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Muito além de um protesto estudantil, uma ruptura cultural, política e simbólica que redesenhou o século XX
Por DJALBA LIMA (*)
1968 foi o ano que ninguém esqueceria. Começou sob o signo da esperança. Em 31 de dezembro de 1967, a manchete do The New York Times parecia anunciar uma despedida melancólica, mas otimista de um mundo em crise:
“The world says goodbye to a violent year”
(“O mundo dá adeus a um ano violento.”)
O ano que terminava fora brutal. Guerras, assassinatos políticos, tensões raciais e revoltas sociais. Parecia razoável imaginar que 1968 pudesse trazer algum alívio.
O próprio Papa Paulo VI tentara insuflar essa esperança ao declarar 1º de janeiro como o Dia Mundial da Paz, apelando por uma trégua no conflito do Vietnã. De forma extraordinária, Estados Unidos, Vietnã do Norte e Vietnã do Sul concordaram com uma suspensão temporária das hostilidades.
Por breves horas, parecia possível acreditar.
Segundo o historiador Mark Kurlansky, autor de 1968: o ano que abalou o mundo, quando a meia-noite chegou ao Delta do Mekong, no Vietnã do Sul, os sinos das igrejas começaram a repicar celebrando o novo ano.
Tudo parecia suspenso. O mundo respirava.
Mas o intervalo de esperança durou pouco.
Enquanto os sinos ainda ecoavam na noite úmida do Mekong, guerrilheiros vietcongs atacaram de surpresa uma unidade sul-vietnamita: 19 soldados morreram; outros 17 ficaram feridos.
Era um prenúncio. A paz prometida para 1968 não sobreviveria às primeiras horas do ano.
Um choque que abalou o mundo
Poucas semanas depois, viria o choque que abalaria o planeta. Na madrugada de 30 para 31 de janeiro de 1968, durante o Tet Nguyen Dan – o ano novo lunar vietnamita, tradicionalmente associado a cessar-fogos –, forças do Vietnã do Norte e guerrilheiros vietcongs lançaram uma ofensiva coordenada contra cidades, bases militares e centros administrativos do Vietnã do Sul.
Foi a chamada Ofensiva do Tet. Dezenas de milhares de combatentes atacaram simultaneamente mais de uma centena de alvos. Até a embaixada dos Estados Unidos em Saigon foi invadida.
Militarmente, Washington e o Vietnã do Sul resistiriam. Politicamente, porém, algo havia mudado.
Se o inimigo era capaz de golpear daquela forma, como continuar acreditando que a guerra estava sendo vencida?
Militarmente, a ofensiva acabou custando perdas enormes aos vietcongs. Politicamente, porém, foi devastadora para Washington.
Durante anos, o governo dos Estados Unidos afirmara que a vitória estava próxima. Mas, se o inimigo era capaz de coordenar ataques dessa magnitude, como acreditar que a guerra estava sendo vencida? A imagem de uma guerra “sob controle” entrou em colapso.
A cobertura televisiva intensificou o choque. Pela primeira vez, milhões de pessoas assistiam à guerra praticamente em tempo real: cidades destruídas, soldados mortos, civis em fuga, execuções sumárias.
Um dos episódios mais emblemáticos foi a execução de um prisioneiro vietcong em plena rua de Saigon, fotografada diante do mundo – uma imagem que se tornaria símbolo da brutalidade do conflito.
UMA IMAGEM, O HORROR MORAL NUM INSTANTE

A partir dali, cresceu entre estudantes, intelectuais e parte da opinião pública americana a sensação de que aquela guerra não era apenas cruel: era também inútil.
E isso ajuda a explicar por que 1968 se transformaria no ano em que a juventude global colocou em xeque não apenas a guerra, mas o próprio poder. A paz havia durado apenas algumas horas. Era um prólogo do que viria. Porque 1968 não seria um ano de paz. Seria um ano de incêndio político.
Maio de 68 não foi um evento isolado, nem restrito à França. Foi o ponto de condensação de uma onda global de contestação que atravessou universidades, fábricas, ruas e instituições em diversas partes do mundo.

