mundial e histórica. A sensação constante da vigilância que nos leva a internalizar as regras, e crer que são nossas. “Disciplinados”, passamos a assumir também o papel dos vigilantes. A humanidade parece cada vez mais inconscientemente obediente e previsível.
Mais uma análise imperdível e atualíssima!:
Parabéns, Djalba!