O que o atendimento aos usuários de drogas em Amsterdã tem a ver com a política brasileira?

Por DJALBA LIMA (*)

A política não constrói o paraíso do outro lado. Ela apenas impede a queda

À primeira vista, nada. De um lado, uma cidade europeia tentando lidar com dependentes químicos. De outro, um país continental dividido por disputas políticas, dilemas econômicos e incertezas geopolíticas. Mas talvez exista uma conexão mais profunda do que parece.

Ela começa com uma pergunta simples: o que fazer quando o mundo real não corresponde ao mundo ideal?

Há décadas, Amsterdã adota uma estratégia que costuma provocar estranhamento em observadores de outras partes do mundo. Em vez de tratar a dependência química apenas como um problema policial ou moral, a cidade passou a encará-la principalmente como uma questão de saúde pública e integração social.

Criou salas de consumo assistido, programas de substituição por metadona, centros de acolhimento e moradia protegida. E promoveu equipes multidisciplinares para enfrentar o problema.

A lógica por trás dessas iniciativas é conhecida como redução de danos. O princípio é quase desconcertante em sua simplicidade. O ideal seria que ninguém consumisse drogas. Mas o ideal não mora aqui. O usuário existe. O vício existe. O sofrimento existe.

Diante dessa realidade, a pergunta muda. Em vez de perguntar como seria o mundo perfeito, passa-se a perguntar como evitar que a situação se torne ainda pior. A redução de danos não celebra o problema. Não transforma o vício em virtude. Não abandona o objetivo da recuperação.

Ela apenas reconhece que políticas públicas precisam lidar com seres humanos reais vivendo em circunstâncias reais. Pode parecer uma reflexão restrita à saúde pública. Não é.

Na verdade, ela ilumina uma das questões centrais da política contemporânea. Porque uma parte significativa das crises de nosso tempo nasce justamente da incapacidade de distinguir o mundo desejado do mundo existente.

A política transformou-se, em muitos lugares, numa disputa entre projetos de salvação. Cada grupo acredita possuir a solução definitiva. Cada corrente ideológica apresenta sua visão como verdade absoluta. Cada eleição é tratada como um confronto final entre o bem e o mal. O resultado costuma ser previsível.

A realidade resiste. Problemas complexos permanecem complexos. E a frustração alimenta novas ondas de radicalização. Talvez porque tenhamos esquecido uma distinção formulada há mais de um século por Max Weber.

Weber falava em duas formas de agir politicamente. A primeira era a ética da convicção. Ela pergunta: o que considero moralmente correto? A segunda era a ética da responsabilidade. Ela pergunta: quais serão as consequências concretas da minha decisão?

Ambas são necessárias. Uma sociedade sem convicções perde seus princípios. Mas uma sociedade sem responsabilidade perde o contato com a realidade.

A redução de danos pertence claramente ao segundo campo. Ela não ignora valores, mas reconhece limites. Não pergunta apenas o que seria desejável. Pergunta também o que é possível. E, sobretudo, pergunta o que acontece quando ignoramos as consequências de nossas escolhas.

Essa talvez seja uma das lições mais importantes para a política brasileira. Vivemos uma época em que a moderação é frequentemente confundida com fraqueza. A prudência é confundida com covardia. O compromisso é confundido com traição. E qualquer tentativa de nuance é recebida com suspeita.

Mas a história raramente é uma disputa entre perfeição e desastre. Na maior parte do tempo, ela é uma escolha entre alternativas imperfeitas – entre riscos maiores e menores, entre danos reversíveis e danos irreversíveis, entre caminhos que ampliam possibilidades futuras e caminhos que as destroem.

A própria ideia de redução de danos parte desse princípio: ela não promete eliminar todos os riscos. Promete reduzi-los. E talvez uma das grandes ilusões políticas de nosso tempo seja justamente a promessa de risco zero.

Analise com parcimônia o líder que promete acabar definitivamente com a corrupção, o governante que promete eliminar a violência, o movimento que promete resolver todos os problemas históricos, o partido que se apresenta como portador exclusivo da verdade.

A experiência histórica recomenda cautela. As maiores tragédias do século XX nasceram precisamente da crença de que a política poderia produzir soluções definitivas para problemas humanos permanentes.

É nesse ponto que a reflexão ganha uma dimensão ainda mais ampla, porque a redução de danos não é apenas uma política pública. Ela é, em certo sentido, um dos fundamentos da própria civilização.

A democracia, por exemplo, pode ser compreendida como uma gigantesca estratégia de redução de danos. A separação dos poderes não foi criada porque os governantes são sábios; foi criada porque frequentemente não são. As constituições modernas não existem porque os homens são virtuosos; existem porque podem ser arbitrários. A liberdade de imprensa não foi concebida porque os governos sempre dizem a verdade; foi concebida porque podem mentir. As eleições periódicas não pressupõem líderes infalíveis; pressupõem exatamente o contrário.