O planeta sai dos trilhos
Se alguém tivesse atravessado o mundo ao longo daqueles meses, teria encontrado um planeta em combustão. Mas foi em Paris que essa energia atingiu sua forma mais explosiva. Tudo começou como uma revolta estudantil – e terminou como uma das maiores crises políticas da França no século XX.
Pouco antes, em abril, o assassinato de Martin Luther King Jr. incendiou cidades americanas. Poucos meses depois, outro tiro interromperia a campanha presidencial de Robert F. Kennedy.
Na madrugada de 5 de junho de 1968, após celebrar a vitória nas primárias democratas da Califórnia, Kennedy atravessava a cozinha do Hotel Ambassador, em Los Angeles, quando foi baleado. Morreu menos de 26 horas depois.
Seu assassinato teve um efeito simbólico sobre o espírito daquele tempo. Para milhões de americanos, não morria apenas um candidato: morria a esperança de que os Estados Unidos encontrassem uma saída menos violenta para sua própria crise. Depois de Luther King, outro elo entre mudança e esperança havia sido quebrado.
Na Europa Oriental, a chamada Primavera de Praga tentou construir um “socialismo de rosto humano”, ampliando liberdades civis e descentralizando a economia. O movimento liderado por Alexander Dubcek foi esmagado pelos tanques soviéticos.

Voltando à França: estudantes ocupariam universidades, ergueriam barricadas e desencadeariam uma greve geral que mobilizou cerca de 10 milhões de trabalhadores.
Na América Latina, cresciam ditaduras, repressão e resistência. No México, estudantes seriam massacrados na Praça das Três Culturas, em Tlatelolco. Em Berlim, Roma, Tóquio, Chicago, Berkeley e Rio de Janeiro, jovens tomavam ruas, universidades e praças. Não havia um comando global unificado.
Mas havia algo compartilhado: uma sensação difusa – e poderosa – de que o mundo velho já não funcionava.
O Brasil também foi às ruas
1968 também incendiou o Brasil. Sob a ditadura militar instaurada após o golpe de 1964, estudantes, artistas, intelectuais, religiosos e setores da classe média passaram a desafiar publicamente o regime.
O estopim veio em março, quando o estudante secundarista Edson Luís de Lima Souto foi morto pela polícia militar durante repressão a um protesto no restaurante estudantil Calabouço, no Rio de Janeiro.
O episódio provocou indignação nacional. O enterro de Edson Luís transformou-se em ato político. As ruas começaram a ferver. Em 26 de junho de 1968, o país assistiria a uma das maiores manifestações da história republicana: a Passeata dos Cem Mil.
No centro do Rio de Janeiro, uma multidão reuniu estudantes, intelectuais, artistas, religiosos, jornalistas e cidadãos comuns. Ali estavam nomes como Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Clarice Lispector, além de parlamentares da oposição e líderes estudantis.
O protesto denunciava a repressão policial. a censura. a violência do regime militar e a ausência de liberdades democráticas.
Por algumas horas, parecia possível imaginar uma abertura. Mas a esperança seria breve. Em dezembro daquele mesmo ano, o regime responderia com o endurecimento extremo do poder: o Ato Institucional nº 5 (o AI-5 ) suspendia garantias constitucionais, ampliava a censura e inaugurava o período mais duro da ditadura.
Assim como em Paris, Praga ou Chicago, 1968 deixava uma lição amarga: o poder podia vacilar, mas também sabia reagir. E, não raro, reagia com violência.
A juventude entra em cena
Talvez o traço mais extraordinário de 68 tenha sido este: pela primeira vez, em escala global, a juventude deixou de ser apenas uma fase da vida para se tornar um ator histórico. Jovens não tinham apenas sonhos pequenos burgueses de melhores salários ou pequenas reformas. Queriam questionar a autoridade. Queriam contestar a universidade, a guerra, o racismo, o patriarcado, a moral sexual, a burocracia, o capitalismo e o imperialismo. E, em muitos casos, até a própria ideia de obediência.
Em Paris, um slogan sintetizaria o espírito do tempo:
“Sejam realistas: exijam o impossível.”
O mês em que o mundo explodiu
Em maio de 1968, Paris se transformaria em laboratório político, palco de barricadas, utopias, choques com a polícia e sonhos revolucionários. Pela primeira vez em décadas, um governo europeu pareceria balançar sob pressão popular. Era o início de algo maior. Muito maior.
O epicentro inicial foi a Universidade de Nanterre, onde estudantes protestavam contra estruturas acadêmicas rígidas, autoritarismo universitário, separação entre homens e mulheres nos alojamentos e currículos considerados ultrapassados
A repressão policial e o fechamento de Nanterre transferiram a tensão para a Sorbonne, no coração de Paris.
Ali, a crise se ampliou.
Barricadas foram erguidas. A polícia entrou em confronto direto com estudantes. A violência estatal transformou uma pauta universitária em um movimento político de grandes proporções.
A explosão: das universidades às fábricas
O que tornou 1968 singular não foi apenas o protesto estudantil – foi sua capacidade de se expandir. Em poucos dias, o movimento ganhou adesão de trabalhadores. O resultado foi histórico: cerca de 10 milhões de trabalhadores entraram em greve; fábricas foram ocupadas; e o país praticamente parou,
A França viveu uma situação próxima de uma crise revolucionária.
O governo de Charles de Gaulle chegou a cogitar medidas extraordinárias diante da escalada dos protestos. Em 29 de maio, no auge da crise, De Gaulle deixou Paris discretamente e viajou a Baden-Baden, na Alemanha Ocidental, para consultar o general Jacques Massu, comandante das tropas francesas estacionadas no país.
O episódio alimentou rumores de fuga, renúncia ou até preparação de uma solução militar. Pela primeira vez desde o pós-guerra, parecia possível imaginar a desestabilização do regime gaullista.
Mas a história tomaria outro rumo.
No dia seguinte, 30 de maio, De Gaulle retornou a Paris, discursou ao país em tom firme, dissolveu a Assembleia Nacional e convocou novas eleições legislativas. Ao mesmo tempo, grandes manifestações de apoio ao governo ocuparam as ruas da capital.
O resultado surpreendeu muitos observadores: os gaullistas venceram com ampla maioria parlamentar, impondo uma derrota política imediata ao movimento.
E, ainda assim, algo havia mudado.
De Gaulle permaneceria no poder apenas até abril de 1969, quando renunciou após perder um referendo sobre reformas administrativas e do Senado. Politicamente, sobrevivera a Maio de 68, mas talvez não ao mundo que Maio de 68 ajudara a transformar.

