Por que o brasileiro parece trocar a expectativa de um salvador da pátria pela busca de estabilidade
Por DJALBA LIMA (*)
Durante décadas, a política brasileira foi movida por uma promessa sedutora: a de que bastaria encontrar o líder certo para que o país finalmente resolvesse seus problemas históricos. A cada eleição surgia um novo personagem disposto a inaugurar uma era. Mudavam os discursos, mudavam as ideologias, mudavam os partidos. Permanecia, porém, uma constante: a expectativa de que alguém pudesse refundar o Brasil.
Foi assim na redemocratização. Foi assim com os projetos liberais dos anos 1990. Foi assim com o ciclo desenvolvimentista dos anos 2000. Foi assim com a promessa anticorrupção da década seguinte. Em momentos distintos, Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro chegaram ao poder embalados, em maior ou menor grau, pela ideia de que representavam uma ruptura capaz de reorganizar o país.
Mas talvez estejamos assistindo ao esgotamento desse imaginário.
Uma pesquisa Datafolha realizada em junho de 2026 oferece indícios de que algo mais profundo está acontecendo. Vista superficialmente, trata-se apenas de um levantamento sobre percepção da economia. Lida com atenção, porém, ela parece revelar uma mudança silenciosa na psicologia política do eleitor brasileiro.
Os números, isoladamente, parecem contraditórios. Apenas 22% afirmam que a economia melhorou nos últimos meses, enquanto 45% acreditam que ela piorou. Ainda assim, quando perguntados sobre o futuro, 36% acreditam que a situação econômica do país irá melhorar, contra 26% que esperam uma piora. Mais revelador ainda: 51% acreditam que sua situação econômica pessoal será melhor nos próximos meses.
Não é euforia. Também não é resignação. É algo muito mais sofisticado. É esperança sem ilusões. Ou, talvez, uma esperança disciplinada pela experiência.
Durante os últimos 15 anos, os brasileiros viveram uma sequência rara de choques históricos. A recessão de 2015-2016, o impeachment presidencial, a Operação Lava Jato, a polarização crescente, a pandemia de Covid-19, a inflação mundial, as guerras internacionais, os ataques às instituições democráticas e a permanente sensação de conflito político produziram uma sociedade cansada.
Esse cansaço talvez seja hoje o principal ator das eleições de 2026.
O cientista político Ronald Inglehart demonstrou que as prioridades das sociedades não são fixas. Elas mudam conforme as condições de segurança material. Quando as pessoas sentem que suas necessidades básicas estão protegidas, passam a valorizar participação política, direitos civis, meio ambiente e qualidade das instituições. Mas, quando predominam o medo, a instabilidade econômica e a insegurança quanto ao futuro, as prioridades retornam ao essencial: emprego, renda, inflação, ordem e previsibilidade.
Talvez seja exatamente isso que os dados estejam registrando.
O eleitor brasileiro não parece ter abandonado suas convicções ideológicas. O que mudou foi a ordem de suas preocupações. Antes de discutir grandes projetos nacionais, ele quer saber quem conseguirá impedir que sua vida volte a sair dos trilhos.
Essa mudança ajuda a compreender outro dado aparentemente paradoxal da pesquisa. Os entrevistados demonstram mais confiança em seu próprio futuro do que no futuro do país. Enquanto apenas pouco mais de um terço acredita na melhora da economia nacional, mais da metade acredita que sua situação pessoal irá melhorar.
Essa diferença revela um traço antigo da sociedade brasileira: a confiança no esforço individual sobrevive mesmo quando a confiança nas instituições vacila. O brasileiro continua acreditando mais na própria capacidade de adaptação do que na eficiência do Estado. É um país que frequentemente desconfia do coletivo, mas preserva a esperança privada.
Essa leitura encontra um diálogo quase perfeito com Zygmunt Bauman. Em Medo Líquido, o sociólogo polonês argumenta que a experiência dominante do século XXI deixou de ser a busca da liberdade e passou a ser a convivência permanente com a incerteza. Empregos tornaram-se instáveis. As fronteiras geopolíticas voltaram a produzir guerras. A tecnologia acelera mudanças em ritmo superior à capacidade humana de assimilá-las. As instituições parecem menos sólidas do que pareciam às gerações anteriores.
Nesse contexto, segurança deixa de ser apenas um tema econômico. Torna-se uma necessidade psicológica. É exatamente aí que a política encontra seu novo desafio.
Durante boa parte do período pós-redemocratização, campanhas eleitorais vendiam esperança. Hoje, talvez precisem oferecer previsibilidade. Essa diferença é decisiva. A esperança aceita riscos. A previsibilidade procura reduzi-los.
Daniel Kahneman, prêmio Nobel de Economia, demonstrou que seres humanos são profundamente avessos às perdas. Sofremos mais ao perder cem reais do que nos alegramos ao ganhar a mesma quantia. Esse mecanismo, conhecido como aversão à perda, ajuda a explicar comportamentos econômicos, decisões cotidianas e, muito provavelmente, escolhas eleitorais.
Depois de tantos anos acumulando crises sucessivas, parte significativa do eleitorado parece menos disposta a apostar em grandes saltos e mais inclinada a preservar aquilo que conquistou. Não porque tenha perdido a capacidade de sonhar, mas porque aprendeu o custo das promessas que fracassam.
Talvez este seja o verdadeiro significado político da pesquisa.
Os brasileiros continuam querendo melhorar de vida. Continuam desejando crescimento econômico, oportunidades e prosperidade. O que parece ter diminuído é a disposição para aventuras.
A polarização continua existindo. Ela aparece claramente quando a percepção da economia varia conforme renda, religião, região e preferência eleitoral. Os mesmos indicadores econômicos continuam sendo interpretados de maneiras radicalmente distintas por grupos políticos diferentes.
Mas, por baixo dessa superfície ruidosa, emerge uma convergência silenciosa. Todos estão cansados da instabilidade. A diferença está apenas na resposta que imaginam para superá-la.
Talvez seja esse o principal desafio dos candidatos em 2026. Não bastará apresentar programas de governo. Será preciso transmitir confiança. Não bastará prometer mudanças. Será necessário convencer os eleitores de que essas mudanças não ampliarão as incertezas que já pesam sobre suas vidas.
A política, afinal, sempre foi uma disputa por expectativas. Mas talvez nunca tenha sido tão claramente uma disputa pela administração das ansiedades coletivas. Por isso, talvez a principal novidade da eleição de 2026 não esteja nos candidatos, nem nos partidos, nem mesmo nas propostas econômicas. Ela pode estar no próprio eleitor.
Depois de uma década e meia atravessando crises quase ininterruptas, o Brasil parece formar um novo perfil de cidadão. Um eleitor que continua desejando melhorar de vida, mas que já não procura salvadores da pátria. Procura governantes capazes de oferecer estabilidade, previsibilidade e alguma serenidade em um mundo cada vez mais imprevisível.
As eleições de 2026 talvez não sejam decididas pelo candidato que oferecer a maior esperança. Talvez sejam decididas por aquele que conseguir produzir a menor ansiedade.
(*) DJALBA LIMA é jornalista e editor de Relatos – A Estação da História.
Veja a pesquisa DataFolha sobre a situação econômica brasileira e pessoal.

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