Toda a arquitetura institucional das democracias modernas parte de uma premissa profundamente realista: seres humanos são falíveis. E, justamente por isso, o poder precisa ser limitado.

O mesmo raciocínio aparece em alguns dos momentos decisivos da história contemporânea. Após duas guerras mundiais, a Europa não encontrou uma fórmula mágica para eliminar rivalidades nacionais, conflitos econômicos ou diferenças culturais. O que fez foi construir instituições capazes de reduzir a probabilidade de novas catástrofes.

Durante a Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética permaneceram adversários. Mas, depois da crise dos mísseis de Cuba, compreenderam que a busca da vitória absoluta poderia produzir uma derrota comum: a destruição nuclear. A coexistência pacífica não nasceu da confiança. Nasceu da prudência.

Também a redemocratização brasileira pode ser vista sob essa perspectiva. Ela não entregou o país ideal imaginado por nenhum grupo político. Mas permitiu que o Brasil deixasse para trás um regime autoritário sem mergulhar numa guerra civil, numa revanche generalizada ou numa ruptura institucional permanente. E permitiu que, a partir daí, cada corrente pudesse exercer sua cidadania e a busca de seu ideal político.

Em todos esses casos, a lógica é semelhante. Não se trata de construir o paraíso; trata-se de evitar o abismo. Talvez por isso possamos afirmar que a civilização avança menos pela construção de paraísos do que pela contenção de catástrofes. Essa frase ajuda a compreender não apenas o passado, mas também os desafios do presente.

O Brasil vive um momento de forte polarização política. Ao mesmo tempo, encontra-se diante de um mundo cada vez mais multipolar, marcado pela ascensão da China, pelo fortalecimento da Índia, pela ampliação dos BRICS e pelo enfraquecimento relativo da hegemonia norte-americana.

Nesse contexto, o debate público frequentemente é reduzido a falsas escolhas, como alinhar-se integralmente aos Estados Unidos ou à China. Ou seja, escolher entre um campo político e outro. Transformar adversários em inimigos. Trocar complexidade por slogans.

Mas países maduros raramente prosperam por meio de escolhas absolutas. Prosperam porque preservam autonomia ou porque reduzem vulnerabilidades. Evoluem porque mantêm abertas múltiplas possibilidades ou porque evitam dependências excessivas. Crescem porque compreendem que o interesse nacional costuma exigir mais prudência do que paixão ou mais responsabilidade do que convicção – mais estratégia do que fé.

Talvez seja exatamente essa a principal lição que Amsterdã tem a oferecer. Não por causa das drogas. Nem por causa da Holanda. Mas porque sua política parte de uma constatação profundamente humana: a vida é imperfeita, as sociedades são imperfeitas, os governos são imperfeitos. Os próprios cidadãos são imperfeitos.

A sabedoria não consiste em ignorar essa realidade. Consiste em construir instituições, políticas e escolhas capazes de conviver com ela sem permitir que ela nos destrua.

As salas de consumo assistido de Amsterdã não existem porque os holandeses desistiram da recuperação dos dependentes químicos. Existem porque decidiram que ninguém deveria morrer antes de ter a chance de se recuperar.

Talvez a democracia exija a mesma sabedoria. Nem sempre conseguiremos construir o país dos nossos sonhos. Nem sempre encontraremos líderes à altura de nossas expectativas. Nem sempre a história oferecerá boas alternativas.

Mas ainda assim podemos escolher os caminhos que preservam mais possibilidades para o futuro, porque a política não existe para administrar utopias; existe para manter abertas as portas do futuro.

E talvez a verdadeira maturidade política comece exatamente quando compreendemos que governar não é escolher o paraíso. É impedir a queda no abismo.

(*) DJALBA LIMA é jornalista e editor de Relatos – A Estação da História;

djalba.lima@gmail.com Escrito por:

2 Comentários

  1. Teresa Cardoso
    junho 23, 2026
    Responder

    Boa sacada essa sua comparação entre o impasse político vivido pelo Brasil e a solução humanitária adotada pela Holanda para enfrentar o consumo de drogas. “Salas de consumo assistido de Amsterdã não existem porque os holandeses desistiram da recuperação dos dependentes químicos. Existem porque decidiram que ninguém deveria morrer antes de ter a chance de se recuperar.” Pena, Djalba, que essa sabedoria calvinista esteja longe do nosso fla-flu político.

  2. Dairan da Silva Lima
    junho 24, 2026
    Responder

    Excelente análise. Parabéns!

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