As pautas: um novo mundo em disputa
Diferentemente de movimentos tradicionais, Maio de 68 não tinha um programa único e centralizado. Mas havia eixos claros:
Reforma educacional:
• ruptura com modelos autoritários de ensino: e
maior autonomia estudantil.
Direitos trabalhistas:
• melhores salários;
• redução da jornada; e
• participação nas decisões dentro das empresa
Liberdade cultural e comportamental:
• questionamento da moral sexual tradicional;
• crítica ao patriarcado; e
• valorização da autonomia individual
Crítica ao poder e às instituições:
• rejeição à autoridade vertical (Estado, universidade, família);
• contestação da burocracia e do capitalismo industrial; e
• oposição ao imperialismo (especialmente à Guerra do Vietnã)
Os rostos do movimento
Embora profundamente horizontal, o movimento teve figuras simbólicas importantes. Entre elas, Daniel Cohn-Bendit, estudante franco-alemão, tornou-se o rosto mais visível da revolta estudanti; e intelectuais como Jean-Paul Sartre e Michel Foucault, que apoiaram e dialogaram com o movimento; sindicatos e organizações operárias, que ampliaram o alcance da mobilização.
Mas é importante destacar: Maio de 68 foi menos sobre líderes e mais sobre uma geração em movimento.
Os slogans: a linguagem da ruptura
Se houve algo em Maio de 68 foi absolutamente revolucionário, foi na linguagem. Os muros de Paris tornaram-se manifestos. Alguns dos slogans mais emblemáticos:
“É proibido proibir”
“Sejam realistas, exijam o impossível”
“A imaginação no poder”
Essas frases não eram apenas palavras de ordem; eram a expressão de uma nova sensibilidade política.
Os desafios e limites
Apesar da força, o movimento enfrentou obstáculos importantes, como falta de unidade programática, divergências entre estudantes e trabalhadores, resistência das instituições e capacidade de reação do Estado.
O governo negociou com sindicatos (Acordos de Grenelle), concedendo aumentos salariais e melhorias trabalhistas, o suficiente para desmobilizar parte da greve.
Se não venceu politicamente no curto prazo, Maio de 68 foi vitorioso no plano cultural e histórico.
Seus efeitos foram profundos: transformação das relações sociais, ampliação das liberdades individuais, mudança no papel da juventude e questionamento permanente das estruturas de poder.
A partir dali, a juventude deixou de ser apenas uma fase da vida e tornou-se um sujeito político.
Uma chave para entender o presente
Maio de 68 permanece como um marco não apenas pelo que aconteceu, mas pelo que simboliza. Foi o momento em que uma geração acreditou que podia interromper a história e redirecioná-la.
Comparado ao presente, ele levanta uma questão inevitável: o que acontece com uma sociedade quando essa crença se enfraquece?
(*) DJALBA LIMA é jornalista e editor de Relatos – A Estação da História.
Acompanhe relatos.blog.br e veja a próxima análise nos próximos dias – Da rebeldia à reação conservadora: a juventude no mundo que perdeu a capacidade de se indignar. Fique atento!

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